J.J. ABRAMS: CINEASTA FALA SOBRE “LOST”, “FRINGE”, “STAR TREK” E SUA PRÓXIMA SÉRIE, “UNDERCOVERS”

J.J. Abrams esteve na festa do canal Fox para a turnê de inverno da Associação dos Críticos de Televisão representando o seu programa Fringe. Mas, com tantas coisas rondando sua escrivaninha, como o final de Lost, a nova série Undercovers e a sequência de Star Trek, o cineasta teve de falar sobre um pouco de tudo.

Quem esteve por lá foi Sara Wayland, da equipe de colaboradores do Collider, parceiro do Omelete em Los Angeles. Confira o que ele falou sobre os seus trabalhos:

Os dois universos de Fringe vão finalmente começar a colidir?

Tem várias coisas muito legais que vão acontecer até o fim da segunda temporada. No entanto, o Jeff [Pinkner] e o Joel [Wyman], que estão realmente comandando o programa, ameaçaram me matar se eu revelar alguma coisa. Eu vou dizer que a trama que eles tinham no início dessa temporada, e que conversamos também com o Akiva Goldsman, vai ter um encerramento muito bom. Estou muito empolgado com isso. 

Vai ter mais William Bell interpretado pelo Leonard Nimoy?

Existe uma chance disso, com certeza. Eu não quero dar certeza nem para sim, nem para não, mas definitivamente existe a possibilidade. 

Em que estágio de desenvolvimento está o seu novo piloto para a NBC, Undercovers?

Nós começamos a filmar na segunda-feira. Então estamos bem mais adiantados do que eu sinto que estamos. 

Esse é mais um projeto de ficção científica?

Não. É uma série romântica que é uma comédia-drama sobre um casal de espiões. 

Com Lost chegando ao fim nesta temporada, você vai dirigir o último episódio?

Não. O Jack Bender realmente é o cara desse programa, como produtor/diretor, então seria errado da minha parte chegar e dizer “Olha, chega pra lá que eu vou dirigir”.

Mas você dirigiu o primeiro episódio. 

Eu sei, mas de alguma maneira seria estragar todo o trabalho incrível que ele fez. Mas o fato é que ele está morando no Havaí com o elenco, então ele vai dirigir o último episódio. 

Você vai cuidar da direção no seu novo programa?

Eu vou dirigir o piloto de Undercovers, sim. 

A NBC parece receptiva para novos dramas, agora que eles vão vagar o espaço das 22h de novo?

Eles já eram um lugar receptivo quando compraram o piloto, então eu estou muito feliz de estar lá. De repente há mais horas disponíveis por semana, o que é bom, mas isso não a torna mais ou menos receptiva. As pessoas da NBC têm sido extraordinariamente gentis e deram muito apoio a este piloto. É o início de um relacionamento. É uma coisa esquisita. Quando você faz um piloto com uma nova emissora, ou até com uma conhecida, e com atores com quem você nunca trabalhou, é sempre uma questão de fé. Você está entrando apressadamente num casamento com pessoas que você acredita que são ótimos parceiros, mas não tem certeza. Tudo que você pode fazer é, no dia-a-dia, perguntar “O que você acha disso? Me parece bom” ou “Isso está me incomodando, então vamos conversar sobre o assunto”. É literalmente como estar num relacionamento. Por enquanto ainda não tivemos brigas, estamos no período de lua-de-mel. 

Com terroristas ao redor do mundo e guerras acontecendo, você consegue fazer dramas sérios sobre terrorismo e medo, ou é melhor fazer algo mais leve?

Uma das coisas divertidas desta nova série que estamos fazendo é que ela é muito mais divertida, leve e escapista, ao invés de um drama pesado e complexo. Para mim, a ideia de combater qualquer coisa que se assemelhe ao terrorismo de verdade, não é bem o que eu quero assistir nesse momento. Eu não estou dizendo que isso é uma coisa que eu não assistiria, caso alguma outra pessoa fizesse, mas não é o que eu estou focando neste momento. 

É uma aposta mais arriscada tentar fazer uma coisa assim, com a situação do mundo agora? 

Quando se trata do que as pessoas estão indo assistir no cinema, pelo menos, está mais difícil fazer histórias de guerra. No entanto, uma das melhores coisas que a TV oferece é não só saber as notícias de tudo que está acontecendo nesse exato momento, em qualquer lugar do mundo, mas também a oportunidade de escapar de tudo isso. Querer uma dose de desejos realizados e diversão escapista é uma coisa que, como fã de televisão, eu consigo compreender, agora mais do que nunca. 

Você acha difícil passar de drama de ficção científica para um seriado mais leve?

Não, é sempre um alívio pular de um gênero para o outro porque, por mais que você esteja se divertindo e que tudo esteja dando certo, depois de trabalhar numa coisa por certo tempo, é refrescante trabalhar em alguma coisa que tenha outro ponto de vista. Uma outra abordagem e outro gênero. 

Você vai mesmo colocar a mão na massa nesse novo seriado? Você vai se envolver no dia-a-dia ou vai lançar, como com Lost e Fringe, e depois confiar na sua equipe?

Eu acho que, no começo, eu vou estar presente no dia-a-dia do programa. Eu vou dirigir o piloto, mas depois eu acho que o Josh Reims – com quem eu já trabalhei antes em Felicity – vai comandar o programa no dia-a-dia. Mas é importante para mim que a gente acerte o tom, consiga a energia e a dinâmica certa com os personagens. 

Você gostaria de dirigir um episódio de Fringe?

Eu adoraria. Isso foi antes do surgimento de Undercovers, mas não diminui minha vontade de fazer o episódio. Eu nunca consegui a chance de trabalhar com o Josh [Jackson], Anna [Torv] e John [Noble], e colocar a mão na massa, então eu ainda gostaria muito de fazer isso. Com certeza não é uma possibilidade que eu estou eliminando. 

Você acha que a Fox quer mesmo fazer uma terceira temporada de Fringe?

Eles têm dado um apoio maravilhoso. Eu não tenho nenhuma reclamação sobre como a Fox tem lidado com a gente. Apesar de não haver nenhuma notícia oficial sobre nada, eu tenho esperanças de que, apesar de tudo, nós vamos manter nosso território com eles. 

Essa temporada vai terminar com um gancho empolgante para a próxima?

Ela não vai terminar concluindo a série. 

Você já está mais próximo de uma decisão sobre dirigir ou não o próximo filme de Star Trek?

Não. Nós ainda não temos um roteiro nem nada, mas temos uma data de estreia [29 de junho de 2012 nos Estados Unidos]. A ideia é que eles tenham fé na equipe para esse filme. 

Foi gratificante descobrir sobre a indicação ao prêmio do Writer’s Guild para o primeiro filme?

Eu estou muito feliz pelo Alex [Kurtzman] e pelo Bob [Orci].

Você esperava que isso acontecesse? 

Não. Estou muito feliz por eles. A verdade é que eles são incrivelmente talentosos e trabalhadores e muitas vezes acabam marginalizados porque são tão bem sucedidos. Mas eles são ótimos escritores e é maravilhoso ver que estão ganhando o tipo de reconhecimento que merecem. O designer de produção Scott Chambliss foi indicado. A equipe de maquiagem foi indicada. Os efeitos visuais também foram indicados. É ótimo ver as indicações desses artistas incríveis e que trabalharam tanto, que poderiam ser facilmente marginalizados porque é algo chamado Star Trek. Eles são muito bons. Espero que o Michael Kaplan, que fez um trabalho incrível com o figurino, seja reconhecido também. Pessoas maravilhosas trabalharam nesse filme. 

Estão rolando boatos de que o filme poderia ser indicado ao Oscar. O que isso significaria para o filme?

Eu não consigo nem imaginar, mas seria uma coisa maravilhosa para todos os envolvidos. É difícil imaginar isso. 

Em Lost, como você já sabia o que [os produtores-executivos] Damon Lindelof e Carlton Cuse iam fazer, conforme a última temporada foi se desenrolando você sentiu momentos verdadeiros de empolgação, ao descobrir o que ia acontecer?

Nessa temporada, eles estão fazendo umas coisas incríveis e complicadas que são realmente inesperadas e diferentes, em vários aspectos. O jeito que vai terminar é consistente com o histórico incrível que eles têm em contar histórias. Histórias que são surpreendentes, de jeitos que te explodem a cabeça, que é justamente o ponto-chave do programa e que eu acho que eles fizeram maravilhosamente bem. 

O fim da série é o que você achava que seria, desde o começo? 

Nossa, de maneira alguma! Não. Existem pequenos fios e elementos aqui e ali, mas na verdade, quando começamos, nós não sabíamos exatamente o que ia sair. Nós tínhamos ideias, mas não sabíamos até que ponto elas iriam. A ideia dos Outros estava lá, mas nós não sabíamos exatamente o que isso ia significar. Damon ainda não tinha tido a ideia dos flash forwards. Ver onde estamos agora e o que eles criaram é insanamente gratificante e é algo que ninguém teria previsto no começo. A evolução da série realmente faz parte do incrível experimento deles de pegar uma série que no começo nós falávamos “Como você transforma isso numa série?”. Ver o que o Damon e o Carlton fizeram é realmente incrível para mim. 

Mas você que teve a ideia para a base da série, certo? 

Existiam muitas ideias, mas o jeito como as coisas aconteceram faz parte daquela questão de fé, de acreditar que vai dar certo. Isso não significa que você planeja tudo. Você tem grandes ideias, mas quando as ideias melhores e maiores aparecem, você segue com elas. 

O que você aprendeu com Lost que vai conseguir levar para outros seriados de gênero?

Lost é um caso especial. É difícil saber. Podemos dizer que é melhor que você não fique muito “serializado” porque, em um certo momento, é difícil. Mas a verdade é que eu não sei se Lost teria dado certo se fosse qualquer outra coisa. E não sei como aquilo se aplicaria a qualquer outro seriado.  

Se os detalhes e a mitologia de Lost não tivessem dado certo com o público, você teria tentado mudar, ou teria simplesmente desistido?

É difícil imaginar a versão de Lost em um universo paralelo, em que você pensa “Olha, essa é a versão do outro jeito de contar a história”. Realmente parece uma trajetória que começou sem um lugar óbvio para terminar. Com o tempo, eles criaram essa narrativa incrível, que é simplesmente resultado daquele momento de fé, e de confiar que os personagens vão nos mostrar o que é a série, tanto quanto qualquer coisa. Damon e Carlton realmente fizeram um trabalho incrível. 

A ABC anunciar tão cedo uma data para o fim da série ajudou, na questão de contar a história? 

Isso é uma coisa que o Damon e o Carlton insistiram muito. Eles disseram “Nos digam quanto tempo nós temos, para que a gente saiba onde o jogo acaba e onde é a linha de chegada”. Se você não sabe se serão 10 temporadas ou 6 temporadas, você não vai sair do lugar. Estou muito feliz em ver os outdoors que dizem “A Última Temporada”. Você não vê isso com frequência. Saber que uma série está acabando por conta própria traz uma sensação de inevitabilidade, ao invés da sensação de que a série está reagindo ao mercado e aos números de audiência. Isso é muito bacana. 

 Você acha que essa última temporada vai satisfazer aqueles que acompanharam a história desde o começo?

Acho que vai ser agri-doce. Ao mesmo tempo que eu acho que será muito satisfatório, também acho que será o fim de uma coisa que, para o elenco e todos os envolvidos, foi uma aventura mágica. Então a ideia que vai acabar é meio triste, mas é muito melhor que acabe assim do que com a impressão de que deveria ter acabado dois anos atrás. Eu acredito que será um final muito satisfatório, com certeza. 

Você gostaria de ter um plano parecido para Fringe, terminar a série numa data específica?

Eu acho que isso seria maravilhoso. Acho que não tem como dar errado quando você já sabe até onde ir. Algumas séries não precisam disso, porque são tão engraçadas que você não quer que elas acabem. Mas, numa série como Fringe, chega um momento em que você precisa saber quanto tempo você vai ficar no ar. 

Você tem alguma ideia de onde quer levar a série?

Ah, claro. Nós tivemos algumas ótimas conversas, logo no início, sobre onde isso poderia ir parar. Mas não importa o quando você converse sobre o assunto, quando chega no espisódio 40 e alguma coisa de uma série, ela também está te falando pra onde ir. Já evoluiu bastante, mas qualquer série é assim. 

O que aconteceu nessa temporada que você não estava esperando?

Teve algumas histórias, especialmente a do Walter e Peter, e algumas coisas com a Olivia, que na verdade iam durar mais tempo mas que nós antecipamos e fizemos antes. E tem algumas outras coisas que tínhamos conversado, como o padrasto dela, que acabamos adiando. Existem muitas oportunidades de caminhos a seguir além desta temporada, e vou ser otimista em relação a isso. Eu sinto que ainda temos um longo caminho a percorrer, mas a evolução é essencial. O programa encontrou um ritmo que é agradável de assistir e eu estou muito orgulhoso de todos os envolvidos. 

Você sabia que as pessoas estavam tendo problemas para aceitar a personagem Olivia (interpretada pela Anna Torv)?

Sim. Mas isso sempre foi parte da ideia. A personagem dela é naturalmente alguém que está nesse mundo estranho com esses personagens e situações, e é meio difícil para ela ser receptiva e fofa nesse papel. Então foi uma questão de dar a ela um pouco de vulnerabilidade e incerteza em sua própria vida, sobre de onde ela veio e para onde ela está indo. Esse foi um caminho. 

Você imagina um arco de seis anos para Fringe, da mesma maneira que para Lost?

Em Lost foi só na terceira temporada que nós chegamos a um ponto em que falamos “Precisamos saber onde é a metade do caminho”. Eu acho que isso é uma coisa que, se nós tivermos sorte o suficiente para continuar. Seria inteligente pensar realmente qual é a data do fim, para que a gente saiba até onde levar as coisas. 

Mas vocês ainda não chegaram lá?

Ainda não. 

Você se dedica tanto, coloca tanto de si na televisão e agora você também tem o cinema. Como você vai equilibrar os dois?

Uma parte é trabalhar com pessoas que são incríveis e cujo trabalho te surpreende, e isso se aplica tanto ao Jeff e Joel em Fringe como ao Damon e Carlton em Lost. Existem alguns produtores que encontram um material, ajudam a colocar no ar e depois supervisionam ao lado de uma equipe que trabalha com eles. É isso que eu faço, mas às vezes eu também escrevo e dirijo. Pode parecer que eu estou abandonando o negócio, mas o que eu estou tentando fazer é deixá-lo de pé. Eu posso não ter a paciência de pessoas como o Joss [Whedon], David Kelley, Damon ou Chris Carter, que ficam lá desde o começo, por diversas razões, porque eu tenho um pouco mais de déficit de atenção que eles, mas eu nunca deixaria uma série sem a certeza de que ela está em excelentes e dignas mãos, que eu sinceramente acredite que farão um trabalho muito melhor, no longo prazo, do que eu poderia fazer. Eu nunca sei exatamente como as coisas vão acontecer, mas é assim que tem sido até agora. 

O que você acha da data de estreia de Homem-Aranha 4 batendo com a de Star Trek 2 no verão de 2012? 

Estão ansiosos para ver como será isso. Eu sei que eles estão falando sobre um reboot de Homem-Aranha, então será interessante. Eu acho que existe espaço para todos nós. 

Você tem uma data para entregar o roteiro de Star Trek 2?

Não muito. Eu tenho certeza que existe um prazo, mas eu ainda não decidi quando isso será. Você pode trabalhar de trás para frente e descobrir que precisa de alguma coisa para, merda, agora! 

>> OMELETE – por Carina Toledo

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