XOCHIQUETZAL: UMA PRINCESA ASTECA ENTRE OS INCAS

Antes de falar com os reis da Espanha, Colombo foi ao rei de Portugal propor seu plano de chegar às Índias pelo Ocidente. Que aconteceria se o convencesse? O romance Xochiquetzal: uma princesa asteca entre os incas, de Gerson Lodi-Ribeiro (Editora Draco, 144 págs., R$ 28,90) responde com uma aventura narrada por uma princesa asteca levada a Lisboa para ser educada como cristã e casada com um nobre português – a saber, Vasco da Gama. 

Xochiquetzal da Gama delicia-se em misturar xocolatl com vinho da Madeira enquanto acompanha o marido em um ataque punitivo a Calicute. Teria sido o ponto culminante dos Lusíadas de Camões na nossa realidade, mas neste romance é apenas um incidente a caminho de uma aventura maior. 

Vale notar que, no romance, Vasco da Gama não chega a Calicute depois de dobrar o Cabo das Tormentas, como na história real – e sim antes. Chega à Índia vindo do México, ou melhor, do Anáhuac, depois de ter sido vice-rei da Cabrália do Norte (América do Norte, para nós). A expedição de Bartolomeu Dias havia fracassado e os portugueses iniciam a colonização do Novo Mundo antes de chegarem ao Oceano Índico. 

É depois de partirem da Índia que Vasco e Xochiquetzal dobram o Cabo das Tormentas pela primeira vez (no sentido contrário), dão a volta ao mundo e destroçam a armada espanhola que tenta arrebatar o Novo Mundo a Portugal. Em seguida são chamados a intervir em nome de Portugal na guerra civil que divide o império incaico após a morte de Huayna Cápac, apoiando Atahualpa contra o usurpador Huáscar. 

Perfeita esposa, mãe e cronista, a princesa descreve em saboroso português quinhentista suas aventuras ao lado de Vasco da Gama nesse mundo no qual um Dom Manuel bem mais Venturoso reduziu a vassalos os imperadores inca e asteca e as “Três Cabrálias”, mas sem esmagar suas culturas e sociedades. O encadeamento dos acontecimentos pseudo-históricos e convincente a ponto de nos perguntarmos se esse caminho não teria sido mais lógico que o da história real. No mínimo, seria mais interessante. 

Há quem considere a história alternativa um gênero totalmente à parte da ficção científica, pois muitos romances de história alternativa foram escritos por autores não relacionados a esse gênero – como Philip Roth em Complô Contra a América e Michael Chabon em Academia Judaica de Polícia – e até são publicados por editoras que têm preconceito explícito contra a ficção científica, como a brasileira Companhia das Letras. 

Mas também se pode defender o contrário: a história alternativa não deixa de ser um gênero baseado na especulação ficcional sobre uma ciência, a história. E as mudanças nos caminhos da história frequentemente implicam desenvolvimentos sociais, científicos e tecnológicos alternativos, o que significa especular sobre ciências sociais e exatas como sempre fez a ficção científica. É o caso, por exemplo, de The Difference Machine, de William Gibson e Bruce Sterling, que supõe que Charles Babbage tivesse conseguido inventar o computador (mecânico) na era vitoriana e foi comentado em nossa coluna de agosto de 2008: Steampunk, saudade ou rebeldia? 

Há escritores que trafegam muito bem entre outras formas de ficção científica e a história alternativa – o que não é de surpreender, já que em ambos os casos se trata de especulação racional, em oposição à pura fantasia ou terror, que se baseiam em outras lógicas. Além de Gibson e Sterling, que antes de se aventurar na história alternativa criaram o subgênero cyberpunk ao especular sobre o impacto da internet e da informática no futuro, um bom exemplo é Philip K. Dick, autor tanto dos contos que inspiraram sucessos de Hollywood como Blade Runner, O Vingador do Futuro e Minority Report quando da história alternativa O Homem do Castelo Alto, no qual se especula sobre um mundo no qual o Eixo venceu a II Guerra Mundial. 

Outro bom exemplo é o próprio Lodi-Ribeiro, que introduziu a história alternativa no Brasil com o conto A Ética da Traição, de 1992 (no qual o Paraguai vence a Guerra da Tríplice Aliança e acaba por se tornar uma superpotência) e continuou a cultivar o gênero com outras hipóteses surpreendentes – por exemplo, a sobrevivência do Quilombo dos Palmares até sua transformação em nação moderna, em uma série de contos e noveletas que incluem Pátrias de Chuteiras, A Traição de Palmares e O Vampiro de Nova Holanda. Mas antes já escrevia contos de ficção científica convencional e continua a produzi-los, como a recente coletânea Taikodom: Crônicas, baseada no universo futurista que criou para o jogo online Taikodom, da Hoplon. 

Deve-se ressalvar que, se o autor já mostrou ser capaz de trafegar entre a ficção científica e a história alternativa com fluidez e competência, aparenta um pouco mais de dificuldade com transitar do conto para o romance. O romance recém-publicado é a continuação e desenvolvimento de um conto de 1999 intitulado Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança, originalmente publicado sob o pseudônimo de Carla Cristina Pereira para tornar possível ao autor publicar mais de um conto na mesma antologia, Phantastica Brasiliana. Com algumas modificações, o conto original foi incorporado a este volume como prólogo. 

Do conto de 1999 para o romance de 2009, a evolução é notável em termos de caracterização do mundo ficcional, dos acontecimentos pseudo-históricos e da linguagem, que procura reproduzir da maneira mais convincente possível (sem deixar de ser inteligível a um leitor do século XXI) o estilo dos cronistas do século XVI. Traz um mundo mais rico e complexo, no qual a cultura, história e costumes de astecas, incas e portugueses são mais e melhor exploradas. 

Entretanto, os principais personagens não tiveram um desenvolvimento proporcional e ficaram aquém do que se espera de personagens de um romance. Ao longo de suas aventuras no Caribe e nos Andes, permanecem os mesmos do episódio inicial, repetindo os mesmos gestos, manias e bordões: conta-se vezes demais que Xochiquetzal gosta de vinho e chocolate e se preocupa com os filhos, que Vasco da Gama cofia a barba e brada ordens heroicas, que os bravos portugueses enfrentam os inimigos usando rapieira e misericórdia. 

Não, não é que tivessem compaixão para com os vencidos: “misericórdia” era o apelido de uma grande adaga ou punhal que era usada na mão esquerda (junto com a espada na direita) e que servia tanto para aparar a arma do inimigo quanto para desferir-lhe o “golpe de misericórdia”. Vale notar, também que a “rapieira” é um dos raros anacronismos não intencionais da trama, de resto bem fundamentada nos usos da época: o nome e o modelo de espada surgiram gerações depois dos Descobrimentos, na França dos mosqueteiros. Para os portugueses do século XVI diziam apenas “espada”. 

Uma caracterização que era adequada e suficiente para um conto referente a um dia na vida dos protagonistas, torna-se repetitiva, monótona e até caricatural quando é mantida ao longo de uma narrativa extensa e que acompanha a vida dos personagens durante vários anos. Um conto se estrutura em torno de um conflito simples, que sustenta por si só a narrativa: personagens apenas esboçados podem dar conta do recado. Mas num romance, espera-se que os protagonistas mostrem outras facetas, evoluam e revelem mais de si e de sua subjetividade. Salvo raras exceções, são os fios condutores da trama e devem ser interessantes por si mesmos. 

Na ficção especulativa, é frequente que a profundidade do cenário e da especulação sejam mais importantes que a dos personagens, mas ainda assim pode-se e deve-se esperar, até para melhor expressar o espírito do mundo ficcional ao qual pertencem e do qual são a face mais visível, que eles se mostrem como seres vivos e complexos, não como ideais recortados de livros escolares. Nestes casos, o heroico navegador e a princesa indígena transformada em esposa dedicada (ainda que ligeiramente alcoólatra). 

É uma pena, pois a ideia de uma filha de Montezuma nascida em Tenochtítlan (Tenochilitão, como dizem os portugueses do romance) e educada em Lisboa por clérigos portugueses é fascinante. Poderia ser uma fonte de conflitos e reflexões tão insólitas e interessantes quanto o do próprio mundo ficcional que se estende à sua volta. Mas isso apenas é sugerido: resta ao leitor imaginar como seria viver na pele de uma mulher com essa história de vida, pois ela quase nada nos diz sobre si própria. 

Numa discussão sobre o filme Avatar na comunidade Ficção Científica no Orkut, o integrante Jorge Pereira definiu o filme com a seguinte frase: “Um filme em 3D, com personagens bidimensionais e uma história absolutamente linear”. Xochiquetzal, pode-se dizer, tem virtudes e defeitos semelhantes: um cenário complexo e interessante (com menos abuso de fantástico inexplicável e de efeitos especiais), mas os personagens são planos – e o fato de a trama ser mais longa e complexa e dispensar o maniqueísmo do filme de James Cameron torna isso ainda mais patente. No conjunto, é um bom livro, mas é de se desejar que, nos seus próximos romances, o autor considere mais a necessidade de fazer seus personagens crescerem proporcionalmente às suas narrativas e cenários.
>> CARTA CAPITAL – por Antonio Luiz M. C. Costa

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