GIULIA MOON EM ENTREVISTA PARA A REVISTA SAMIZDAT

Giulia Moon, autora do romance Kaori: Perfume de vampira, e de mais uma porção de contos tendo como protagonistas as criaturas mais badaladas da atualidade, fala à SAMIZDAT sobre ela mesma, sobre a diferença de escrever um conto e um romance, sobre os clichês da literatura de horror – e como não cair em suas armadilhas, e, é claro, sobre vampiros. Saiba mais sobre Giulia Moon em seu blog Phases da Lua (http://phasesdalua.blogspot.com). Sobre o romance Kaori, visite a página da obra na Giz Editorial.

SAMIZDAT — Fale-nos um pouco de você, enquanto cidadã paulistana: quem é você, enquanto não está escrevendo ficção? Conte-nos um pouco de sua trajetória até publicar seus primeiros livros.
GIULIA MOON — Eu sempre tive habilidade para desenhar, herança do meu pai, seu Kazuo, que pintava à mão os painéis nas fachadas de cinemas paulistanos lá pelos idos dos anos sessenta e setenta. Com o tempo, esse tipo de atividade foi desaparecendo, pois os cinemas passaram a usar apenas letreiros luminosos nas fachadas. Lembro-me perfeitamente de meu pai pintando enormes painéis com as imagens do 2001: Uma Odisséia no Espaço, Sol Vermelho, O Dólar Furado e muitos e muitos filmes. Ele ampliava, com a ajuda de um episcópio, as imagens dos posters oficiais e depois os coloria no galpão que ficava nos fundos da minha casa. E deixava que eu pegasse pincéis velhos e restos de tinta para brincar.

Quando era adolescente, desenhei mangás e quadrinhos que serviam apenas para divertir os amigos. Nessa época comecei também a escrever contos, que também ficaram engavetados, pois nunca imaginei que poderia um dia publicá-los. Depois entrei numa faculdade de Comunicações, a FAAP, e me especializei em Publicidade e Propaganda. Fiz estágio em algumas agências e acabei trabalhando como diretora de arte na área de Promoção e Merchandising durante muitos anos. Nesse período fiz alguns trabalhos interessantes, como a criação dos personagens da Marisol, Lilica Ripilica e Tigor T. Tigre. Como publicitária, exerci várias funções: direção de arte, ilustração, direção de criação.

Em 2000, eu me encontrava meio entediada com os rumos da minha vida profissional. Havia conseguido um certo sucesso, mas não via muitas perspectivas além disso. Eu lia muito, principalmente livros de FC, Fantasia e Horror, e estava fascinada pelos livros da Anne Rice. Havia escrito, ainda como um simples passatempo, um conto de vampiros compridão, chamado A Dama Branca. Numa noite, navegando à toa pela internet, coloquei num buscador a palavra “vampiro”. Surgiu um site brasileiro chamado Mundo Vampyr de fãs de vampiros. Comecei a explorar o site e, entre outras coisas, encontrei uma seção de contos. Resolvi então escrever um conto, “Um Tédio de Matar”, uma história curtinha, do tamanho dos que estavam publicados lá, e enviei para o webmaster. Recebi quase em seguida um convite para participar de um grupo de discussão no Yahoo, a Tinta Rubra, composto de escritores amadores de contos de vampiros, pois o webmaster era o moderador do grupo. Foi assim que comecei a escrever regularmente nas minhas horas vagas. A Tinta Rubra trouxe também a oportunidade de mostrar o meu trabalho para um público mais amplo, fora do círculo de familiares e de amigos, e percebi então que talvez eu pudesse ambicionar algo maior do que simples passatempo na área literária. Acabei lançando o meu primeiro livro, uma coletânea de contos chamada Luar de Vampiros (Scortecci, 2003) graças ao incentivo dos participantes do grupo e, de lá para cá, tenho mantido uma produção constante, com mais dois livros de contos: Vampiros no Espelho & Outros Seres Obscuros (Landy, 2004) e A Dama-Morcega (Landy, 2006). Este ano lancei o meu primeiro romance, Kaori: Perfume de Vampira pela Giz Editorial.

SAMIZDAT — Giulia Moon é, segundo fontes seguras (rsrs) um nome artístico. Como é o seu nome de batismo, e por que a opção pela adoção de um pseudônimo? Você publica textos como “você mesma”, diferentes dos textos escritos como Giulia Moon?
O meu nome real é Sueli Tsumori. “Giulia Moon” é um nickname que adotei quando entrei na Tinta Rubra. Ao invés de escolher, como os outros, um nome romeno vampiresco com títulos de nobreza como “condessa” e “lady”, reuni dois nomes curtos que tivessem algum tipo de significado para mim. Eu sempre gostei do nome “Giulia”, porque soava sensual, gracioso e fácil de ser pronunciado. E “Moon”, porque sou uma apaixonada pela lua, adoro ficar devaneando sob uma lua cheia ou ler histórias que envolvam noites de luar – além de achar a grafia de “moon” muito legal, com os “o”s lado a lado, lembrando dois olhos arregalados de espanto. Quando lancei o primeiro livro, não havia razão para assinar de outra forma, já que a maioria dos meus leitores me conhecia como “Giulia Moon”. E assim ficou. Nunca publiquei nada como Sueli, pois Giulia continua sendo, pelo menos para mim, o meu lado vampiresco, noturno, aventureiro – enfim, o meu eu que passava as noites teclando com amigos soturnos e escrevendo contos cruéis na Tinta Rubra.

SAMIZDAT — Os vampiros são um dos temas que, de tempos em tempos, voltam a ser moda. A que você atribui este fascínio que temos por estas criaturas?
Acho que as pessoas gostam de vampiros porque são, em primeiro lugar, vilões com um bom layout. São parecidos com os seres humanos, têm as vantagens da juventude eterna, imortalidade, dons psíquicos, força física. É um monstro que tem um arsenal de armas variado: a força, o poder psíquico, a sedução, a esperteza. Pode agir com a “mão pesada” ou com sutileza, dependendo da situação. Mas também pode ser sentimental, frágil, enfim, pode ter todas as fraquezas da mente humana, pois já foram humanos um dia. Para o autor, é um personagem muito estimulante, e isso faz com que o produto da criação tenha grandes chances de ficar bom. E, para o leitor, é aquele vilão (ou vilã) bonitão, sacana e malvado que adoramos odiar. Vilões assim sempre fizeram sucesso, pois adoramos esses contrastes: beleza com maldade, delicadeza com crueldade, e assim por diante.

SAMIZDAT — Com tantos autores, nacionais e estrangeiros, abordando o vampirismo, é possível fugir de certos clichês do gênero, ou ao fazê-lo corre-se o risco de descaracterizar o tema?
GIULIA — Bem, não existe uma lei que diga que tais e tais características são obrigatórias para um personagem vampiro. Acho que depende do bom senso de cada autor. Um bom senso que o faça reconhecer que, sem algumas características básicas, o seu personagem não é um vampiro, mas alguma outra criatura. Os vampiros do meu livro Kaori são os vampiros clássicos: predadores, bebem sangue (e só sangue), não andam a luz do dia, têm muita força e capacidade de se regenerar de ferimentos. Mas já escrevi contos em que os vampiros são seres microscópicos, por exemplo. Os clichês ruins são apenas aqueles que são mal trabalhados pelo autor.

SAMIZDAT — Muitos autores da nova geração encantaram-se com os vampiros por causa dos jogos de RPG, especialmente “Vampiro: a Máscara” (publicado no Brasil pela Devir). Você pertence a este grupo ou seu interesse é anterior? Qual foi sua inspiração inicial?
A minha inspiração inicial veio da literatura, do cinema e dos mangás. Só joguei RPG uma única vez, com alguns amigos. Eu adorei! É um jogo incrível, que faz uso de imaginação, de atenção, de perspicácia e é, antes de tudo, uma grande diversão. Mas mesmo àquela época eu não tinha tempo para frequentar as sessões de RPG e por isso não me tornei uma praticante. Tenho muitos leitores RPGistas e alguns deles estão até usando personagens dos meus livros para jogar. Deve ser bem interessante assistir Kaori, Kodo, Mimi e Missora inseridos num jogo de RPG

SAMIZDAT — Em seu Kaori: perfume de vampira, você narra a história paralelamente em duas épocas e lugares diferentes: no Japão da Era Tokugawa, e na São Paulo contemporânea. É evidente que a porção moderna do enredo depende muito dos eventos narrados na parte do século XVIII. Mesmo assim, como foi o processo de escrita? Como você montou o romance? Foi escrito da forma como se apresenta, ou foram feitas duas tramas, e amarradas posteriormente?
Na verdade, eu tinha duas histórias na cabeça desde o início, e fui escrevendo as duas ao mesmo tempo, para que os detalhes de ambas fossem se entrelaçando. Pois mesmo que a história atual dependa mais da trama do passado do que o contrário, a forma de narrar o passado dependia também do que o leitor já sabia que ia acontecer no futuro. Por exemplo, todo mundo sabia que Kaori não morreria, pois ela reaparece na São Paulo de 2008. Mas a narrativa tinha que manter o leitor em suspense quando ela corria perigo no passado.

Às vezes, eu escrevia dois ou três capítulos no presente para depois voltar ao passado e vice-versa. Noutras vezes eu reescrevia alguns trechos para que se moldasse melhor à trama paralela. Foi um trabalho de verdadeiro artesanato, tecendo, cortando, costurando.

SAMIZDAT — Os protagonistas Kaori e Samuel aparecem em uma outra narrativa – um conto – segundo uma nota do romance. Quem veio primeiro: o conto ou o romance? Há outros personagens reincidentes, em outros contos? Você se sente tentada a escrever uma saga de três, quatro ou sete romances?
Inicialmente, o conto “Dragões Tatuados”, com Kaori e Samuel, fazia parte do esboço de romance que eu estava planejando. Quando recebi o convite de Ednei Procópio, editor da Giz Editorial, para fazer parte da coletânea “Amor Vampiro”, tive a idéia de usar esse trecho para um conto, pois ele mostrava de uma forma interessante algumas facetas do amor de uma vampira. O conto fez sucesso e acabou abrindo caminho para a publicação posterior do romance.

Kaori já havia aparecido antes em dois ou três contos, alguns apenas como coadjuvante. A idéia dos famélicos já tinha sido lançada num conto chamado “Parasitas!”, o vampwatcher já havia aparecido no conto “Mil e Trezentos Vampiros”, ambos publicados na minha coletânea Vampiros no Espelho & Outros Seres Obscuros. Enfim, eu já estava delineando o universo de Kaori há algum tempo.

Quanto à saga, não sei se haverá tantos romances, mas estou escrevendo mais um livro dentro desse universo, pois sinto que ainda há muito nele a ser explorado.

SAMIZDAT — Sabemos que você era, essencialmente, uma narradora de contos. Como você define a diferença de escrever em um e em outro gênero?
A diferença mesmo é de fôlego. Assim como num conto a sua capacidade de síntese é posta à prova, num romance você precisa se dedicar a pesquisar, a se aprofundar e a detalhar. Um romance é um trabalho árduo, braçal, e de imensa concentração. Mas também é a ponte para uma ligação mais intensa e apaixonada com o leitor. Os contos são um exercício de imaginação, de criatividade, de habilidade. Um romance é, além de tudo isso, uma prova de resistência, de persistência e de foco.

SAMIZDAT — Você já tem um público fiel? Como seus leitores receberam o romance? Você tem algum feedback de seus leitores? É importante saber a opinião de quem nos lê, mas até que ponto você escreve para seu público, e em que medida você se mantém fiel ao que você quer escrever?
Os meus leitores receberam Kaori com festa. Acho que todo mundo que me conhece já me perguntou, em algum momento, por que eu não escrevia um romance, pois muitos dos meus contos tinham aquele jeitão de pedaços de algo maior. Senti, por parte desse público, uma grande alegria com a chegada de Kaori, uma recepção tão calorosa que até me surpreendeu. Por outro lado, com a publicação de Kaori, o número de leitores aumentou muito. Tenho recebido mensagens entusiasmadas comentando sobre o livro e os personagens. O engraçado é que eles leram Kaori, em média, em três dias, o que é surpreendente para um livro com quase quatrocentas páginas. Isso é um forte indício de que o livro cumpre bem a sua função de divertir e entreter o leitor, e estou bastante satisfeita com isso.

Quanto a escrever para o leitor, tenho a sorte de pertencer à grande fatia da população que adora se divertir com a leitura. Não acho que sou muito diferente da maioria dos leitores, por isso, sempre escrevo para mim mesma. Se não estou gostando do que escrevo, eu me entedio e não consigo ir adiante.

SAMIZDAT — Há um evidente trabalho de pesquisa sobre o folclore japonês em Kaori. Quanto tempo levou esse processo? A que fontes você recorreu? Há um ponto onde entra alguma “licença poética”, ou você se manteve fiel à tradição?
A maior parte da minha pesquisa concentrou-se na História do Japão, que eu pouco conhecia, nem tanto para colocar dados no romance, mas para situar os personagens, seu comportamento, o ambiente em que vivem, na minha própria cabeça. As criaturas míticas de Kaori são bastante conhecidas pelos japoneses, é como se usasse Saci e Iara do folclore brasileiro, portanto não foi preciso muita pesquisa. Eu já conhecia os tengus e o nekomata de livros japoneses, mangás e filmes e só procurei me certificar de alguns poucos detalhes. Para isso recorri a consultas a sites que tratam do folclore japonês na internet. Quanto à fidelidade às lendas, no caso dos tengus de Kaori, usei apenas a forma visual original e brinquei com a idéia de uma criatura fantástica fazer uso da imagem de outra, pois eles não são tengus de verdade, e sim vampiros que se apropriam dessa lenda para incutirem temor às pessoas ingênuas da região. Quanto ao nekomata, mantive a maioria das características originais como as duas caudas, a possessão de cadáveres, etc.

SAMIZDAT — Você tem algum projeto em andamento? Pode nos falar um pouco a respeito?
Afora alguns convites para coletâneas, estou começando a escrever um novo romance dentro do universo de Kaori. Não posso detalhar muito a respeito, pois as idéias ainda estão se formando na minha cabeça, e tudo o que eu disser aqui pode mudar no instante seguinte. Pretendo mergulhar completamente nesse projeto a partir do início do ano, por isso devo “desaparecer” durante alguns meses para dedicar todo o meu tempo ao novo livro. Em 2010, completo dez anos como escritora, por isso quero iniciar o ano com força total!
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