ENTREVISTA COM FÁBIO MOON & GABRIEL BÁ

Depois de colecionar prêmios HQ MIX, essa dupla de quadrinistas transpôs barreiras, fronteiras e preconceitos, publicando histórias de cunho autoral nos EUA e, contrariando os paradigmas que estabelecem que brasileiro na América do Norte é apenas ilustrador de aluguel da Marvel ou da DC Comics, acabaram indicados ao prestigioso prêmio Eisner, o Oscar da indústria dos comics. Fábio Moon e Gabriel Bá, numa entrevista de 2004: os artistas que provaram que todo mundo gosta de pãezinhos e quadrinhos brasileiros.

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OCTAVIO ARAGÃO – Já li comparações do trabalho de vocês com o de Brian Azzarelo e Eduardo Rizzo, na série 100 BALAS. Particularmente, discordo. Vejo possíveis afinidades com o David Lapham, criador de BALAS PERDIDAS, mas, além disso, há uma indiscutível “brasilidade” na iconografia de vocês – a começar pelo nome da série 10 PÃEZINHOS.
Há alguma preocupação em manter uma identidade nacional ou isso já está tão impregnado que é automático? Se é assim, a recente notícia da publicação de MEU CORAÇÃO, NÃO SEI POR QUÊ nos EUA, sob o codinome “URSULA”, será uma injeção de brasilidade iconográfica nas veias do comic americano?

MOON & BÁ – Todos artistas têm suas influências e seus gostos particulares. Nós gostamos muito do jogo de luz e sombra e da plasticidade de histórias urbanas, tramas que usam elementos reais um pouco distrorcidos, mesclados com um pouco de fantasia. Por essa razão, artistas que usam bem estes dois elementos sempre chamarão nossa atenção, o que é o caso do Eduardo Risso e do David Lapham, assim como o Will Eisner, Frank Miller e Mike Mignola. Agora, olhando mundo afora, existem semelhanças inexplicáveis nas abordagens de artistas “latinos” nos Quadrinhos, grupo no qual nos encaixamos também, e creio que seja uma forte influência européia em todos nós, tanto os brasileiros quanto os argentinos.
Mas nossa maior influência é o Laerte, pois crescemos lendo suas histórias e a sua relação com São Paulo é muito próxima da nossa, sendo a cidade quase um personagem a mais. Essa bagagem sempre estará presente em nosso trabalho, não importa que história estejamos contando. Antigamente as influências ficavam muito superficiais, limitadas à imagem e à cópia, mas hoje elas são mais profundas e não atrapalham mais nosso trabalho, ao contrário, só ajudam a ressaltar o que ele tem de melhor.

A preocupação de vocês em fazer de seu trabalho um produto misto de conceito e estética transborda para fora das páginas e chega a influenciar suas roupas (digo isso baseado nas indumentárias que vocês usaram numa entrevista para o Jornal da Globo, no ano passado), que fogem a passos largos do visual nerd que campeia entre profissionais da área dos quadrinhos brasileiros. Resumindo: vocês são quadrinistas “fashion”. =).
Como é isso? Vocês são mesmo extensão de seu trabalho nesse sentido? O produto TAMBÉM é a figura de vocês? Faz alguma diferença na hora de negociar com alguma editora ou agente?

– Acho que o caminho é inverso, uma vez que a maneira que vivemos e nos vestimos trasborda em nosso universo imagético. É um desafio muito mais difícil criar um personagem que é o nosso avesso, se veste de forma que nunca nos vetiríamos e age de forma contrária às nossas crenças. Mas esse tipo de desafio é o que faz o seu trabalho crescer. Contamos histórias muito próximas de nós, da nossa geração, do nosso mundinho, mas nos preocupamos em não limitar as histórias somente a isso.
O conceito e a estética que colocamos nas histórias só ajudam a dar mais tridimensionalidade à trama e aos personagens, mais credibilidade. Dessa maneira, o trabalho sozinho dirá tudo que há pra ser dito mas, além disso – e isso vem principalmente da época do fanzine – precisamos acreditar nas histórias que contamos pra convencer o público a comprá-las, por isso tanto esforço no conceito que é injetado nas HQs.
Foi ótimo saber que o livro está concorrendo ao Eisner. Certamente traz alegria a ambos os lados: o do fã e o do profissional. Se já era um grande prêmio ter sido convidado a participar do livro, ser indicado ao Eisner só coroa a experiência. Ainda não rendeu frutos, mas acreditamos que não passará despercebido aos olhos do mercado americano.
A publicação da URSULA foi resultado de um contato feito o ano passado, na Comicon de San Diego, com o pessoal da AIT/Planet Lar.

E o Prêmio Eisner, heim? AUTOBIOGRAPHIX concorrendo a melhor antologia, pau-a-pau com feras do calibre de Neil Gaiman e Art Spiegelmann. Quem recebeu essa notícia? Gabriel e Fábio, os “profissionais”, ou Fábio e Gabriel, os “fãs”? Como foram os primeiros minutos depois de receberem a notícia? A indicação já rendeu frutos ou a publicação de URSULA não tem nada a ver com isso?

Vamos àquela pergunta fatal: quem, no Brasil, leva nota dez: os quadrinistas ou os chargistas? É mais fácil fazer charge ou quadrinhos e por que?
O chargista precisa estar sempre informado e atento ao “hoje” para que sua crítica seja pontual e não genérica. Falta um pouco dessa atenção nos quadrinhistas, dessa pesquisa e aprofundamento.
Por outro lado, fazer HQ dá muito mais trabalho do que charge e precisa de muito mais empenho, uma vez que você fica um ano fazendo a mesma história.
Mas ninguém merece nota dez. Todo mundo poderia se empenhar mais no seu trabalho, seja em quantidade, seja em qualidade, seja no que eles querem dizer ou quem procuram atingir.

E a questão política? Os quadrinhos podem influenciar na vida sócio-política do Brasil ou são “lúdicos demais” para isso?
Nesse ponto existe o maior engano sobre Quadrinhos no Brasil. É possível contar histórias sérias em Quadrinhos, ao contrário do que se vê em abundância por aí, que é o humor. Se os chargistas, por exemplo, lançassem mão do senso crítico e estético que usam nas charges numa HQ, já seria um avanço. O ilustrador é um dos críticos mais cruéis, e as charges atiram para todos os lados, impiedosas, mas fica somente nesse pequeno universo. Continuar com esse discurso numa HQ dá mais trabalho, então precisa de mais apoio financeiro e faz mais crítica, precisando de mais culhão para ser impresso. O que não dá para continuar é usar Quadrinhos apenas para materiais didáticos e manuais de cidadania. Fazer Quadrinhos está muito mais ligado à transmitir opinião do que somente servir como ilustração.
>> INTEMBLOG – por Octavio Aragão

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