VAMPIROS: AS EDITORAS DE LIVROS ESTÃO DE OLHO NESSA ONDA


A estudante de psicologia rio-pretense Shya Alana, 25 anos,
leitora da saga Crepúsculo e dos livros de André Vianco
(como ‘Os Sete’): interesse pelo surreal (foto: Ferdinando Ramos)

 

Vampiros! Eles estão por toda parte. Seja na ficção literária, nas telas do cinema, na tevê. E quem sabe não exista mesmo um agora aí do seu lado, fazendo o que mais gostam: sugando a energia vital. A bem da verdade, atualmente, eles estão mais para mocinhos do que bandidos, já que se tornaram queridos graças às novas características românticas atribuídas aos personagens Edward e Bela, já há algum tempo a febre da ficção literária (e agora cinematográfica) jovem. Mas os sugadores de sangue têm cativado não apenas um público adolescente, mas arrastado adultos, vários adultos, para dentro de suas histórias – e não por acaso têm, com frequência, liderado rankings de bilheterias de cinema ou lista de livros mais vendidos.

“Uma loucura só”, é como Cristiane Freitas Ferreira, gerente de uma rede de livraria de Rio Preto, define a frequência na loja de aficionados pelo gênero logo após os lançamentos de filmes como os da saga “Crepúsculo”, da autora norte-americana Stephenie Meyer, publicados no País pela editora Intrínseca – cujo segundo episódio da série, “Lua Nova”, está no momento em cartaz.

O momento favorável à literatura de vampiro é tão grande que até editoras novas, menores, sem tradição, estão explorando o gênero. Não é o caso da editora Rocco, que já publicava livros com histórias de vampiros bem antes que Stephanie Meyer pensasse em escrever. É a editora, por exemplo, quem publica no Brasil a norte-americana Anne Ricce, responsável por criar os primeiros seguidores do gênero por aqui, ainda nos anos 1970. Anne tem mais de 20 livros publicados, entre eles “Vittorio, o vampiro”, “A hora das bruxas”, “A rainha dos condenados”, “Lasher”, “Taltos”, “Memnoch”, “Pandora”, “O vampiro Armand”, “O vampiro Lestat”, todos editados pela Rocco, que detém direitos sobre 15 obras da autora.

Mas não há como negar a força de “Crepúsculo” para esta novo estado de fama experimentado pelos vampiros. Tanto que, após arrecadar milhões de dólares em livros e filmes, a franquia vai explorar agora a linguagem das HQs. Sim, o fenômeno teve sua primeira história em quadrinhos, “Twilight: The Graphic Novel”, anunciada pela revista Entertainment Weekly, que divulgou uma das páginas, no último dia 20. O lançamento, marcado para o dia 16 de março, será por enquanto apenas no mercado americano.

As histórias estão sendo elaboras pelas mãos da artista Young Kim, que garante que os personagens Bela e Edward também vão virar desenho, em uma adaptação fiel do livro da escritora. O empresário e editor Paulo Tadeu, da Matrix, afirma que o primeiro projeto da editora nesta linha, “Vampiros, Origens, lendas e mistérios”, de autoria de Marcos Torrigo, pegou bem a carona do tema. “Já foram quase três mil livros da primeira edição em pouco mais de três meses, então, estou pensando em trabalhar mais títulos que forem chegando com a mesma temática. O livro lançado por aqui saiu em outubro e já está indo para a segunda edição.”

Tadeu explica que a obra chegou justamente quando estava começando o fenômeno Crepúsculo. “Foi uma aposta da editora. E ela tem se mostrado acertada. Afinal, toda essa onda em torno dos vampiros gera procura não só pelos livros da série, como por tudo que se relacione. Tem muita gente querendo informações sobre como os vampiros são, como se propagou a lenda, e daí por diante.”

Fãs do gênero se multiplicam
Mesmo quem nunca gostou de histórias de vampiros hoje se dobra à leitura de títulos como “Crepúsculo”. É o caso da enfermeira Eliene Minarini Alves, de 23 anos, que já leu toda a saga de Edward e Bella e ainda incentivou a irmã de 34 a se tornar fã. “Vi o filme e decidi ler o livro. Gostei tanto que não consegui parar enquanto não terminei a saga. Acho que o romance por trás da história é o que mais estimula”, diz.

Quem também não parou enquanto não concluiu a leitura de todos os títulos (Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer) foi a estudante de psicologia Shya Alana M. Lim, de 25 anos. Como leitora de tudo que lhe cai às mãos, afirma que após ler “Os Sete”, de André Vianco, passou a se interessar pelo universo vampiresco. “Acho que o fato de ser algo tão surreal é que faz com que se torne interessante”, diz.

“O primeiro livro da série foi avaliado por nosso editor, Jorge Oakim, em um final de semana. Ele levou o livro para ler na sexta-feira e, no dia seguinte, sábado, já tinha certeza de que se tratava de um sucesso, tanto pela originalidade da história quanto pela qualidade do texto, que prende a atenção do leitor, um fenômeno chamado de ‘turning pages’”, diz Juliana Cirne, da editora Intrínseca. “ O enredo de Crepúsculo representa um retorno ao romantismo, uma nostalgia do amor romântico que tem forte apelo para os jovens.”

Outros produtos
O potencial dos vampiros despertou a atenção também dos produtores de tevê. Duas séries sobre o tema fazem sucesso atualmente nos canais por assinatura: “True Blood”, que teve duas temporadas exibidas pelo HBO, e “The Vampire Diaries”, pela Warner (o SBT também adquiriu os direitos e garante exibi-la este ano).

Eles já estavam presentes na mitologia grega
Para a antropóloga Niminon Suzel Pinheiro, professora da Unirp, o vampirismo está relacionado à crítica e ao moralismo cristão desde sempre. Seja por sua ligação com o humano à tensão entre a imaginação e a moralidade, a percepção do daimonismo na natureza e a culpa. “A dúvida e ansiedade daí decorrentes podem provocar e gerar a criação e o sucesso desse tipo de ficção”, afirma.

“Ao longo do processo histórico e social, diferentes figuras representaram o lugar hoje ocupado pelos vampiros. A Górgona grega mostra bem isso”, diz. Na arte antiga, ela é representada com uma cabeça sorridente, de barba e presas.

A professora observa que o vampirismo é como um escudo ou um ímã. “Nos vemos nele, se agimos mal, somos atraídos e engolidos e agimos bem. Ele nos fortalece. Observe que os navios antigos tinham cabeças de monstros na proas dos navios para desviar más influências. Nem tudo que parece do mal traz o mal. Eles servem para afastá-los, conforme a ideia de similaridade”, desafia.

Niminon propõe pensar outra questão importante. “O vampirismo da atualidade veiculado pela mídia e refinado pela imaginação popular é a relação com o sexo. Isso decorre da ideia, também antiga, da tocaia, do estupro e do devoramento da presa após o ato sexual. Assombrações, feiticeiros, duendes, gnomos, hárpias, seres das trevas, demônios errantes, morte e renascimento, partes complementares do ciclo da mãe-natureza, que sintetizam-se no vampiro glamurizado nas telas de hollywood”, diz.

Na internet
Nem todos os escritores do gênero vampiresco são conhecidos da grande mídia. Porém, a democracia de acesso do mundo virtual lhes permite atrair muitos fãs. É o caso do paulista Adriano Siqueira, diagramador e design gráfico de 44 anos que se tornou conhecido graças a seu trabalho no site www.adoravelnoite.com, seguido de perto por milhares de internautas.

“A humanidade tem uma atração por conhecer seres poderosos, dominantes, sedutores e solitários e com muita ênfase em Paixões proibidas. Os vampiros são os únicos seres sobrenaturais a ter tudo isso em suas histórias. Isso prende o leitor”, diz.

Na entrevista abaixo, concedida pelo paulista Adriano Siqueira, de 44 anos, diagramador e design gráfico, autor do site Adorável Noite, o leitor vai conhecer um pouco mais sobre o leitor que de tanto colecionar livros, HQs, filmes, Cds e tudo mais que existe sobre vampiros, acabou por transformar isto em sua profissão. Ele conta como tudo começou e, garante, que já conseguiram – ele ao lado de vários outros escritores nacionais, que participam da criação do grupo de novos escritores “Tinta Rubra”, há dez anos – cravar seus dentes pontiagudos no cenário cultural do País. Hoje, além de escrever, Siqueira é consultor de novos sites sobre
vampiros, ministra palestras sobre vampiros, participa de exposições, e também concede entrevistas às diversas mídias, além de produzir curtas metragens, HQs e radionovelas sobre vampiros. Acompanhe a íntegra da entrevista.

Diário – Como começou a escrever sobre vampiros?
Adriano Siqueira – Foi em 1996, quando comprei um computador e tive acesso as BBS´s (sistema offmail de comunicação) A onda sobre vampiros crescia muito por causa do RPG que era a novidade dos vampiros. Comecei a escrever contos pequenos e em pouco tempo comecei a ter muitos leitores que apreciavam as histórias que eu escrevia. As raízes dos vampiros se fortaleciam a cada dia. Foi naquela década que passou nos cinemas, o Filme Entrevista com o vampiro e Drácula do Ford Copolla. Na TV passava o Seriado Buffy a caça-vampiros, o Seriado Maldição Eterna e o seriado Kindred – Irmãos de sangue, que era sobre RPG. A década de 90 também tivemos o lançamento do “Livro dos Vampiros” do autor Gordon Melton. Tudo isso fez com que a vitalidade do assunto sobre os vampiros crescesse muito e foi nesta década que comecei a escrever.

E como surgiu a idéia do site?
Criei um site em 1999 para colocar os contos que escrevia e logo em seguida criei o site Conto noturno (atual Adorável Noite) para divulgar mais ainda os meus contos. A ideia foi tão positiva que comecei também a divulgar os livros sobre vampiros. Eu precisava de mais apoio. Então pedi ajuda para um site que tinha muitos grupos no antigo e-groups (hoje é o Yahoo), sugerindo a criação de um grupo específico para contos de vampiros. Foi assim que no ano 2000, nasceu o primeiro grupo de contos de vampiros do Brasil, o Grupo Tinta Rubra. Com este grupo ficou bem mais fácil divulgar meu trabalho e o dos novos escritores de vampiros. Aliás, muitos livros existentes hoje são de autores que já passaram por ele. Até porque, o site Adorável Noite (www.adoravelnoite.com) e o grupo Tinta Rubra, completam este ano, 10 anos de vida!

Além deste grupo de escritores, o site deu origem a outras situações?
Em 2008 estreia o primeiro livro com a minha participação. “Amor Vampiro” junto com mais seis autores; em 2009, teve o livro “Draculea” – o livro secreto dos vampiros ao qual participei com um conto chamado Filosofia Vlad e em seguida “Metamorfose” a fúria dos lobisomens com uma história sobre um vampiro e um lobo.

O que, em sua opinião, cativa tanto os leitores, quando se aborda este assunto?
A humanidade tem uma atração por conhecer seres poderosos, dominantes, sedutores e solitários e com muita ênfase em paixões proibidas. Os vampiros são os únicos seres sobrenaturais a ter tudo isso em suas histórias. Isso prende o leitor. O vampiro tem muitas vertentes. E a cada livro, a cada autor, o leitor fica interessando em saber sobre qual o tipo de vampiro que o personagem é. As armadilhas sedutoras que o vampiro planeja para conquistar as suas vítimas deixa a dúvida se ele está apaixonado ou se ele só faz estes jogos para se alimentar. A curiosidade sobre o assunto é tão vasta que certamente ainda teremos muitas histórias a serem contadas.

Acredita que em algum momento este tipo de literatura terá tanto espaço, quanto tem hoje, os livros de auto-ajuda, por exemplo?
Faz pouco tempo que temos a categoria terror nacional nas livrarias. Antes, era tudo colocado em literatura nacional, romance ou infanto juvenil. Os vampiros ainda terão uma categoria própria, pois a quantidade de livros aumentam, a pesquisa que fiz em 2009 mostrou que tivemos mais de 20 livros sobre vampiros em um único ano. Isso é um record brasileiro. Se continuar assim neste ano vamos ter o dobro. O Brasil é uma forte potência sobre o tema. Tem escritores experientes e existem mais aparecendo. Tudo indica que em breve teremos mais editoras acreditando neste tema. Abrindo mais as portas para os escritores nacionais que escrevem sobre vampiros.

Como você vê a expansão da abordagem deste tema, com a repercussão de livros como “Crepúsculo”, e os demais da autora?
Foram os livros da Stephenie Meyer sobre vampiros, que fizeram com que a mídia fosse tomada pelo tema e as editoras abrissem mais ainda as portas para os escritores nacionais. Já vimos esta moda de vampiros no Brasil quando estreiou a série Buffy – a caça-vampiros e mais tarde com a novela “Beijo do Vampiro”. A cada década sempre tivemos os vampiros na moda. Na década de 90, foi o filme “Entrevista com o vampiro” que personalizou até a roupagem dos vampiros; na década de 80, foram “Os Garotos Perdidos” que estabeleceu a rebeldia dos adolescentes em sua eterna vida noturna; a década de 70, vieram os filmes do Chirstopher Lee sobre Drácula, que mostrou como um homem completamente desconhecido pode dominar as mulheres com poucas palavras. Nesta nova década, quem sabe não será a vez do Brasil, finalmente tomar a frente com suas próprias histórias.

Tem alguma publicação independentes sobre vampiros?
Eu organizo o Fanzine Adorável Noite – Contos de Vampiros. Ele foi criado em 2001, e tem por objetivo divulgar os contos e poemas de autores nacionais. O fanzine é entregue em casas noturnas e eventos sobre o tema. Se alguém estiver interessado em participar deste fanzine, ou mesmo ler alguns, pode fazê-lo através do site http://www.adoravelnoite.com/fanzines/index.html que é totalmente gratuito.
>> DIÁRIO DA REGIÃO – por Cecília Dionizio

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