SEREIAS DE DOIS MUNDOS

Novelas de Mempo Giardinelli e Giuseppe Tomasi di Lampedusa são narrativas sobre a relação com o mito.

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O canto das sereias é a sedução impositiva do mito, o chamamento ancestral que leva a criatura para o abismo de suas próprias origens, para a negação da sua individualidade e razão. A sereia encarna esse sequestro do humano para os confins do não-ser, ou do ser-um, o caos primordial que indiferencia todos os que foram criados. Fazer parte dessa humanidade primordial, misturar-se a essa água infinita, entregar-se a esse mar que desorienta o navegador é renunciar ao esclarecimento, pois no mito a sabedoria é cifrada e o enigma pertence aos que estão acima do humano (1).

Para se livrar desse laço mortal e enxergar sua identidade, o herói pede que o amarrem ao mastro, para que não caia na tentação de ouvir o ímã que o puxa para o fundo. Ele precisa insistir na busca de si mesmo, na rota que deve levá-lo de volta ao seu ego. Precisa se autoimolar, para se desprender das raízes e empreender uma busca completa de autoconhecimento. Consegue, assim, seu intento e aporta na realidade. Mas quem o espera é mais uma armadilha: seu entendimento é tão triunfante e completo que se transforma numa nova mitologia. Ele descobre, então, que o esclarecimento estava implícito nos velhos mitos e o que fez foi seguir um ciclo de volta ao seu início. O saber racional vira mito e o mito ancestral encerra a sabedoria.

A sereia habita as profundezas do mar primordial e busca na superfície as vítimas do seu encanto. Se for tomada como símbolo do que foi formatado na proto-História, o que regula e influencia a História humana posterior, ela assume não só essa dupla maldição, a de demônio que rouba a alma por meio da voz, ou de divindade que se interpõe no destino. Ela é mulher, e aí está o terceiro vetor do tridente. A parábola, o poema épico, a filosofia e a literatura se encarregam desse triângulo mortal, as três faces da sereia como construção do imaginário.

Dois ficcionistas de gênio abordam o mito da sereia de maneira oposta. Ambos compartilham ambientes parecidos: o sufoco da Sicília, no caso de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896–1957), ou do Chaco, região noroeste da Argentina, no caso de Mempo Giardinelli (1947). A lua, o deserto, o calor envolvem o protagonista siciliano de O Senador e a Sereia e o argentino de Luna Caliente, no embate dessa busca de si mesmo, encarnada no encontro libertador (em Lampedusa) e fatal (em Giardinelli) com as sereias (2). São narrativas sobre a relação com o mito. Em Lampedusa, há o heroísmo da entrega e da redenção. Em Giardinelli, há voragem, em que o anti-herói quer devorar o que pretende evitar, sem reconhecer que está sendo engolido. A volta à origem é feita de maneira consciente no siciliano e por meio da ruptura e da tragédia no argentino. Ambos precisam aprender a lidar com a Outra, o gênero feminino.

Lampedusa traça o perfil do senador e catedrático Rosário de La Curcia, hiperespecialista em cultura grega, arrogante e misantropo, que tortura o narrador, um jovem jornalista decepcionado com seus amores e que acaba conquistando a amizade do helenista célebre. O motivo principal do desprezo que nutre pelos outros, especialmente os de pouca idade, são as ilusões do amor. O velho é um abstêmio sexual porque na juventude se satisfez com o amor tórrido com uma sereia, de verdade, daquelas que até falavam grego. O senador alcançou a imortalidade ao fazer sexo com a sereia, que o espera em qualquer quadra da vida, de volta, quando cansar do mundo. Sua segurança vem dessa promessa, que, afinal, se cumpre.

Giardinelli coloca na roda um trintão alienado politicamente, que volta de Paris formado, pronto para ascender socialmente numa Argentina dominada pela ditadura e pelo mito da pátria. É, então, seduzido pela visão da sereia adolescente e conduzido, por instinto e covardia, ao estupro e ao assassinato. Mas a ninfa imortal sempre volta para atormentá-lo, por mais que ele se esforce em assassiná-la. Ao contrário do senador, que se entrega às certezas do mito, o carreirista tenta, em vão, destruí-lo.

Giardinelli, um dos mais notórios escritores do seu país, destacado autor da literatura das democracias restauradas, como ele gosta de frisar, e que hoje vive no cenário de Luna Caliente, a cidade de Resistência, no Chaco, aparentemente trabalha o medo do anti-herói diante da mulher. Mas sua narrativa pega mais fundo. O personagem descobre que a Argentina vive uma época de destruição de identidade nacional e de imposição de uma mitologia obscura, fundada na ideia fascista de uma pátria madrasta. É tarde demais para escapar, pois já está comprometido com a cátedra da universidade local. É então seduzido pelo canto de sereia, o chamamento para as delícias da falta de razão e identidade, para o caos primordial, para a fuga. O sexo tórrido é a saída para suas amarras, sua decepção, sua solidão.

Ele cai na tentação e tenta se livrar da culpa, mas os novos verdugos, a ditadura argentina, o perseguem. O poder acena com um acordo: ele assume a culpa, se mantém, assim, preso ao regime e continua fora da cadeia. Ou, então, será desmascarado e encarcerado por décadas. Prefere escapar pela fronteira, mas é alcançado por quem, aparentemente, tinha sido eliminada. É o canto da sereia, que o leva de volta para suas origens no Chaco castrador, de onde fugiu para se salvar e voltou porque estava convicto da vitória da sua razão sobre as verdades impostas pelo clima, a paisagem, os laços familiares, o regime político instável e perverso.

Da mesma forma, Lampedusa reproduz o ambiente fascista da Itália, com seus intelectuais supérfluos, seus jornalistas vendidos, seus costumes amarrados. Tanto o jovem narrador quanto o velho sábio remam contra a corrente dessas imposições. Estão apartados da Sicília, vivem no norte do país, lugar considerado frio demais pelos habitantes do sul. Mas a condição de conterrâneos os aproxima, para que compartilhem de um segredo: a relação prazerosa com o mito, a salvação da vida medíocre por meio da entrega pessoal a tudo o que representa as origens, a terra, o mar ignoto. Desde que, claro, esses elementos sejam intermediados pela alta cultura.

É uma releitura do que pode fazer uma sereia, que, assim, perde o caráter demoníaco, tão presente em Giardinelli. O sufoco, em Lampedusa, está no frio, na racionalidade, na capital. A lua, a água do mar que geme de prazer sob o sol a pino, o sopé do vulcão em repouso, as tempestades, tudo o que é primordial e siciliano faz parte dessa mitologia particular dos migrantes que sonham com as delícias da terra natal.

É mais uma sintonia com Giardinelli, que escreveu sua novela no México, para onde emigrou depois da perseguição da ditadura. No exílio, ele cria a história do argentino que volta para suas raízes para impor a identidade e a razão e acaba sucumbindo diante da força da irracionalidade mitológica. Lampedusa tece a trama do siciliano que volta para os braços da sereia para escapar da aridez da sua vida, cercada pela irracionalidade e incompetência. Giardinelli não fala em sereia, mas em uma chaquense de 13 anos insaciável, incapaz de morrer diante do seu algoz. Mas é o mesmo mito. Senão como explicar sua imortalidade, sua reaparição constante depois de sofrer o atentado do amante?

As duas novelas são puro cinema. Luna Caliente foi filmada pela Casa de Cinema de Porto Alegre e veiculado pela Rede Globo em 1999. O Senador e a Sereia já nasce como sessão das quatro, aquela das tardes de verão em que nada se podia fazer além de fugir do calorão sentando numa poltrona para ver um filme inesquecível.
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Notas: 1. Sobre o mito e a sereia, me baseei na leitura de Jürgen Habermas, que no volume O Discurso Filosófico da Modernidade, capítulo 5 (Martins Fontes, 2000, 540 págs.), comenta A Dialética do Esclarecimento, famoso texto de Horkheimer e Adorno de 1944.

2. Luna Caliente – Três noites de Paixão e O Senador e a Sereia foram editados pela L&PM, em 1985 e 1980, com traduções de Sergio Faraco e José Antônio Pinheiro Machado, respectivamente.

>> CRONÓPIOS – por Nei Duclós

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