‘CREPÚSCULO’ LIBERTA VAMPIROS BRASILEIROS

Nem só de Bento Carneiro, o Vampiro Brasileiro (foto ao lado) , personagem criado pelo humorista Chico Anysio nos anos 1980, se faz o catálogo vampiresco nacional. Motivados pelo sucesso de séries fantásticas como a do bruxo Harry Potter, criaturas nacionais têm deixado as gavetas de seus criadores e colocado os caninos para fora. “Quando comecei a trabalhar com livros, em 1995, havia um consenso de que literatura fantástica não vendia no país. Aí, veio Harry Potter, em 2000, e mudou tudo”, diz Luciana Villas Boas, diretora editorial da Record. Confira abaixo o perfil de quatro autores nacionais – e seus vampiros.

Ivanir Calado é testemunha dessa mudança. Seu livro O Mundo de Sombras: o Nascimento do Vampiro, que deve ser o primeiro de uma trilogia, foi publicado em 2007, mas rascunhado há 20 anos. “Harry Potter mostrou que o livro infantojuvenil pode ser grande, que a molecada está disposta a ler.”

A saga Crepúsculo, de Stephenie Meyer, ajudou o gênero a explodir no Brasil. “Os livros de vampiros sempre tiveram leitores cativos, mas a demanda aumentou com Crepúsculo”, conta Nilda Vasconcelos, diretora da Novo Século. A editora é uma das que mais aposta na área. Já publicou diversos autores nacionais, entre eles o best-seller André Vianco – com mais de 438.000 exemplares vendidos. E prepara para 2010 o lançamento de uma paródia da saga de Stephenie Meyer, Opúsculo.

Uma outra análise, de fundo sociológico, se soma às explicações para o sucesso do gênero fantástico. É a do professor de teoria literária Carlos Berriel, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Esses monstros são antigos e arquetípicos. Como vivemos um período de inseguranças abstratas e não localizadas, é natural um retorno dessas figuras”, diz. O sucesso de Crepúsculo, segundo Berriel, revelaria ainda algo sobre os EUA. “É uma série de um vampiro de classe média, um mauricinho com hábitos corretos, quase vegetariano. Uma espécie de governo Obama, que tem poderes malignos mas não pretende usá-los.” 
>> VEJA – por Maria Carolina Maia

O vampiro gay admirador de Álvares de Azevedo


Kizzy Ysatis ‘morde’ uma fã

Foi depois de assistir a filmes de terror de madrugada que o pequeno Cristiano Marinho – nome real de Kizzy Ysatis – se afeiçoou a criaturas sombrias. Ler Edgard Allan Poe (1809-1849, autor de O Corvo), apresentado por sua mãe, também o ajudou a enveredar por esse caminho.

Em O Clube dos Imortais, romance vencedor do prêmio Rachel de Queiroz, Ysatis apresenta um vampiro homossexual: Luar, um anagrama de Raul, seu nome real – clique aqui para ler um trecho do romance. No século XIX, em um baile de máscaras, Luar se apaixona pelo poeta Álvares de Azevedo (1831-1852, autor de Lira dos Vinte Anos). Mais de cem anos depois, crê reencontrá-lo, reencarnado, no jovem Luciano, a quem tenta seduzir numa longa noite de diálogos intelectuais em um cemitério.

Nessa conversa à sombra de lápides, são citadas algumas outras referências de Ysatis: o francês Honoré de Balzac (1799-1850, autor de As Ilusões Perdidas) e o irlandês Oscar Wilde (1854-1900, O Retrato de Dorian Gray), ambos presentes em seu primeiro romance.

O caldo intelectual está presente também em O Diário da Sibila Rubra, segundo romance do autor, em que reaparece o vampiro Luar. Ysatis estima que seus dois romances, juntos, tenham vendido cerca de 5.000 exemplares. O número não é dos mais expressivos, mas ele não se importa. “Não quero ser rico”, diz o escritor.

Em O Diário da Sibila Rubra, além de Luar, há bruxa (sibila). Vale destacar que o próprio Kizzy Ysatis é um “personagem”: ele costuma andar de capa, cartola e unhas negras, e tem caninos de resina, fabricados por uma dentista.

Vampiro inspirado em aborígene australiano


Vianco: lenda inspira vampiro

Para escrever Bento, um de seus 12 livros já publicados, o paulista André Vianco se inspirou numa lenda aborígene australiana, em que seres fantásticos bebem o sangue de suas vítimas e depois as engolem – clique aqui para ler um trecho do romance.. Os vampiros de Bento não chegam a deglutir seus alvos, mas os caçam do alto das árvores, como faziam seus ascendentes da Austrália. Só mais adiante no livro, um calhamaço de 520 páginas, os vampiros sofrem mutações, transformam-se em dragões e passam a devorar os que encontram pela frente.

Na nona edição, com 30.000 exemplares vendidos, Bento é uma amostra do potencial comercial de Vianco. Sua obra mais comprada, o romance de estreia Os Sete, já atingiu a marca de 90.000 exemplares aproximadamente. Parte desse volume – cerca de 15.000 livros – foram vendidos de forma independente, quando o autor ainda não tinha editora.

Foi um período de batalha. Vianco ia de livraria em livraria, pedindo que vendessem seu livro e, se possível, arranjassem um lugarzinho para ele na vitrine. Deu certo. Ele chamou a atenção da Novo Século, que relançou Os Sete e editou os livros seguintes do escritor. Hoje, ele vive de direitos autorais provenientes das obras.

Pelas páginas do escritor, não passam só vampiros. Lá, se encontram assombrações, lobisomens e figuras do folclore nacional, como o Curupira (ser mítico que protege a floresta) e o Boitatá (cobra de fogo). “O que me atrai no sobrenatural é o mistério”, diz Vianco, que travou contato com temas fantásticos a partir dos seis anos, vendo filmes de terror pela televisão. “Fantasia e ficção científica sempre me prenderam a atenção.”

Liz Vamp, a filha de Zé do Caixão


Liz Marins posa como Liz Vamp

Personagem e autora se confundem no caso de Liz Marins. Filha do cineasta José Mojica Marins, criador do Zé do Caixão, ela usa seus dotes como atriz e diretora para dar vida a Liz Vamp – personagem que seria filha de Zé do Caixão com uma errante e tresloucada vampira inglesa.

A história deve dar origem a duas trilogias: a saga de Liz Vamp será narrada em três romances e três filmes, o primeiro deles previsto para ser lançado em 2011. O longa, provisoriamente intitulado Liz Vamp, a Princesa Vampiro, terá a participação de Mojica Marins – embora ele não aprove a personagem da filha, por achar que “não se trata de uma figura nacional, e sim de uma importação cultural”.

Além dos seres de caninos pontiagudos, Liz escreve poemas e contos sobre o universo sombrio de mortos-vivos, assombrações e outros representantes das trevas – clique aqui para ler o conto Mais uma Noite. Algumas de suas narrativas curtas viraram curta-metragens, como Aparências, abaixo. A autora, que não sabe dizer quantos livros já vendeu, integrou o volume Crônicas de Terror do Zé do Caixão, escrito por ela, o pai e o irmão, Crounel, e Livro Negro dos Vampiros, uma reunião de contos de autores diversos.

Assista a seguir a um vídeo com a personagem:

Vampiro brasileiro também pode ser clássico


Calado: vampiros e amigos 

O vampiro do fluminense Ivanir Calado, de 56 anos, é talvez o mais tradicional de todos. Ele não come alho, não se vê no espelho e foge da cruz como o diabo. Mas obedecer às regras do gênero não é obstáculo para o autor.

Calado gosta de contar histórias, muitas vezes com pitadas autobiográficas. Em O Mundo de Sombras: o Nascimento do Vampiro, dois amigos de infância se afastam na adolescência, quando um deles se torna vampiro – clique aqui para ler um trecho do romance. Quando publicou o livro, em 2007, o escritor o indicou a um antigo amigo, de quem se afastara ainda adolescente. A mensagem funcionou. A amizade foi reatada.

A relação com a atmosfera de mistério vem da infância, quando o autor morava em Nova Friburgo. A casa da família tinha como vizinho o barraco de uma senhora negra, que desfiava histórias fantásticas com seriedade. “Eu ficava impressionado”, lembra o escritor. Mais tarde, a leitura de Stephen King ajudou a consolidar o gosto pelo oculto. “Não vejo a menor graça no realismo. Acho uma forma pobre de descrever a realidade, que tem muitas camadas.”

Adotado por escolas, O Mundo de Sombras: O Nascimento do Vampiro contabiliza 26.000 exemplares comercializados. Caverna dos Titãs, outro livro de Calado lançado pela Galera Record, selo infantojuvenil da editora, vendeu 6.000. O Mundo de Sombras deve ter continuidade: o desejo de Calado é fazer dele uma trilogia.
>> VEJA – por Maria Carolina Maia

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: