‘LUA NOVA’: PARA OS ROMÂNTICOS

Ao transpor a fantasia como realidade na exposição das inquietações, sentimentos e desejos que fervilham na mente e no corpo dos adolescentes, “Lua Nova” estabelece, como sua melhor qualidade, uma romântica comunicação direta com o seu público

Lua nova: história de amor com vampiros agrada aos fãs adolescentes, mesmo sem a mesma elegância da primeira parte da saga, “Crepúsculo”, e em meio a acusações de plágio contra sua autora

Através da fantasia, se expressa a realidade. Através dessa ótica, estão vívidas e palpitantes, na saga “Crepúsculo”, da escritora norte-americana Stephanie Meyer, 35, como principal argumento, as inquietações existenciais dos adolescentes. Esse mesmo processo também se encontra nos últimos livros de outra saga, a do adolescente Harry Potter, da inglesa J. K. Rowling, 44. A relação objetiva lembrar obras literárias que, criadas em tom de fantasia, se tornaram fenômeno junto ao público juvenil-adolescente.

Curiosamente, ambas as autoras sofreram acusações idênticas, quando do lançamento de suas primeiras obras. No caso de Meyer, de escrever sob linguagem tosca, falta de talento, racismo, e até plágio. Por sua vez, alguns psicólogos americanos apontaram como “doentia” a relação entre Bella e Edward.

No entanto, duas questões se sobressaem. Primeiro, a “Bristish Fantasy Society” acusa Meyer – e outras autoras do gênero -, de escrever açucaradas e vazias histórias de terror, o que estaria causando um esvaziamento da qualidade do gênero com a assinatura de mulheres – uma tradição que se mantém desde que Mary Shelley escreveu “Frankenstein”, em 1918, aos 19 anos.

É de se perguntar: quais são as antigas – e famosas ou “cults” – escritoras de histórias de terror? Doris Lessing e Ursula K. LeGuin não valem – são autoras de ficção científica.

A segunda acusação, a mais grave, aponta o plágio. Tudo começou com Stephen King, considerado o mestre do gênero, o qual disse peremptoriamente que “nada do que Stephenie Meyer escreve presta, pois tudo é cópia dos trabalhos de diversos escritores”. King também é visto, por grande parte da crítica, como um mau escritor.

Quanto à acusação de plágio, Meyer enfrenta, atualmente, três processos, movidos por Jordan Scott, a obscura autora de “The Nocturne”, lançado em 2006 e inédito no Brasil; Heidi Stanton, sua antiga colega de quarto à época da universidade que a acusa de ter se apropriado das ideias que ela desenvolveu num texto; e de L. J. Smith, a criadora da bem sucedida série literária sobre vampiros adolescentes, “Diários do Vampiro” – lançada em 1991 e adaptada no ano passado para uma tele-série, atualmente em exibição no Warner Channel.

A saga “Crepúsculo” é, na verdade, o resultado de um processo de mutação que vem reformulando o gênero terror – com vampiros – desde 1992, quando Joss Wheldon conseguiu transformar em “cult” um pequeno filme intitulado “Buffy, a Caça Vampiros”. Buffy (Kristin Swanson) era uma estudante adolescente que, à noite, caçava vampiros. Entre 1997 e 2002, Buffy, transportada para a TV, fez imenso sucesso entre o público jovem numa série que revelou Sarah Michelle Gellar.

De lá para cá, o gênero foi ganhando o público adolescente com as vampirescas séries de TV como “Angel”, “Blood Ties”, “Moonlight”, “True Blood” e a já citada “Diários do Vampiro” (cujos personagens são vampiros adolescentes). Na literatura, o ritmo dos vampiros tem sido o mesmo.

História de amor entre vampiro e humana volta a empolgar o público adolescente, devendo arrecadar milhões de dólares ao redor do mundo.

Mundo adolescente
O que faz da saga “Crepúsculo” uma série de sucesso? Ter adolescentes como principais personagens. Pequeno detalhe: os adolescentes, especialmente as meninas, vislumbram ali, naqueles personagens com as suas idades, todas as suas inquietações – da ebulição dos hormônios às dezenas de questionamentos emocionais, amorosos, éticos, morais, religiosos, familiares e por aí vai. Resumindo: se vêm em Edward, Bella e Jacob.

Bella, que já era uma menina triste, está tristíssima em “Lua Nova”. E não é para menos. O homem que ama a abandona dizendo ser para o seu bem. Uma decepção amorosa da qual ela não desiste. Ele é de um outro mundo, bem diferente do dela – mas isso não faz a menor diferença. Ou faz, talvez seja isso mesmo em que ela se identifica. Algo maior: o amor. E em nome desse amor, o persegue como pode. Na síntese, a mulher lutando por aquilo no que acredita – e deseja.

Edward resolve se afastar dela quando, inadvertidamente, Bella se fere ao abrir um presente. O sangue desperta os instintos animalescos nesse outro mundo, do qual ela quer fazer parte. O sangue, no entanto, é a metáfora de uma questão espiritual: Edward perdeu a alma. E como aceitar que ela também a perca?

Assim, o seu mundo não é o dela e, se adentrar nele, estará condenado pela resto da vida. Por isso, rejeita-a, distancia-se. Mas, o amor, esse sentimento mutável – pois pode transformar-se em indiferença, desprezo ou ódio -, puro dentro de si, não o deixa longe. Daí ele estar onipresente na vida dela, como um espectro.

É essa “onipresença” de Edward e a determinação de Bella em estar com ele que tornam “Lua Nova” um espetáculo essencialmente romântico. Melhor, vampirescamente romântico. O vampiresco, no sentido do desejo. E o desejo se transborda, jorra, no filme.

Aliás, o primeiro, “Crepúsculo”, era mais bonito, elegante e romântico. Talvez a diferença entre este e “Lua Nova” esteja no estilo de Catherine Hardwicke, 54, a sensível e brilhante realizadora de “Aos 13”. Por ser mulher, entender melhor o íntimo de Bella. Daí, Hardwicke ter feito, como se diz, um filme lindo sobre a descoberta do amor entre diferentes.

Mas houve críticas a Hardwicke por ter se afastado um pouco do romance, procurado mais o caráter da realidade e o estudo das questões pessoais dos personagens. Chris Weitz, 40, o sensível realizador de “Um Grande Garoto” (2002), ao contrário de Harwicke, encontrou o roteiro de Melissa Rosenberg já pronto para ser filmado.

Indiscutivelmente, o roteiro de “Lua Nova”, mais fiel ao romance, agrada sobremaneira aos fãs. O romantismo, expresso no amor em processo de transição da inocência para a maturidade, comanda as ações dos jovens personagens, tendo como suporte o tom da fantasia puxado para a tela com um caráter de realidade. Neste contexto, vale repetir: estão lá os problemas do coração vividos por Bella (Kristin Stewart), Edward (Robert Pattinson) e Jacob Black (Taylor Lautner) – os mesmo dos meninos e meninas do lado de cá da tela.

Mas a história desenvolve-se na temática da convivência das diferenças. Os três vivem em mundos diferentes. Humanos, vampiros e lobisomens. Não importa, expressa o filme, os sentimentos em ebulição dos jovens são os mesmos. De particularidade, o sistema de proteção que tanto Edward quanto Jacob armam em torno de Bella. Eles a disputam, mas a protegem. Por fim, resta sempre a decisão final. E, caprichosamente, ela é determinada pela mulher.

“Lua Nova” tem como maior virtude a sua comunicação direta com o público. Não apenas adolescente. Assim sendo, trata-se de uma ótima oportunidade para os pais, que foram românticos um dia, reviverem esse passado, agora com a família. Uma ação rápida porque, sem dúvida, as meninas arrastarão seus namorados para se verem na romântica “Lua Nova”.

Fique por dentro
Os livros e os filmes em números

A saga “Crepúsculo” é o atual fenômeno literário mundial. O livro de estreia vendeu 42 milhões de cópias em 37 traduções. Os últimos dados informam que os quatro romances da escritora norte-americana Stephanie Meyer (que incluem “Lua Nova”, “Eclipse” e “Amanhecer”) já atingiram a vendagem de 82 milhões de exemplares em 72 países. A produtora Summit, que comprou os direitos de filmagem quando a Warner, desistiu do projeto, acertou em cheio. “Crepúsculo”, que custou US$ 37 milhões, arrecadou US$ 351,4 milhões nas bilheterias de todo o planeta. “Lua Nova”, cujo custo foi de US$ 50 milhões, estimam os especialistas de Hollywood, deverá abocanhar, apenas nos quatro primeiros dias de exibição (quinta feira a domingo) no mercado norte-americano (EUA e Canadá), cerca de US$ 100 milhões. O filme estreou em mais 21 países, incluindo o Brasil, Itália, Reino Unido e Argentina. É aguardar o “Ranking”, a ser divulgado hoje.
>> DIÁRIO DO NORDESTE – por Pedro Martisn freire

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