SOBRE VAMPIROS

Foi-se o tempo em que falar sobre vampiros era o mesmo que querer assustar alguém com algo que poria medo. Os tempos são outros e o antigo monstro, senhor das trevas e fonte de todo mal, é reverenciado como um objeto de desejo por parte das mulheres. Seria mais uma prova de que seus poderes são ilimitados?

Pelo menos no campo da ficção isso parece ser uma verdade incontestável. Quando o personagem “vampiro” (seja qual for o nome que adota, de Dracula a Edward, de Lestat a Angel, de Bill True Blood ao senhor Barlow, de Salem´s Lot, de Stephen King), todos passaram por verdadeiras transformações que vão do comportamento à aparência. O vampiro moderno não lembra em quase nada o clássico, apenas a sede de sangue continua. A grande diferença é que, hoje, o vampiro segue preceitos sociais (mesmo que não pertença a esses círculos) e se torna o príncipe das garotas.

Mesmo que seja um príncipe das trevas… Afinal, o que importa é o momento…

Porém o que se nota mesmo é que, de todos os personagens que se usam desde os tempos mais remotos, o vampiro é o único que passa por atualizações e modificações constantes. Basta ter acesso a uma boa videolocadora e procurar os filmes mais antigos. Alguns apresentam um vampiro magro, orelhudo e pálido, algo entre um cadáver em decomposição e os morcegos que se tornaram sua marca registrada. Já os modernos, além de terem escrúpulos, muitas vezes se tornam alvo de admiração das novas gerações. Afinal, quem nunca sonhou em ser como Edward ou Bill? Com certeza as mulheres de hoje nunca repararam no “tanquinho” que o Drácula possuía. E olha que Bela Lugosi foi um Drácula que meteu medo sem jamais mostrar para as câmeras um único dente canino.

Mesmo o que se conhecia antes sobre o mito desse monstro da noite, não se leva mais em consideração. Até pouco tempo atrás era a figura histórica de Vlad Tepes, senhor da Valáquia, que era apontada como a fonte histórica do Drácula de Bram Stocker e, portanto, a fonte de todos os vampiros. Hoje já há quem afirme que nem mesmo o famigerado castelo Drácula (que, segundo os guias daquela região, hoje parte da Transilvânia) é o correto. Esses pesquisadores colocaram em cheque até mesmo se a denominação Dracula poderia ser usada no caso de Vlad. Essa é uma maneira segura de afirmar que estão querendo tirar de Drácula seu papel de inspiração, o que, com certeza, o mercado turístico nunca vai deixar acontecer…

Mas afinal, se o mito começou com Vlad Tepes, então significa que se trata de uma criação de tempos recentes e, portanto, passível de ser adaptada. Bem, não é assim quando entendemos um pouco sobre toda a mitologia que cerca o vampiro. Em civilizações antigas, como a da Grécia, já havia referências a esses seres da noite, porém com ligeiras (ou melhor, profundas) diferenças. Isso porque há aqueles que são considerados como “vampirólogos”, ou seja, estudiosos de vampiros, que seguem o rastro do mito desde suas origens em histórias onde eram acompanhados de tudo que é ruim e podre (corpos em decomposição, insetos, ratos e névoas animadas) até a forma galante e vegetariana dos vampiros modernos. Ver como tudo mudou e a influência que os diversos veículos de mídia tiveram nessa evolução é algo que deixa qualquer um embasbacado.

E vale também dizer que, se pensar na importância de tal personagem, não seria bem assunto de figuras históricas, não é? Pois bem, se assim fosse não teríamos nomes como o de Voltaire, filósofo francês, que escreveu em sua obra Dicionário Filosófico:

 “Estes vampiros eram corpos que saem das suas campas de noite para sugar o sangue dos vivos, nos seus pescoços ou estômagos, regressando depois aos seus cemitérios”.

Hoje em dia não há tema mais abundante na literatura do que o dos vampiros. Fornecedor de matéria-prima para escritores internacionais como a mãe dos vampiros modernos, Stephanie Meyers, também é porta de entrada para escritores nacionais fazerem sua estréia no gênero, batizado de literatura fantástica. O mais famoso deles, claro, é André Vianco, mas há outros nomes tão famosos quanto e que escrevem com mais freqüência e variedade, como Martha Argel, Giulia Moon, J Modesto, Nelson Magrini e Kizzy Ysatis, entre outros.

Na tv e no cinema o vampiro tem seu lugar garantido em produções luxuosas e que conquistam milhares de fãs, como a série original da HBO True Blood e Diários de um Vampiro (The Vampire Diaries), inspirada numa série de literatura. O cinema, claro, se rendeu à saga criada por Stephanie Meyers e os vampiros que não saem ao Sol porque suas peles brilham hoje são os prediletos do público feminino.

Uma das últimas séries a ganhar o gosto do público foi Moonlight, que conta a história de Mick St. John (Alex O’Loughlin), um detetive particular ao estilo noir, que descreve seus pensamentos enquanto se envolve em casos exóticos. Ele se tornou vampiro em 1952, quando foi mordido por Coraline (Shannyn Sossamon), sua noiva, que o transformou no dia do casamento. Mick a abandonou com raiva e repulsa, mas nunca se viu livre dela, que ainda o ama. Nesta série muito da mitologia é deixada de lado: os vampiros andam temporariamente ao Sol (e não brilham) e não morrem com estacas, apenas ficam paralisados. Apesar do sucesso, a série foi cancelada depois de apenas 16 episódios, mas marcou os fãs, que buscam na Internet e nas chamadas fan fic (histórias criadas por fãs) possíveis continuações.

Quando todos pensam que já houve o suficiente para os seres que se transformam em bebedores de sangue, sempre há uma contribuição que os tira de seu estado letárgico e os coloca de novo sob a luz dos refletores (Sol, não!).
>> CANTO DO ORÁCULO – por Sérgio Pereira Couto

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