O FIM DO MUNDO ESTÁ PRÓXIMO

O que o calendário Maia revela sobre o Juízo Final em 2012

Depois de tantas novidades, a humanidade parece estar à espera de um ponto culminante para uma história que está por terminar. O que poderia ainda espantar as multidões acostumadas aos espetáculos e aniquilações e reviravoltas as mais avassaladoras e imprevisíveis? A resposta é: só o fim do mundo pode matar a curiosidade de nossos sentidos embotados pelo excesso de informação.

O ser humano anda sedento de apocalipse, mesmo que ele seja parte envolvida. Daí o sucesso dos programas de televisão e filmes que trata de catástrofes em geral. No fundo, a aniquilação em massa da humanidade é fascinante. Houve um gostinho de fim dos tempos com a explosão das bombas de Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945. Outro se fez presente na crise dos mísseis nucleares soviéticos em Cuba apontados para os Estados Unidos em outubro de 1962. Mais uma dose de elixir de apocalipse se deu em 11 de setembro de 2001, com os atentados suicidas contra o World Trade Center e o Pentágono nos Estados Unidos. Por causa disso, até poucos meses atrás o mundo amargou a impressão de que nada mais poderia acontecer. E as plateias se cansaram de tantas hecatombes em série que têm assolado o mundo: atentados, massacres, terremotos, tsunamis, a agonia da natureza… tudo virou um tédio só. Não parecia haver filme nem profecia capazes de preencher o instinto do rebanho que ruma à execução final. Experimentamos vários fins do mundo, anunciados ou não. Cansamos.

Agora o desejo ancestral volta a ser aceso com o longa-metragem 2012, um blockbuster sobre a catástrofe que destruirá o planeta na data-título. Mais especificamente, o filme mostra que tudo desabará no final do ano de 2012, inclusive o nosso Cristo Redentor. O papa explode com o Vaticano, a Golden Gate, o Empire State… Corra que o fim do mundo vem aí… mais um. O Apocalipse de São João fala de 1999, no que foi seguido por Nostradamus. Esses nossos amigos profetas assustaram a humanidade até o bug do milênio (lembra dele?). Eu próprio passei a infância tentando decifrar Nostradamus e São João, para não falar no Pero Magalhães de Gândavo, António Vieira, Santo Agostinho, Paracelso e até no Omar Cardoso (um horoscopista dos anos 70). Uma de minhas diversões consistia em extrair fatos da linguagem cifrada dos textos proféticos e discuti-las com meus amigos. O estilo dessa turba de iluminados é tão obscura, que qualquer tradução se afigura possível. Era um belo jogo de decifração. E os programas de televisão daqueles tempos incentivavam a prática de obscurantismo. Eu era menino e embarcava nessa. Há quem embarque até hoje nos astrólogos de plantão.

As invectivas ameaçadoras dos profetas me soam hoje inócuas. Como se não restassem mais profetas a recorrer, os realizadores foram buscar o pavor expresso nas previsões de uma civilização indígena extinta antes da chegada à América Central da horda sanguinária de dom Pedro de Alvarado, preboste do conquistador Hernán Cortés. Trata-se dos maias. Daqui a três anos, encerra-se a contagem do calendário desse povo, depois de 5 mil anos de vigência. Sim, agora há mais uma forte razão para entrar em pânico.

Já não sou otimista, como quando menino, que achava que o homem podia prever o dia de sua aniquilação – ainda que ele esteja se esforçando para facilitar o serviço dos visionários, tentando abreviar cada vez mais o tempo entre a profecia e o acontecimento… Prefiro hoje professar a crença de Jorge Luis Borges, que dizia que a metafísica era um dos ramos mais fecundos da literatura fantástica.

A volta da moda dos maias é a prova de que a doutrina do eterno retorno que eles professavam pode voltar, nem que seja sob a espécie da cultura pop tardia, e de uma narrativa fantástica. Eu me lembro que no início dos anos 70 eles eram populares por causa do livro e depois do filme Eram os deuses astronautas? do arqueólogo e ufólogo suíço Erich von Däniken. Däniken escreveu 29 livros para demonstrar a tese de que as civilizações antigas haviam entrado em contato com extraterrestres tecnologicamente avançados que teriam aterrissado no planeta e passado algumas de sua superstições e conhecimentos astronômicos. A imagem mais forte de todas as que Däniken coletou é a do “astronauta maia”, acomodado em uma espécie de cápsula espacial. Na realidade, tratava-se da fotografia do baixo-relevo que representa o deus alado da tumba de Palenque, no México. Miragem ou retrato fiel? Seja como for, os maias desenvolveram um calendário astronômico que se inicia no ano 3114 a.C. e se encerra no fatídico 2012.

Vou tentar esclarecer a questão e mostrar que os maias realmente previram o fim dos tempos para 2012, embora sem a agitação e os efeitos especiais de um filme catástrofe. Quando criança, eu me debrucei sobre os textos maias, além dos profetas e alquimistas europeus que citei anteriormente. Tive um surto maia com 11 ou 12 anos. Minha mãe era professora de História da América e tinha em casa As lendas do Popol-Vuh e Os livros de Chilam Balam, os dois volumes de escritos maias, considerados os documentos pré-colombianos mais importantes. Não há versão original de um e outro, já que a escritura pictográfica e simbólica dos maias havia se perdido antes da conquista. Esses livros foram elaborados depois da conquista. E resultaram da tradição oral e ritualística dos povos herdeiros dos maias.

O Popol-Vuh conta a história dos povos da região em que hoje se localiza a Guatemala e o sul do México desde a criação divina até a chegada dos espanhóis. É um lindo poema, escrito em espanhol por um índio quiché (descendente dos maias) que teria aprendido a ler e escrever com os padres jesuítas.

O Chilam Balam é uma coletânea de códices com textos das mais variados funções pertencentes aos povos maias da península de Yucatán. Nesses textos publicados no fim do século XVII sobre fontes antigas as mais diversas, há um pouco de tudo: receitas médicas, novelas espanholas, lendas puramente indígenas, rituais de sacrifício etc. Seu aspecto mais importante está nos relatos históricos (e proféticos) baseados no calendário maia. Os três códices remanescentes foram enviados à Europa, cotejados e unificados, pois constatou-se tratar-se da mesma crônica indígena, o relato das várias dinastias maias, formadas por sacerdotes e imperadores, sua expansão territorial e sua agonia.

Astronomia, astrologia, profecia e história compunham para os índios o mesmo ramo do conhecimento. Chilam Balam quer dizer Oráculo Jaguar. Conta ter sido um sacerdote maia que existiu antes da conquista. Balam teria previsto o fim da civilização maia e a substituição das antigas crenças por uma nova religião – que logo foi identificada como o catolicismo dos conquistadores espanhóis. E anteviu o fim do mundo.

O calendário maia da “conta curta” (há o da “conta larga”, que não nos interessa aqui) compreende ciclos cujas datas se repetem a cada 260 anos tunes de 260 dias. Nesse período, há outro ciclo, que são os katunes, que se repetem de 20 em 20 anos. O último dia que encerra o ciclo de katunes é chamado de Ahau. Os números não seguem o sistema decimal, e seguem a seguinte ordem que forma um ciclo de treze: 8, 6, 4, 2, 13, 11, 9, 7, 5, 3, 1, 12, 10. No total, 260 anos, que voltam a se repetir ao final do ciclo. Para simplificar, as datas e seus acontecimentos de alguma forma são reprisados, com poucas variações: ciclos de abundância, de pobreza, de triunfo, de ambição, de luxúria… Até que o dia 21 de dezembro de 2012, katun 13 Ahau, quando terão se completado os 5.125 anos da fundação do império maia. Nesse dia, ocorrerá um inédito alinhamento de astros. E a roda da história vai se perfazer.

O Chilam Balam registra em sua primeira parte o início da saga da tribo xiues, da saída da região de Nonoual no Katun 3 Ahau (de 849 a 869 d.C.) até que se estabeleceu em Chacnabitón, no Katun 5 Ahau (1086 a 1106 d.C.). Os europeus apareceram com a praga da varíola, que os descendentes maias assinaram como sendo katun 2 Ahau (1500-1520). O último katun (as derradeiras ocorrências históricas) registrado do Chilam Balam se dá no katun 5 Ahau (entre 1599 e 1618) quando o governador Diego Pareja realizou um censo demográfico. O derradeiro katun é o 3 Ahau, de 1618 a 1638, sem nenhuma ocorrência anotada.

Os textos restantes do Chilam Balam são os mais interessantes porque contêm as agora famosas profecias, que descrevem o “fim do mundo”, como derretimento da Terra, o derramamento da seiva das plantas e a ressurreição dos mortos. Isso depois de um período de ambição, luxúria e desmesura. Diz o profeta: “Virá o apressado arrebatar bolsas e a guerra rápida e violenta dos codiciosos ladrões: esta é a carga do katun para o tempo do cristianismo. A gente da Flor de Maio (os maias) terá grandes misérias, grandes padecimentos, terá o grande Itzá, Bruxo-da-Agua. No dobrar do katun deste décimo terceiro 8 Ahau cairá o poder dos Halach Uiniques, Chefes dos grandes Itzaes, Bruxos-da-água. Mas não por completo acabará a gente da Flor de Maio, porque no 9 Ahau emparelhar-se-ão escudos, emparelhar-se-ão flechas, até quando o Katun se encerre totalmente”. Como qualquer texto cifrado e sagrado, este também dá vazão à fantasia.

Há pelo menos um fato concreto. Os descendentes atuais dos maias interpretam o profetizado Juízo Final como o recomeço do calendário maia, e o retorno aos valores puros do princípio dos tempos. O homem não será mais levado pela ambição e um virá um katun em que dominarão a liberdade, a igualdade e a fraternidade. O cataclismo de 2012, se houver, terá consequências éticas. E assim por diante na eterna roda dos katunes. Quem sabe novas eras de trevas ao infinito…

Se o longa 2012 fosse seguir à risca as profecias dos oráculos maias, teria que repetir os episódios de uma forma nauseante e anticinematográfica. De qualquer modo, como um bom enredo de filme catástrofe, os herdeiros dos maias desejam, também eles, um final feliz. Assim, de acordo com eles, o pânico é relativo. Talvez a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 no Brasil, já na pós-história maia, aconteçam sob a nova lei da felicidade. Isso se eu estiver interpretando o katun e o Ahau de forma precisa. Seria muito injusto para o Povo do Ipê Amarelo não realizar a sua vocação universal.
>> REVISTA ÉPOCA – por Luís Antônio Giron

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