‘CLÁSSICOS DA ANIMAÇÃO DOS ANOS 60’: AS MUITAS IDEIAS POR TRÁS DAS RISADAS

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Existem duas maneiras diferentes de assistir ao DVD duplo “Sessão de Desenhos vol. 1” (Warner), com mais de quatro horas de desenhos animados clássicos dos anos 60. Uma, com olhar saudosista, relembrando aqueles momentos gostosos de comer biscoito assistindo TV, e compartilhar isso com os filhos e sobrinhos de hoje em dia. A outra, com a visão de um pesquisador, interessado em analisar o que diziam os desenhos da época.

Eu me propus às duas coisas. Afinal, para quem gosta do tema é importante saber um pouco mais sobre os americanos William Hanna e Joseph Barbera. Com a decadência dos desenhos animados para exibição em salas de cinema, os dois perceberam que o novo mercado estava na TV e investiram numa produtora. Começaram com Jambo & Ruivão, Don Pixote e Pepe Legal (de 1959), aproveitando a imensa oferta de programas de faroeste naquele período. O resto é história conhecida, como a capacidade de fabricar frases marcantes e gritos de guerra como “iabadabadoo” ou “scooby dooby doo”.

BICHOS
Praticamente todos os desenhos de Hannah−Barbera tinham bichos como personagens. Lula Lelé, Peter Potamus (hipopótamo), Esquilo Sem Grilo, Matraca Trica (urso) & Fofoquinha (foca), Pepe Legal (cavalo), Formiga Atômica e Coelho Ricochete são apenas alguns dos vários exemplos. O que me intrigou é que cachorros como o Precioso (do desenho Xodó da Vovó) e Rafeiro (do Pepe Legal) contém elementos do boxer Mutley. O primeiro ri igualzinho, o segundo pede biscoitos caninos para fazer alguma coisa (assim como Mutley que, no desenho da Esquadrilha Abutre pedia “medalha, medalha, medalha” para o Dick Vigarista).

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CHEFES E MILITARISMO
Também é interessante notar a quantidade de personagens que são subordinados a chefes, sejam coronéis de polícia ou militares, e se dividem entre super−heróis com poderes especiais ou detetives. Para citar alguns: Coronel Mandragão comanda o Campo Frostbite, no Pólo Norte, o Capitão que gerencia o parque do “marinheiro” Lula Lelé e o chefe dos detetives Olho−Vivo e Faro−Fino.

Há também inúmeros desenhos utilizando mísseis, tanques, aviões, navios, submarinos e todos os vilões querem conquistar o mundo. É bem possível que isso seja um reflexo da paranóia que se instalou no pós−guerra, quando a Terra viveu uma guerra fria entre EUA e URSS. Não por acaso, no excelente episódio dos Jetsons deste DVD, em determinado momento Jane Jetson recomenda ao filho Elroy que “não brigue com os meninos russos” durante uma excursão às minas de sal na Sibéria.

Militarismo hannah-barbera

POLITICAMENTE INCORRETO
Há críticas veladas ao sistema em diversos desenhos, seja em referência a mídia, ao caos da cidade grande em desenvolvimento (poluída para o camponês Gaguinho) e, surpresa, ao próprio capitalismo e a pobreza causada por ele, onde temos o gato Manda−Chuva como o ícone principal. Aliás, “Chequemate”, desenho do gato que abre o DVD é o melhor de todos. Retomando o raciocínio, nos dois desenhos do “Bob pai, Bob filho” não há qualquer referência a figura materna. Não se fala em morte ou divórcio, seria então Bob Pai um pai solteiro em plenos anos 60?

gaguinho e manda-chuva

O que dizer de personagens que fumam? No desenho em que vive um detetive, Patolino não só fuma o tempo todo, como sofre assédio sexual da cliente. No episódio dos ratos Hal e Morton fica subentendido que ambos são alcóolatras. E o que dizer de Peter Potamus que ajuda o gigante quando João do Pé de Feijão quer pegar de volta a galinha dos ovos de ouro? Mas extremo é o desenho da Feiticeira Faceira que encontra uma Branca de Neve loira, de cabelos compridos, que vive como empregada de sete anões gêmeos idênticos.

SONS E CENÁRIOS
Numa década onde a psicodelia estava em alta, isso se refletia nos cenários dos desenhos, com cores e formas alucinantes. Árvores coloridas e tortas, texturas diversas e móveis da época dão um charme a mais quando se assiste aos desenhos sessentistas nos dias de hoje. O que dizer do jazz de alto nível nos desenhos do Manda−Chuva? As trilhas e as músicas de orquestra são um ponto forte, bem como os temas marcantes, como o composto para o “Porky Pig Show”, do porco Gaguinho.

OS HERCULÓIDES
Outro detalhe importante do DVD duplo “Sessão de Desenhos vol. 1” está nos Extras. Especialistas do meio explicam que os monstros estavam em alta nos anos 60 e o desenho dos Herculóides virou um grande sucesso por misturar naves espaciais com dinossauros. Mas, também, por ser pioneiro em usar personagens com fisionomias e corpos humanos, ao invés de personagens cômicos ou animais engraçados.

Os Herculoides

Por fim, não é preciso dizer muito mais sobre Hannah−Barbera. A biografia deles está em diversos sites da internet, bem como um portal brasileiro onde um fã disponibiliza mais informações, temas musicais, etc. William Hanna morreu em 2001 e Barbera em 2006, seu estúdio foi adquirido pela Cartoon Network e, numa fusão de empresas, hoje pertence a Warner, sua outrora concorrente.

Sobre o DVD, é mais que recomendado. Um ou outro desenho está com o som mais baixo, mas as dublagens em português são originais, e bem diferentes das versões originais em inglês, que, inclusive, vem com aquelas risadas do público gravadas aos finais das piadas, para fazer o espectador rir também. A Warner informa que em dezembro sairá o primeiro volume dos anos 70. Mas ainda não tem previsão para o lançamento do segundo volume dos anos 60. Taí duas ótimas dicas para presentes de natal.
>> JORNAL DO BRASIL – por Pedro de Luna

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