ALAN MOORE E AS ADAPTAÇÕES DE QUADRINHOS PARA O CINEMA

Na sabedoria popular, uma das categorias de maluco é o “louco de rasgar dinheiro”, um cidadão tão pancada que não dá a menor importância para opiniões, valores, ou seja lá o que venha de outras pessoas.

Alan Moore, desenhista e roteirista britânico, é um dos artistas cujos roteiros de quadrinhos estão entre os mais requisitados na indústria do cinema. E também é o mais avesso às adaptações de quadrinhos no cinema, chegando a abrir mão de todos os direitos sobre as histórias só para não ter seu nome envolvido com as produções.

Seria Alan Moore um louco de rasgar dinheiro? É o que vamos tentar esclarecer.

Moore nasceu em 18 de novembro de 1953, em Northampton num meio muito pobre, social e financeiramente. Aos 18 anos, desempregado e sem nenhum treinamento, resolveu começar um projeto de revista chamado Embry com alguns amigos o que o levou, em 1979 a trabalhar como cartunista numa revista de música. Decidiu que como desenhista tinha pouco talento, focando seus esforços em roteirização. Nesse período criou sua primeira e comentada série: V de Vingança.
Não demorou para executivos de grandes editoras, especialmente a DC Comics, perceberem um grande talento. Como Midas, Moore transformava em ouro tudo o que caia nas suas mãos. E pelas suas mãos passaram O Monstro do Pântano, Superman, Lanterna Verde e finalmente Watchmen, considerada por muitos a melhor história em quadrinhos de todos os tempos.

A partir do renascimento dos filmes baseados em quadrinhos, não demorou para que o cinema batesse à porta de do roteirista. Agora, para tentar responder à questão lá de cima, vamos listar filmes baseados em histórias desse grande artista, seguidos de citações do próprio sobre as adaptações. As conclusões nós deixaremos a cargo de vocês. Vamos lá.

Do Inferno – From Hell, EUA (2001)

Na HQ, Alan Moore deu uma nova visão ao famoso caso de Jack, o Estripador. A produção não é ruim, na verdade, mas as adaptações feitas para as telas acabaram descaracterizando em muito o trabalho original. Vale ressaltar que o próprio Moore foi chamado pelos diretores Albert e Allen Hughes para uma conversa, o que parecia promissor. A quantidade de alterações nessa primeira adaptação à sério de um trabalho do autor deve ser a principal responsável por Moore torcer o nariz para toda e qualquer tentativa de levar um trabalho seu às telas.
A visão de Moore: Não consegui passar dos primeiros 10 minutos e não tenho a intenção de fazê-lo. Simplesmente quero distância disso porque não foi uma adaptação fiel do meu trabalho.

A Liga Extraordinária – League of Extraordinary Gentleman, EUA (2003)

Fantástica história onde Moore imagina uma agência secreta do governo britânico que reúne nomes lendários como Alain Quatermain, Mina (de Drácula), Dorian Gray e o Dr. Jeckyll para lutar contra um gênio do crime que quer conquistar o planeta. O problema todo começa na escalação de Sean Connery para viver Quatermain. Nos quadrinhos, Quatermain é um mero coadjuvante. Connery EXIGE que o papel seja aumentado para que ele participe do filme. O resultado é que ele acaba virando protagonista, desvirtuando toda a história.
 Uma pena, Moore realmente acreditava que esse roteiro tinha estrutura para virar filme.
A visão de Moore: Houve tantos incidentes com esse filme que eu pensei que a melhor atitude a tomar seria recusar todo o dinheiro, repassá-lo ao desenhista e retirar meu nome dos créditos do filme. E isso se tornou constante.

V de Vingança – V for Vendetta, EUA (2006)

Os Wachowskis – diretores de Matrix – juraram de pés juntos que queriam fazer uma versão absolutamente fiel à história de Moore passada numa Inglaterra distópica, onde um rebelde mascarado dedica a vida a derrubar um governo fascista. Na verdade o resultado se aproxima bastante do original. Mas Moore, que já estava ressabiado, foi apunhalado pelas costas na questão de direitos autorais. Foi a pá de cal que faltava na sua opinião sobre adaptações para o cinema

A visão de Moore: Depois de repassar meu dinheiro ao artista, a DC e a Warner acharam de colocar meu nome nos créditos. Um de seus produtores ridículos, Joel Silver, anunciou uma mentira irritante de que eu estaria incrivelmente empolgado com o filme e que estava conversando com ele e com os Wachowskis. Foi o início de uma briga de quase um ano bastante chata. Depois, no fim do ano, eles me mandaram um papel dizendo que iriam tirar meus nomes dos créditos.

Watchmen – idem, EUA (2009)

Para muitos, a maior história em quadrinhos de todos os tempos. É extremamente complicado resumir em poucas linhas do que se trata a história pela quantidade impressionante de subtramas que compõe um riquíssimo universo. Basicamente é a história de um mundo à beira do colapso num futuro paralelo onde vigilantes mascarados – e suas conseqüências no mundo real – são parte do cotidiano.
O problema com a adaptação, citando Moore quando começou a se cogitar uma adaptação para o roteiro, é justamente a quantidade de microhistórias  absolutamente necessárias que compõe um universo maior. Moore abriu mão dos direitos sobre a história, não quis ver seu nome vinculado à produção, e não quis assistir nem ao trailer.
Uma curiosidade: o diretor Terry Gillian cogitou adaptar a história para o cinema ainda nos anos 80. Depois de conversar com Moore, Gillian abandonou o projeto.

A (extensa) visão de Moore:
– Sobre Zack Snyder (diretor): Ele pode até ser um cara legal, mas o negócio é que ele fez 300. Não vi os últimos filmes de quadrinhos, mas particularmente não gostei da HQ 300. Tenho vários pontos a criticar, e tudo que ouvi ou vi sobre o filme parece ter incrementado as críticas, ao invés de reduzi-las: que é algo racista, que é homofóbico e, acima de tudo, totalmente idiota.
– Dave Gibbons me ligou, e é sempre bom conversar com Dave, mas ele compreende que não estou interessado em Watchmen. Ele perguntou se eu estaria interessado em ser mantido informado sobre o filme, e eu respondi que era sempre bom falar com ele, mas não estava interessado. Não sei muito sobre o filme. Sei que estão seguindo em frente. Não assistirei, obviamente.
– Há coisas que fizemos em Watchmen que só funcionariam em um gibi, e inclusive foram projetadas para mostrar coisas que outras mídias não conseguem.
– O que posso lhe dizer é que vou ficar cuspindo veneno por tudo [relacionado ao filme] nos próximos meses.
– Acho que o cinema na sua forma atual é muito prepotente. Ele nos dá comida na boca, o que dilui nossa imaginação cultural coletiva. É como se fôssemos passarinhos recém-saídos dos ovos olhando pra cima, com nossas bocas bem abertas, esperando que Hollywood nos alimente com um vômito de vermes. O filme de Watchmen parece mais vômito de vermes. Eu, pelo menos, cansei de vermes.

Para finalizar, Moore afirma ter aberto mão de pelo menos US$ 77 mil referentes a direitos de adaptação de seus roteiros para os cinemas. Essa quantia, vale dizer, é a que ficou sabendo. Quando abriu mão definitivamente dos seus direitos, Moore simplesmente desencanou de fazer as contas. Alguém aí se arrisca a dizer quanto dinheiro o roteirista já rasgou até hoje?
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