“NEGRINHA” E “AYA DE YOPOUGON”: DOIS RECORTES DA JUVENTUDE NEGRA

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Depois da exposição sobre quadrinhos africanos (LEIA), coincidentemente começam a chegar em nossas prateleiras as HQs do continente vizinho. Dois belos livros em quadrinhos estão disponíveis e fazem parte do catálogo da editora francesa Gallimard Jeunesse.O mote do Ano da França no Brasil pode ter contribuído, mas a qualidade de “Negrinha” (Desiderata) e “Aya de Yopougon” (L&PM) podem endossar o coro dos leitores ávidos por mais títulos made in Africa.

Negrinha” mostra o ponto de vista de dois franceses sobre o Rio de Janeiro dos anos 50, no entanto sem os clichês tradicionais. Olivier Tallec (desenhos) e Jean-Christophe Camus (texto) – este filho de um francês com uma brasileira – contam a história de Maria, uma menina morena de 13 anos que mora em Copacabacana, cuja mãe, Olinda, é uma negra que tem preconceito com outros negros e faz de tudo para esconder da filha sua origem humilde. “Uma morena de Copacabana não é uma negrinha da favela”, diz uma tia de Maria quando esta vai a favela conhecer sua avó e seus parentes. Na verdade, o preconceito é mostrado por uma via de mão dupla, tanto por parte de quem mora no morro quanto de quem está no asfalto.

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No entanto, Maria é uma menina inocente que vê beleza em tudo, cercada por personagens secundários como a dondoca que gasta dinheiro com bebidas e jogo do bicho, o porteiro galanteador e, claro, o vendedor de amendoins batizado de Toquinho, provavelmente em homenagem a época bossanovista da então capital do país. Apaixonada pelo menino, Maria descobre o samba na favela Pavão-Pavãozinho e que, de certa forma, todo mundo é meio parente nas comunidades menos favorecidas economicamente. Os desenhos em aquarela reforçam a poesia desta bela história de amor e descobertas.

COMO SER JOVEM NA COSTA DO MARFIM DOS ANOS 70
Por sua vez, em “Aya de Yopougon # 1“, Clément Oubrerie (arte) dá forma a história de Marguerite Abouet (texto). A autora conta um pouco do cotidiano num bairro popular de Abidjan, na Costa do Marfim, no ano de 1978. Na ocasião, Marguerite tinha 19 anos e de certa maneira se coloca no roteiro no papel da estudiosa Aya, que prefere estudar a sair à noite com suas amigas Bintou e Adjoua. O livro é divertidíssimo e sua narração flui facilmente, ensinando ao leitor as expressões, os costumes e as modas da África, ainda que datados da época de 70.

Um dos méritos deste primeiro volume das histórias de Aya – num total de quatro – é tratar das questões reais que envolvem a juventude africana, como o sexo livre, a gravidez na juventude, a promiscuidade, o machismo, a influência da cultura estrangeira (sobretudo francesa e americana), os valores e a relação conflituosa entre os aldeões (“caipiras”), os pobres da cidade e os ricos (representados pela figura do Senhor Sissoko, dono da Solibra, “a cerveja do homem forte”). Ao final, há um bônus instrutivo ensinando receitas típicas (gnamankudji – um suco de gengibre – e sopa de amendoim), como usar o pano na cabeça ou como saia, e até mesmo como rebolar!

Aya e amiga
amiga de aya escolhe roupa

Para finalizar, mais duas observações: Aya ganhou um prêmio em 2006 no Festival de Angouleme, na França, e pode consolidar uma tendência que começou com Persépolis (de Marjane Satrapi) de retratar a realidade cultural pouco conhecida de países exóticos como o Irã (no caso de Satrapi) e a Costa do Marfim através dos quadrinhos, realizando uma globalização quadrinhesca muito saudável. Vale também citar que tantos o ilustrador de “Aya” quanto de “Negrinha” não são quadrinistas, e sim ilustradores debutantes no mundo das bandas desenhadas. O JBlog estará acompanhando os próximos capítulos destas mudanças no mercado.
>> JORNAL DO BRASIL – por Pedro de Luna

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