GUY DELISLE: QUADRINHISTA COM PINTA DE JORNALISTA

Turista acidental em lugares tão inóspitos como a Coreia do Norte e Mianmar, o canadense Guy Delisle (pronuncia-se Gui Delile) resolveu publicar suas impressões dessas andanças pelo mundo em diários de viagens bem-humorados. E em quadrinhos.

Primeiro saiu no Brasil, via Zarabatana Books, “Pyongang”, em que o autor conta como foi sua estada na capital da Coreia do Norte. Depois, veio “Crônicas birmanesas”, sobre a viagem ao país ainda chamado de Birmânia pelos Estados Unidos e Reino Unido, que não reconhecem o governo atual, em exercício desde 1962. Agora, a mesma editora, de Campinas, manda para as lojas “Shenzhen”, em que Delisle narra outra de suas aventuras, desta vez na cidade que dá nome ao livro, situada ao norte de Hong Kong, China.

— “Shenzhen” foi meu primeiro livro, resultado de uma segunda viagem que fiz à China, para onde fui levado por meu trabalho com animação — explicou Delisle à Megazine, em Belo Horizonte, onde participou do Festival Internacional de Quadrinhos. — Como tomei muitas notas, resolvi publicar, em partes, numa revista, um diário em quadrinhos da viagem. E, como recebi muitas críticas entusiasmadas, fiz um livro.

Segundo Delisle, o trabalho com animação o ajudou muito no desenvolvimento de seu traço, já que se desenha bastante neste trabalho:

— Também foi fazendo desenhos animados que aprendi a contar uma história, graças ao storyboard.

Além de ajudá-lo profissionalmente, o trabalho com animação levou Delisle (à esquerda, no Festival Internacional de Quadrinhos, em foto de duivulgação de Luiz Navarro) à China e à Coreia do Norte, mas funções diferentes fizeram o quadrinista ir a Mianmar: a de acompanhante da mulher, integrante da ONG Médicos Sem Fronteiras, e a de babá do bebê do casal, Louis. A situação se repetiu no ano passado, quando a família foi para Israel.

— Ainda não sei se meu próximo livro será sobre a viagem que fiz a Jerusalém — conta Delisle, que vive atualmente com a mulher e seus dois filhos, um de 6 e outro de 3, no sul da França. — Estive lá por quase um ano e, agora, com as notas que fiz, decidirei se farei ou não um livro a respeito.

Mesmo fazendo um trabalho bem próximo do jornalismo em seus livros, Delisle diz que não é jornalista, diferentemente do maltês Joe Sacco, que faz relatos em quadrinhos (“Palestina” e “Gorazde”) a partir de viagens a áreas de risco na Bós-nia e na Palestina:

— Joe Sacco é realmente um jornalista que usa os quadrinhos para contar uma história. Eu não me vejo como jornalista, mesmo que haja partes do meu trabalho que pareçam. Acredito que o que eu faço seja muito pessoal, subjetivo, algo como longos cartões-postais sobre minhas viagens.

Mesmo que a narrativa de Delisle se assemelhe ao jornalismo em alguns momentos, a HQ parece ser mesmo a paixão do canadense de 43 anos:

— Algumas vezes é mais fácil fazer quadrinhos porque você não tem um patrão à sua volta. Você trabalha por sua própria conta.

Das três viagens registradas em livros, Delisle diz que aquela feita à Coreia do Norte foi a mais difícil, porque, quando não estava com um guia, era seguido e vigiado o tempo todo.

— Hoje não viajo mais tanto quanto viajava, pois tenho dois filhos… E ainda tem o colégio das crianças — diz o quadrinista, resignado.
>> GIBIZADA – por Télio Navega

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