LOURENÇO MUTARELLI: PRODUZINDO ARTE COM EFEITO

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Lourenço Mutarelli nasceu em São Paulo, mas seu destino o leva para o mundo. A porta de entrada para as artes e as idéias foi a Faculdade de Belas Artes. E com o tempo os pincéis foram trocados por canetas, para dar vida às palavras – no papel, no computador, nas telas de cinema. Um caminho de interação entre as artes é o que ele anda traçando. Quatro romances publicados – Jesus Kid, O cheiro do ralo, O natimorto e A arte de produzir efeito sem causa –, além de algumas graphic novels como O dobro de cinco, atraem muitos admiradores. O dobro (…), inclusive, transformou-se em um teaser que muito lembra Sin City, mas não deve chegar às telonas. Infelizmente. Pois o detetive Diomedes (veja em algumas fotos que ilustram a matéria) está impagável.

Mutarelli carregou um fardo pesado. Uma história idiota, absurda, não fosse a realidade capaz de superar, para o bem e o mal, a ficção. Parece ter se livrado dela. Ou continua se libertando em espasmos, através de outras histórias que cria, desenhando ou escrevendo, onde retrata um mundo atormentado, ou melhor, pessoas que vivem e agonizam nessa tormenta. Ela foi contada em Réquiem, com narração do próprio.

Mesmo assim, o que poderia ser um martírio, na verdade nos aproxima dessas pessoas no limite do desespero, muitas vezes através de um humor sutil e irônico, como é o caso do mais recente romance do escritor, A arte de produzir efeito sem causa, o primeiro a sair pela Companhia das Letras.

O livro recorta um trecho da vida de Júnior (ou Nuno, ou Bruno, segundo o porteiro do prédio do pai), o momento de um elipse crucial, que junta revelações cruéis sobre seu trabalho, sua mulher, seu amigo. Junto à tormenta externa, acompanhamos também outra, interna, onde Mutarelli consegue, de maneira particular, recriar uma mente alterada por devaneios, repetições, crises compulsivas, paranóias, “uma coleção de sintomas, entre os quais avultam alterações do pensamento, alucinações (sobretudo auditivas), delírios e embotamento emocional com perda de contato com a realidade, podendo causar um disfuncionamento social crônico”.

Mas ele faz isso de um modo que nos aproxima e cria até certa empatia para com o Júnior, que passa a viver então no sofá da casa de seu pai, acompanhado do “futum” da cachorra já falecida, e de uma universitária que aluga um quartinho no mesmo apartamento. Retrato de uma classe média baixa, típica, empobrecida, ordinária. O texto é seco, direto, praticamente um roteiro (por sinal, os direitos já foram adquiridos para uma adaptação). Entre o cigarro, o café e os passeios de volta ao bairro onde cresceu, acompanhamos essa imersão do personagem, através de diálogos que retêm de forma precisa esse embotamento emocional, a falta de compreensão progressiva pela qual ele passa.

Mutarelli, quadrinhista dos bons, volta ao grafismo com os devaneios que ocupam a cabeça do Júnior depois que ele começa a receber misteriosos pacotes de sedex ( ou “sedec”, como diz o porteiro…) com recortes de jornal em torno da morte (acidental, dizem) da mulher do escritor pré-beat William Burroughs, quando este, ao brincar de Guilherme Tell, meteu-lhe uma bala na cabeça. Com uma bic, a compulsão do Júnior vai transparecendo em ideogramas, gráficos, anotações em cima do diário da universitária, da lista telefônica, dos bilhetes que recebe. Burroughs não está à toa neste enredo, já que a tentativa do escritor norte-americano em destruir a linguagem, de certa forma, se concretiza na cabeça de Júnior, e na crescente dificuldade que todos têm em se comunicar, bem expostas nos diálogos que conduzem o livro.

Resumindo, Lourenço Mutarelli conquistou um espaço especial na literatura brasileira. E merece ser lido.

Quando e como começou a desenhar?
Lourenço Mutarelli: Desenho desde criança. Foi a maneira que encontrei de me relacionar, a minha expressão.

Sua formação é em Belas Artes. Como se deu a troca do nanquim pelas palavras?
Estudei Belas Artes e foi muito importante, a faculdade dá um rumo para seguir o caminho. Quando comecei a trabalhar, passei a fazer os meus quadrinhos de noite. Depois fui correr atrás da editora para conseguir um espaço. Sempre tive um respeito muito grande pela literatura, então eu pensava que eu não podia ser um escritor.

Você criou a arte do filme Nina, dirigido por Heitor Dhalia, e escreveu o romance O cheiro do ralo, adaptado para o cinema também por Heitor. Seu romance O natimorto foi adaptado para o teatro pelo dramaturgo Mário Bortolotto, e agora para o cinema por Paulo Machline. Outro projeto seu também está sendo adaptado, O dobro de cinco. Como é essa interação com outras linguagens? No que estes projetos se aproximam e no que eles se distanciam um do outro?
Sou muito reservado. O ator acaba atrapalhando esse meu lado. Tenho que repensar esse assunto. Embora eu me sinta protegido no set, tem uma exposição que tenho que repensar. Em O cheiro do ralo, as pessoas não sabiam que eu fazia o segurança. Mas com O natimorto, sou o protagonista e isso muda um pouco. Não tenho problemas quanto ao trânsito entre essas linguagens. É importante estar aberto a todas as manifestações: teatro, cinema, literatura e quadrinhos. Desde que possamos nos expressar de maneira sincera.

Na sua literatura, os seus personagens estão sufocados pela depressão urbana. Como é a sua relação com São Paulo? De que maneira a cidade interfere na sua literatura?
São Paulo está muito mais na minha literatura do que eu consigo perceber. São Paulo está em mim, por mais que eu me distancie dela.

Temas como a perda, a deformação, o desespero, o limite e a angústia são incessantemente abordados em seu trabalho. Por quê?
Nos personagens há muito de mim e também da minha observação. Eu estudo muita psiquiatria, isso acaba refletindo nos meus personagens.

Uma grande inadequação e deslocamento permeiam a sua obra, seja nas graphic novels, nos romances. Como é o processo de criação desses personagens sofridos, perturbados?
É um mergulho fundo. Tive de afastar os personagens da minha vida, mas minha vida acaba se envolvendo com os personagens.

A arte de produzir efeito sem causa tem uma linguagem direta, seca. Praticamente um roteiro. Pensa nisso quando concebe uma história?
Hoje em dia, por algum momento, eu penso que a história pode ser adaptada. Mas quando escrevo não penso nisso. Fico voltado para a criação da história sempre.

Sobre a união dos desenhos, ideogramas do Júnior com a narrativa neste livro, elas surgiram juntas?
Fui fazendo os gráficos e enviando para a Companhia das Letras, a escolha foi feita por eles.

Como foi a experiência de viajar para Nova York pelo projeto Amores Expressos?
Foi muito boa, pude vivenciar a cidade. Mas é muito difícil escrever um livro sobre uma determinada cidade. Pretendo voltar a Nova York e sentir mais a história.

Você foi obrigado a escrever num blog. Como é a sua relação com as tecnologias?
Sim estava no contrato. Mas foi bom durante a viagem. Depois pensei em manter o blog, mas não dá. Sou muito fora dessas tecnologias. Minha mulher que responde os e-mails. Com um tempo eu acostumo, espero.

Você lê seus contemporâneos? Arriscaria algum nome? O que tem lido ultimamente? E nos quadrinhos, acompanha o que tem sido lançado ou refugia-se nos clássicos?
As primeiras influências foram Kafka, Dostoiévski, Machado de Assis e Augusto dos Anjos. Literárias, acho que foram essas minhas experiências fortes. Não leio os contemporâneos, fico muito focado em estudos teóricos sobre determinados temas.

Seu filho Francisco tem interesse em literatura? Ele escreve?
Meu filho não lê nada, nem sabe como abrir um livro. Mas ele gosta muito de cinema, principalmente dos filmes de que não participo – ele fica mais à vontade. Mas ele desenha muito bem, tem desenhos expressivos.
>> PORTAL LITERAL – por Bruno Dorigatti e Ramon Mello

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