‘ALMA E SANGUE – O DESPERTAR DO VAMPIRO’, DE NAZARETHE FONSECA

Uma das febres temáticas mais recorrentes no que diz respeito à literatura – e aos filmes, jogos, quadrinhos e cultura pop em geral – é o mito dos vampiros. É também uma febre cíclica: iniciou-se, agora, com a explosão chamada Crepúsculo, mas já houve outros ciclos de vampiros antes – e haverá outros depois. E, claro, nós, os autores brasileiros não poderiam ficar de fora dessa.

Como já disse antes em outras oportunidades, o mito do vampiro é sedutor por várias razões: primeiramente, pela universalidade, estando presente na grande maioria das culturas de uma forma ou de outra; segundo, pelos conflitos que acaba por levantar – o morto que não está morto, o monstro que tenta ou não recuperar sua humanidade e por aí afora; terceiro, a sensualidade inerente à sedução e à luxúria (luxúria não apenas em seu sentido sexual, mas no sentido amplo de “busca pela satisfação de um desejo/prazer”), afinal vampiros são criaturas movidas pelo desejo de sangue.

Tudo isso para demonstrar a versatilidade do vampiro, que pode ter tanto seu aspecto de besta ressaltado quanto o de criatura com ainda traços e desejos humanos, ainda que dotado de características inumanas.

Cá entre os patrícios, naquilo que se trata de vampiros como personagens e protagonistas de aventuras com muita ação, pancadaria, poderes mágicos e lutas, nada melhor do que citar André Vianco. É um autor com várias séries vampirescas, todas elas com os elementos acima citados, que possui uma legião de fãs ávidos.

Mas, como disse, o mito do vampiro tem muitas faces… E para o leitor, ou leitora, que deseja ver um universo em que os seres da noite lidem com as questões mais existenciais, como o dilema entre o homem e o monstro, e que esteja mais focadas em seus sentimentos? E para o leitor/a que deseja ver aqui o romance sobrenatural vampiro?

Dentre as várias autoras brasileiras que enveredam por essa trilha, destaco hoje Nazarethe Fonseca e seu Alma e Sangue – O Despertar do Vampiro, que recentemente ganhou nova edição pela editora Aleph. É para quem quer ver romance entre humana e vampiro, com todos os elementos que podem temperar essa relação.

Acompanhamos então, em primeira pessoa, a saga de Kara Ramos, uma jovem restauradora residente em São Luís do Maranhão, que já passou por muita coisa na vida apesar da pouca idade. Um belo dia ela é fisgada por uma oportunidade de ouro: fazer o projeto de restauração de um antigo casarão abandonado, que era a obsessão de seu falecido pai. O que ela não sabe é que no interior da casa jaz um vampiro, Jan Kman.

Esqueça Crepúsculo e os vampiros pasteurizados. Aqui, a besta dorme no coração dessas criaturas, que não tem pudores em matar para se alimentar, ou demonstrarsua força e selvageria sobrehumanas. A humanidade, após a mordida fatal, se foi, restando apenas as portas abertas da noite eterna – bem como seus mistérios e habitantes.

Kara e Kman, os protagonistas, jogam um jogo de gato e rato. A protagonista se divide entre o desejo e a repulsa, a paixão e a rejeição, o amor e o ódio. Quase ao ponto da bipolaridade, às vezes. E isso vai se tornando um pouco irritante com o tempo.

E, claro, como não poderia ser diferente, conviver com vampiros atrai companhias desagradáveis e riscos de vida para nossa protagonista – e também expõe relacionamentos humanos viciados. Há contas do passado a serem acertadas, e Kara acaba por ser o pivô de uma batalha começada há séculos.

A narrativa flui bem – e o romance de Kara e Kman é BASTANTE mais carnal do que o de Bella e Edward, para ficarmos no exemplo fácil. Só há alguns problemas em algumas cenas, em que o cenário desaparece e muda, causando aquela sensação de “mas onde ela estava mesmo? Por que essa cena foi cortada?”.

E o cenário é um dos pontos fortes da trama. A história se passa em São Luís – MA, terra natal da autora, e percorre suas ruas, prédios e cultura. Para alguém que mora no sudeste, como eu, é um cenário exótico – somos todos o mesmo Brasil, mas as características regionais diferem, e essa diferença é algo bonito e interessante de ser visto. E, inclusive, outro ponto fortíssimo, usar das nossas características como elementos da história, e não meramente como cenografia.

Um ponto da história que foi apenas tangenciado e que poderia ser melhor explorado é que não necessariamente o monstro é o vampiro. Pode ser também o humano sem nenhum freio moral em busca de seus objetivos.

Como ponto fraco, como já disse, alguns pontos em que a prosa se torna confusa e as cenas parecem cortadas e coladas sem muita coerência, mas é algo suportável. Outro ponto, quando Jan fala de seu passado: eu sou até bastante enjoada com alguns detalhes – e, no caso, os nomes dos personagens quebram o sense of wonder. Um detalhe bobo, mas que se estivesse presente, a história ficaria mais redonda.

Enfim, é uma história para quem quer ver romance sobrenatural, vampiros, beijo na boca e química, tudo isso com um tempero nacional bem interessante.
>> LEITURA ESCRITA – por Ana Carolina Silveira

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