O COMBUSTÍVEL DA FANTASIA

Com versões para o cinema prestes a estrear, “Onde vivem os monstros” e “Alice no País das Maravilhas” ganham novas edições, com atenção especial ao visual das obras 

Só aqueles que são rabugentos além da conta, ou estúpidos nesta mesma medida, conseguem ignorar a força e as qualidades da literatura infantil. E não me refiro à importância dela para as crianças, com toda aquela lista de benefícios que os pedagogos estão mais aptos a enumerar. Falo do prazer do adulto de ler livros que não foram escritos para eles. Caso exemplar é “O pequeno príncipe”, do francês Antoine de Saint-Exupéry (1900 – 1944), livro de cabeceira de muita gente grande, que nele encontra outro nível de leitura, talvez mantido oculto dos pequenos leitores. 

Outros clássicos, “Alice no País das Maravilhas”, do inglês Lewis Carroll (1832 – 1898), e “Onde vivem os monstros”, de Maurice Sendak, são mais arredios, ainda que tenham prorrogado seu prazo de validade. Em comum, as duas obras têm a relação indissociável entre o texto e a imagem. Ponto de convergência, aliás, que confere a estas criações um caráter de atualidade, graças à quase onipresença da imagem. 

Não à toa, os dois textos acabam de ganham versões para o cinema que têm causado grande expectativa entre cinéfilos e apaixonados pela literatura fantástica. Expectativa nascida da leitura das obras (ou do conhecimento de sua existência) e crescente sob o impacto das imagens de divulgação. 

Selvagem?
“Onde vivem os monstros” chega às telas na sexta-feira. O apelo do nome da obra (um clássico da literatura infantil norte-americana do século passado) foi multiplicado pela participação de Spike Jonze no projeto. O cineasta, cultuado diretor de “Quero ser John Malkovich”, estreia numa produção para o público infantil. Jonze teve que esticar um pouco a história, como se vê no “livro do filme”, narrativa abreviada, ilustrada com imagens do longa. 

No filme, bem ao gosto de Hollywood, é reforçado o valor da família, que persiste para além do desentendimento de seus membros. Na história original, escrita em 1963, tal ideia não é tão explícita. Sendak se concentra mesmo é no papel da imaginação para a criança, em sua relação com o mundo. 

A história acompanha o garoto Max, que, depois de pintar o sete, é mandado para o quarto de castigo. Com sua fantasia de lobo, ele brinca no quarto e de lá parte em um veleiro, em busca de um lugar melhor para si, bem longe das brigas com a mãe. Depois de dias em alto mar, ele chega a uma floresta habitada por gigantescas criaturas (detalhe: o título original, “Where the wild things are”, fala de “coisas selvagens”, não de monstros). Max acaba por conquistá-los e é coroado rei da ilha. Os dias de brincadeira do novo regente logo dão lugar à exigência de uma série de decisões e responsabilidades que ele não está tão seguro de assumir. 

“Onde vivem os monstros”, em ambos os livros, já vale pelas imagens – enriquecidas pelo choque do banal e do fantástico. Fora isto, traz uma fábula simples, sem floreios simbolistas ou coisa do tipo. 

Alice e o jogo dos espelhos mágicos
Publicado originalmente em 1865, “Alice no País das Maravilhas” desde muito cedo pegou os leitores adultos – além das crianças, naturalmente seduzidas pelo mundo fantasioso concebido por Lewis Carroll. As aventuras da menina Alice começam no dia quente no campo, quando ela segue um apressado coelho branco, estranhamente trajado com colete. A toca daquela criatura falante a leva até o País das Maravilhas, onde ela conhece personagens inusitados, como o Chapeleiro Louco e o sorridente Gato Cheshire. Os jogos de lógica, as brincadeiras com a linguagem (que se tornariam obsessão da filosofia umas poucas décadas depois) e o nonsense tornaram-se paradigmáticos para a literatura. 

Logo o livro entrou para o cânone dos modernistas, que nele encontraram uma série de anunciações das transformações que eles mesmos impunham ao fazer literário. Aspecto que passou um tanto despercebido de início foi a força das imagens no livro. Em parte porque, por muito tempo, as ilustrações foram vistas como um complemento mais ou menos dispensável ao texto, sendo justificadas mais por motivos comerciais e para prender a atenção dos pequenos leitores. Mas não se pode esquecer que o autor não era insensível ao visual, quer pelo fato de ser impossível ler o livro sem desenhar mentalmente o país maravilhoso e seus habitantes, quer por Carroll ter construído uma imagem usando um trecho do livro (numa antecipação reconhecida dos experimentos da Poesia Concreta brasileira). 

Tradição
As descrições dos habitantes do País das Maravilhas, com seus animais falantes, gigantes, anões e exércitos de homens-cartas, fascinaram ilustradores. Só pelo fascínio é possível compreender a força das imagens produzidas. Hoje, quando se pensa em Alice, vem à mente uma série de imagens que vão além da primeira adaptação do livro pelos estúdios Disney (no desenho de 1951). 

A nova versão da obra, traduzida pelo historiador Nicolau Sevcenko, traz ilustrações de Luiz Zerbini. Nelas, o artista paulistano se vale do repertório visual do livro que já foi incorporado ao senso comum. Usando colagem e montagens digitais, ele faz do baralho uma constante, como se trata da matéria da qual o País das Maravilhas é feito. Menos descritivo que seus antecessores, Zerbini casa com a ideia do tradutor. Sevcenko preferiu uma recriação da obra que preza pela invenção, tentando se aproximar do espírito da criação de Carroll, mais do que ser fiel ao “pé da letra”. 

A nova versão das aventuras da menina Alice, em 3-D, chega às telas brasileiras em abril, com direção de Tim Burton.
>> CADERNO 3 – por Dellano Rios

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