“CENTOPEIA”: CEARENSE E SIDERAL

Em 2008, o Ceará estreou seu primeiro longa de ficção científica, Centopeia. Rodado durante quatro anos e com orçamento de R$ 300, o filme é relançado e entra em circuito comercial a partir de hoje, no Centro Cultural Sesc, de Fortaleza, Ceará.

O longa-metragem Centopeia é assinado pelo jovem realizador Daniel Abreu (Divulgação)

Daniel Abreu tinha sete anos quando fez o primeiro filme. A câmera era de um tio; os roteiristas e atores, seus primos e amigos. A história era “louca e sem sentido“, e o título ele não revela. O cinema pegou o menino de jeito, e ele nunca deixou de apostar no lado insólito da sétima arte. Esse estágio nas produções caseiras, a formação em audiovisual e alguns anos morando nos Estados Unidos resultaram no primeiro longa-metragem de ficção científica cearense, Centopeia, lançado em 2008.

O filme se passa em 2056. Uma astronauta brasileira parte em uma expedição a Marte e acaba perdendo os tripulantes e a comunicação com a base. Ao mesmo tempo, um objeto voador não identificado está em rota de colisão com a Terra, prestes a destruir toda a população. Em Quixeramobim, um fazendeiro luta para sobreviver. Para contar a história, Daniel lança mão de efeitos visuais, produzidos por ele mesmo, em casa. Elenco e equipe técnica dispensaram cachês. Equipamento e estúdio com chroma key – para as cenas no planeta vermelho & foram cedidos pela Faculdade Grande Fortaleza. Com a viagem a Quixeramobim, os custos para a realização de Centopeia totalizaram exatamente… R$ 300.

“Até hoje, todos os filmes que fiz foram completamente independentes. Até dois filmes que fiz nos Estados Unidos foram assim, sem grana. Para você ter uma ideia, o filme mais caro que eu fiz foi A Lenda de Linda Cruz, que é medieval. Juntamos metade da população da cidade de Cruz para fazer cenas épicas, com lutas de espada. Custou R$ 3 mil“, revela o diretor.

Quase dois anos depois de sua estreia, Centopeia entra em cartaz novamente a partir de hoje, no Centro Cultural Sesc São Luiz. À época, as opiniões sobre a saga sci-fi foram divididas: “É uma ficção científica feita com R$ 300, que não tem atores conhecidos e com um tema que não é tradicional do Brasil. Teve gente que não gostou, teve gente que adorou. Acho interessante que o Centopeia seja assim. Você gostando ou não, ele é um filme que te propõe uma discussão, te instiga“, diz.

Segundo Abreu, a reestreia vem a pedidos. “Recebemos e-mails, ligações, pessoas falaram com a gente na rua achando que aquela primeira exibição foi muito pouco. Agora decidimos fazer um lançamento comercial, que não é para conseguir um retorno financeiro. Com o que conseguirmos arrecadar, vamos produzir cópias para a equipe envolvida e material publicitário para promover o filme em cineclubes pelo Brasil e no interior do Estado“, conta.

O filme, caracterizado pelo diretor como “difícil de ser assimilado em relação às questões técnicas“, foi gravado quase que integralmente com uma câmera de mão. Seu retorno ao cinema, então, traz consigo uma discussão: “Ouvi gente dizer que um longa só é longa se custar mais de R$ 100 mil. Se fosse assim, nós excluiríamos todos aqueles filmes feitos com baixíssimo orçamento e acabaram entrando para a história, se tornaram cult. Ainda existem pensamentos pejorativos em relação ao cinema de baixo custo, e tanto o espectador quanto os profissionais de cinema precisam amadurecer em relação a isso. Porque é arte, é livre para experimentar o maior número de possibilidades“, finaliza.

E MAIS
– No filme, o garotinho Juan Rios tem um papel crucial. Atualmente, Daniel Abreu trabalha em uma continuação de Centopeia que deve ser filmada quando Juan crescer.

– Este ano, Abreu comanda sua primeira produção com verba pública. O filme se chama A Sedição de Juazeiro e vai explorar o imaginário popular do nordestino.
>> O POVO – por Alinne Rodrigues

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