“SPARTACUS”: UM BRASILEIRO NA ARENA

Fazer as malas e sair do Brasil é a estrada que muitos brasileiros tomam sempre que percebem as limitações em suas profissões ou a necessidade de vivenciar experiências em outras culturas antes de dar início à sua carreira. Thiago Moraes, primo da atriz Alice Braga, é um desses brasileiros que foi embora do país em busca de crescimento profissional.

Conheci o Thiago quando estudei no Studio Fátima Toledo, parada obrigatória de muitos atores e diretores que buscam expandir seu conhecimento na atuação para o cinema. Depois que saímos de lá cada um seguiu seu caminho: por motivos financeiros precisei voltar para o jornalismo e Thiago foi trabalhar no casting de filmes, bem como preparador de atores.

Mas a “indústria cinematográfica” brasileira só existe nos sonhos e logo Thiago se viu limitado novamente. Fez as malas e foi embora. Esta não foi a primeira vez que ele saiu do país. Anos atrás ele fez intercâmbio pelo Rotary Club em Tóquio, o que lhe permitiu ter uma outra visão da vida ainda muito cedo.

Em busca de repetir essa experiência, com uma visão adulta, ele chegou em 2008 na Nova Zelândia, onde conseguiu trabalhos como figurante na série de Sam Raimi, “Legend of the Seeker”. A produção gostou da dedicação e do trabalho de Thiago e quando surgiu a oportunidade de produzir “Spartacus” no país, ofereceram a ele um contrato fixo, para trabalhar como o stand-in de Andy Whitfield ator que interpreta Spartacus. O stand-in é a pessoa que substitui o ator antes das filmagens terem início, para ajustes técnicos de cenas.

Thiago com Andy Whitfield, que interpreta Spartacus

TVS. Por que a Nova Zelândia?
TM. Entre todos os países que pesquisei a Nova Zelândia se encaixou mais com o meu perfil. Queria mudar, trabalhar com cinema. A Nova Zelândia é um país onde o mercado de cinema está crescendo, um lugar perfeito para locações de grandes produções e seu estilo de vida “Kiwi” é muito parecido com o que eu gosto. É muito importante para mim conseguir conciliar trabalho e estilo de vida. E deu certo, adoro a minha vida e aqui me sinto em casa.

TVS. O fato da sua prima, Alice Braga, ter tido sucesso no exterior influenciou sua decisão de ir embora?
TM.Não só a experiência dela como a de outros primos que moram fora, além de amigos. Eu já tinha tido essa experiência no aspecto pessoal quando fui morar no Japão; agora queria ter a experiência como profissional. Em 2007 li um livro do diretor Sidney Lumet sobre a indústria do cinema e fiquei encantado com a forma como ela funciona, a organização e o profissionalismo. Queria conhecer isso.

TVS. No Brasil não tem isso?
TM. Acho que no Brasil nós temos profissionais muito competentes, criativos, com visão artística, mas falta um pouco de organização e valorização. O Brasil precisa pensar mais como uma indústria.

TVS. É difícil começar em outro país?
TM. O começo é sempre difícil, especialmente em outro idioma e cultura. Mas sempre acreditei que, quando se ama o que se faz, as oportunidades sempre aparecem. Trabalhei muito aqui, fiz um pouco de tudo, mas sempre fiquei feliz com as oportunidades e aproveitei cada etapa. Hoje estou trabalhando na minha área, e isso é maravilhoso.

TVS. Como foi que aconteceu começar a trabalhar com cinema na Nova Zelândia?
TM. Logo no segundo mês comecei a pesquisar agências de figuração, porque meu inglês na época não era muito bom. Tive dificuldades em ser agenciado porque queriam que eu tivesse carro para poder chegar nas locações, que ficam, na maioria, longe do centro da cidade. O transporte público é complicado e na época eu só tinha uma bicicleta. Na terceira tentativa disse que pegaria o carro de um amigo. Então, me deram o trabalho.

Em cena de “Legend of the Seeker”

TVS. Que trabalho foi este?
TM.Era para fazer figuração em “Legend of the Seeker”. Eu interpretava um guarda em alguns episódios. Tinha que estar lá às 5 da manhã. E como meu amigo não emprestou o carro, eu ia de bicicleta. Mas o estúdio era muito longe, então eu tinha que acordar às 3 da manhã e pedalar 20 km mais ou menos.

TVS. Valeu a pena?
TM. Ô se valeu! Era meu primeiro trabalho, e era sempre o primeiro a chegar, todo feliz! Esta experiência me levou a conhecer o pessoal da produção da série. Fiz contatos que foram importantes.

TVS. Você saiu de lá diretor para “Spartacus”?
TM. Não, eu ainda fiz alguns curtas. Tanto como ator como diretor de atores. Foi muito bom, primeiro porque estava atuando pela primeira vez em outro idioma, e segundo porque estava dirigindo atores, que é algo que eu adoro fazer.

TVS. Atuar em outro idioma é muito diferente? Limita?
TM. Exige muita atenção, apesar de acreditar que a principal função do ator é saber trabalhar a emoção, não importa qual o idioma. Acho que o que mais pesa é a cobrança pessoal de querer fazer o trabalho bem feito e falar de forma correta, para que todos entendam. Isso exige muita paciência e, principalmente, saber controlar a auto crítica.

TVS. Como foi que você chegou em “Spartacus”?
TM. Algumas pessoas da equipe do “Spartacus” trabalharam em “Legend of the Seeker”. Eles gostaram de mim e me ofereceram um contrato. O ambiente é maravilho. Todos foram muito carinhosos comigo, principalmente no começo quando tinha dificuldades com o idioma. São profissionais incríveis.

Com Lucy Lawless que interpreta Lucrécia

TVS. Como foi trabalhar com os atores do elenco?
TM. Todos foram maravilhosos. Trabalhei com a Lucy Lawless, o John Hannah e o Andy Whitfield. São pessoas incríveis. A Lucy é carismática, humana, generosa e atenciosa com todo mundo. O John tem um sorriso e uma alegria contagiante, o que torna o ambiente mais descontraído. O Andy é uma pessoa extremamente dedicada ao trabalho e tenho certeza de que ainda irá fazer muitos filmes no futuro. Uma vez um professor de teatro me disse que para ser um bom ator é preciso ser um grande ser humano. Trabalho com seres humanos fantásticos!

TVS. Você disse que queria ter a experiência de trabalhar em um ambiente profissional. Como é trabalhar em “Spartacus”?
TM. Aqui tudo funciona como um relógio. Começamos a filmar às 7 horas e terminamos às 19 horas. Tem horário certo para comer, preocupação com o bem estar e a segurança de cada um, responsabilidade com o pagamento. Tudo é muito planejado, organizado. Tudo isso ajuda a manter uma equipe motivada.

TVS. A série já foi renovada para uma segunda temporada antes mesmo da estréia da primeira. Você continuará na produção?
TM. Espero que sim. Preciso esperar, mas vou estar pronto se e quando isso acontecer. Creio que eles vão manter a mesma equipe, principalmente pelo carinho e a união que foram construídos ao longo da primeira temporada.

TVS. Você acha que a série tem chances de atrair o público brasileiro?
TM. Tenho certeza que sim. É uma série com um visual fantástico, com roteiro cheio de surpresas. Cada episódio que leio fico ansioso para saber o que vai acontecer no próximo. É uma série boa para ser exibida pelo SBT, por exemplo, que já passou “Roma”.

TVS. A imprensa americana fala muito sobre as cenas de violência e sexo que são apresentadas na série. Qual sua opinião sobre isso?
TM. É ficção, de mentira, puro entretenimento. Tenho um conceito diferente de violência. Para mim violência é assistir ao Jornal e ver o repórter perguntando para uma mãe o que ela sente quando vê a foto do filho que acabou de ser assassinado. E isso passa toda hora no Brasil. Video game e série de televisão é entretenimento.

Com John Hannah que interpreta Batiatus

TVS.Você já pensou em mudar e tentar trabalhar em outros países, como na Europa ou nos Estados Unidos?
TM. Planos a gente sempre tem, tudo pode mudar, mas no atual momento estou focado na Nova Zelândia. Estou feliz aqui , tenho os meus objetivos, aprendi muito e ainda tenho muito que aprender.  Quero viver bem cada momento de cada vez.

TVS. E com a sua prima, Alice Braga, tem vontade de trabalhar com ela?
TM.Lógico. Eu a adoro, ela é ótima e seria maravilhoso. Quem sabe um dia ela  vem para a Nova Zelândia fazer algum filme? Torço muito para que isso aconteça. Eu iria amar, é muito bom ter pessoas que a gente gosta perto da a gente.

TVS. Pensa em voltar ao Brasil?
TM. Por enquanto fico aqui. Tenho trabalho, casa e amigos. Fica a saudade da família, do futebol, da cerveja com os amigos. Mas aqui descobri outras coisas que também gosto!

TVS.Que dica daria para quem pensa em ir embora do Brasil.
TM. Procure sempre ser educado; tente aprender a cultura do país e se adaptar a ela. Seja honesto e esforçado. Vá para outro país com o objetivo de agregar, isso é fundamental.

Com um visual que resgata os video games e o filme “300”, a série “Spartacus: Blood and Sand” estréia nos EUA no dia 22 de janeiro pelo canal Starz. Ainda não há previsão de sua estréia no Brasil.
>> TV SÉRIES – por Fernanda Furquim

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