SEDENTOS DE SANGUE #4: UM BEIJO OU UMA MORDIDA

Clique para Ampliar“DEIXA ELA Entrar”: o filme sueco narra a relação entre um garoto de 12 anos e uma vampira criança.

Clique para AmpliarVampiros em cena: “Fome de Viver”, “Entrevista com o Vampiro” e a saga “Crepúsculo” fizeram sucesso em diferentes épocas.

Sim, a literatura e, principalmente, Hollywood são os maiores responsáveis pela popularidade dos vampiros. São eles os responsáveis também por uma visão mais romântica dos vampiros, retratados como figuras trágicas e apaixonadas que veem a imortalidade como um mal e não como uma bênção. Mas a verdade em relação às lendas vampirescas é outra, e raramente os meios de comunicação são fieis à mitologia vampiresca.

“O vampiro, originalmente, é o cadáver que permanece vivo às custas do sangue que bebe dos vivos, os quais ele ataca furtivamente à noite”, descreve o jornalista Carlos Primati. “Sua natureza é maligna e ele é basicamente um monstro maldito como outros similares do folclore europeu (especialmente os carniçais e lobisomens)”.

Segundo Primati, esse conceito permaneceu inalterado, na literatura fantástica, até pelo menos o final do século XIX, quando Bram Stoker publicou “Drácula”. “O conde transilvano descrito por Stoker em seu livro é um ser asqueroso, destruidor e que espalha sua praga maldita por onde passa”, relata. “O filme mudo alemão ´Nosferatu, uma Sinfonia do Horror´, de 1922, é bastante fiel à essa imagem: o vampiro é grotesco, com rosto similar ao de um roedor”.

“O Drácula original não é romântico nem sedutor; é um equívoco as pessoas pensarem no vampiro desta maneira – pelo menos é um erro atribuir isso ao personagem criado por Bram Stoker”, acredita Primati, voraz consumidor de todos os filmes de horror, não só os protagonizados por vampiros.

“Essa imagem romântica provavelmente se deve à interpretação de Bela Lugosi, que transformou Drácula num aristocrata encantador e irresistível na versão para as telas de ´Drácula´, em 1931”, credita. “Basicamente, o fascínio em torno do vampiro se deve ao fato de ele ser imortal, independente e destemido. Re-interpretações do próprio ´Drácula´ fazem com que pareça invejável a situação do conde, que vive num castelo com três mulheres e tudo que faz é sugar o sangue dos vivos. De todos os monstros mitológicos, este parece ser o mais atraente ao senso-comum, especialmente por sua imortalidade”, explica o jornalista.

Evolução do homem
O sucesso dessa “nova” visão dos vampiros e o impacto causado por ela mudaram radicalmente a maneira de se imaginar o vampiro nos tempos modernos. Hoje, graças ao poder que o cinema e a televisão exercem no imaginário das pessoas, temos vampiros com dúvidas existenciais (os personagens das histórias de Anne Rice, que inspiraram o filme “Entrevista com Vampiro”); amaldiçoados e em busca da reencarnação do amor de sua vida (a bela versão de “Drácula” dirigida por Francis Ford Coppola); e vampiros modernos e figuras pop (“Fome de Viver”).

“Na verdade, a mídia praticamente ignora a mitologia clássica do vampiro, que seria mais próximo de um carniçal ou do que normalmente imaginamos como um zumbi nos filmes contemporâneos”, destaca Carlos Primati. “Os únicos filmes famosos que retratam o vampiro com as características da criatura que espalha praga e morte são as duas versões de ´Nosferatu´ – a de 1922, que citei anteriormente, e a refilmagem que Werner Herzog fez, em 1979, com Klaus Kinski no papel do morto-vivo”, cita.

“Estes são, em resumo, os únicos filmes nos quais a imortalidade e a necessidade de se alimentar com sangue humano são mostradas como maldição”, reforça o jornalista. “A grande maioria dos filmes mostra a condição de vampiro como uma grande vantagem sobre os seres humanos; não raramente, os vampiros são retratados como seres sobre-humanos, um estágio evoluído do homem”.

Reinvenção dos vampiros
Trágico, amaldiçoado, poderoso ou maligno, figuras que conquistam por meio de um beijo ou matam graças a uma mordida, os vampiros são personagens atualmente em voga. A versão adolescente dos vampiros explorada pela saga “Crepúsculo” ou acompanhada nos capítulos dos seriado “True Blood” (exbido no canal de assinatura HBO) é apenas um reflexo de um fascínio que perdura e tem se mantido constante desde a época do cinema mudo.

“Tal interesse é renovado de tempos em tempos com obras que despertam a atenção por algum aspecto novo, atraindo mais admiradores ao tema”, discorre Primati. “Para citar alguns dos filmes mais populares sobre o assunto, além das várias adaptações de ´Drácula´, vale destacar ´A Hora do Espanto´, de 1985, com seu estilo de horror cômico, ´Os Garotos Perdidos´, de 1987, que usou o vampiro como metáfora das ´tribos´ de jovens urbanos da década de 1980, e ´Anjos da Noite´, de 2003, que adaptou às telas a cultura dos RPG em estilo épico”, enumera.

Se Primati considera difícil citar obras que sejam ´fieis´ à mitologia clássica (com exceção de ´Nosferatu´), isso se dá em virtude do fascínio em torno dos vampiros se dever justamente à possibilidade de cada nova obra criar sua própria mitologia, de estabelecer novas regras e reinventar o vampiro. Isso justifica a profusão de novos livros e filmes lançados de tempos em tempos. Além de “Lua Nova” – que entra em cartaz na próxima sexta em volta de muita expectativa dos fãs para saber o desenrolar do romance entre a adolescente Bella (Kristen Stewart ) e o vampiro Edward (Robert Pattinson) -, outras produções também voltaram a dissecar o mito. O terror sueco “Deixa Ela Entrar”; a comédia trash ” Matadores de Vampiras Lésbicas”; e o sul-coreano “Sede de Sangue”. De produções independentes a produtos de grande orçamentos, os vampiros reinam.
>> DIÁRIO DO NORDESTE – por FF

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