“MENTHALOS” TRAZ HISTÓRIA SADOMASOQUISTA PAUTADA POR REFERÊNCIAS

Menthalos. Crédito: capa cedida pelo autor
Capa do álbum nacional, que tem lançamento em São Paulo nesta quinta-feira, na Livraria HQMIX

“Menthalos”, que tem lançamento nesta quinta-feira em São Paulo, marca duas estreias. No campo editorial, representa a entrada da Annablume na área dos álbuns nacionais. Na parte autoral, traz o primeiro roteiro em quadrinhos de Antonio Vicente Seraphim Pietroforte. Professor de Linguística e Semiótica na Universidade de São Paulo, ele construiu neste primeiro trabalho uma narrativa sadomasoquista permeada por referências de várias ordens.

Da Filosofia aos estudos da linguagem, dos quadrinhos à literatura, as citações englobam diferentes campos teóricos e ajudam a moldar a história de 80 páginas. O sadomasoquismo, uma das referências centrais da obra, também já havia sido explorado por ele: organizou em 2008 uma antologia sobre o tema em parceria com Glauco Mattoso.

A tradução visual dos temas ficou a cargo de Jorge Zugliani, que assina como Jozz. Este é o primeiro álbum dele desde “O Circo de Lucca”, publicado em 2008 pela Devir. Nesse intervalo, os quadrinhos de Jozz tem sido publicados no circuito independente.

Na leitura dele, “Menthalos” dialoga com o lado literário de Pietroforte, autor de romances e poemas publicados por diferentes editoras. Nesses livros, as referências também dão o tom. “Acho que o leitor se identifica com uma garota comum em foco e fica mais interessante ver como ela chega a constatações, reflexões e imagens aparentemente absurdas, mas partindo de hábitos simples do meio social”, diz o desenhista.

Paulistano de 45 anos, Pietroforte está na USP desde 2002. Ele foge do estereótipo do professor tradicional da universidade. Destoa nos temas, no visual, no uso de acessórios. O envolvimento com os quadrinhos vem desde criança. Como pesquisador, já abordou o tema em mais de um livro teórico com estudos sobre o processo de leitura das imagens.

A última obra foi lançada no fim do ano passado, também pela Annablume: “Análise Textual da História em Quadrinhos – Uma Abordagem Semiótica da Obra de Luiz Gê”. A Annablume, editora onde ele publicou muitos de seus livros, pediu a ele que pense em outros trabalhos para compor uma coleção de álbuns nacionais.

Página de Menthalos. Crédito: imagem cedida pelo autor

O embrião do selo de quadrinhos da Annablume é um dos temas desta entrevista com Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, feito após sucessivas trocas de e-mail. As referências vistas em “Menthalos” pautam também as respostas. Com erudição, mas sem perder a clareza própria de um docente, ele detalha suas influências para a obra.

Blog – Do que trata o álbum?
Antonio Vicente Seraphim Pietroforte
– Antes de tudo, trata-se de uma novela gráfica sadomasoquista, cuja influência principal é George Pichard, com ênfase na podolatria, influenciada, nesse tópico, por Franco Saudelli e Dennis Cramer. Contudo, como Menthalos e suas companheiras são anti-super-heróis, o diálogo com Stan Lee e a Marvel Comics é evidente. Contudo, não se trata apenas disso, há, em Menthalos, pelo menos uma tematização mítico-religiosa, quase esotérica, nas citações de Cornélios Agrippa e Robert Fludd; uma tematização musical, nas diversas citações de instrumentos musicais e músicos de jazz, em especial, do álbum Song X, de Pat Metheny e Ornette Coleman; e uma tematização metalingüística, quando os quadrinhos falam dos próprios quadrinhos, mas, ainda, quando são citados temas da semiótica, das teorias da linguagem e da lingüística moderna, como frases dos lingüistas mais importantes do século 20, Noam Chomsky e Ferdinand de Saussure – este último aparece como personagem da HQ no capítulo 6. Em síntese, o álbum trata da construção do sentido e da projeção da subjetividade erótica nesse processo.
 
É seu primeiro roteiro de quadrinhos, não? O que o levou a ele?
Gosto de transitar por várias linguagens, por isso, mesmo na área de Letras, estudei Semiótica, que me permite não me concentrar apenas em questões de língua e literatura. Depois de haver escrito romances, contos e poesias – trabalhos em linguagem verbal – resolvi fazer roteiros de HQs e, atualmente, estou envolvido em dois projetos: um com o Cleyton Fernandes, Maurício DeBonis, Marcus Pereira, Rodrigo Procknov e o mestre Willy Correia, todos músicos eruditos, em uma proposta de dar forma musical a poemas da literatura brasileira contemporânea; outro com a poetisa Ana Cristina Joaquim, o fotógrafo Lucas Kiler e a performer Milze K., na elaboração de um livro que combine fotos e poemas sadomasoquistas. 
 
Você tem trabalhos de análises semióticas de histórias em quadrinhos em mais de um livro. Uma pergunta dividida em duas: 1) você sente na USP e fora dela algum olhar torto sobre o tema?; 2) como acha que será visto pelos pares agora que é roteirista de quadrinhos?
Não sinto, não, a universidade está aberta a estudar canções populares, histórias em quadrinhos, cinema, etc; o preconceito contra essas linguagens já acabou faz tempo. Meus pares, meus amigos continuarão me vendo como sempre viram. A universidade é habitada por todos os tipos de pessoas, o professor sisudo e mergulhado apenas nas gramáticas e no cânone literário conservador é apenas um estereótipo. Os poetas Horácio Costa e Jaa Torrano são professores da USP, basta ler os livros de poemas “Homoeróticas e Paulistanas”, do Horácio, e “A Esfera e os Dias”, do Torrano, para confirmar o quanto eles podem ser bem “malucos”.
   
Qual a sua leitura do momento atual dos quadrinhos nas universidades brasileiras?
O que eu noto, às vezes, por parte dos alunos interessados no tema, é certo desconhecimento da história da história em quadrinhos e uma concentração em quadrinhos americanos de super-heróis e mangás. Como é quase só isso que circula nas bancas, fica bem difícil acessar artistas como Winsor Maccay, Goerge Herriman, Andrea Pazienza, Vuillemin; no erotismo, o mercado está bastante restrito ao Milo Manara, falta material do George Pichard e do Franco Saudelli, até mesmo do Guido Crepax, muita coisa está esgotada; no quadrinho nacional, pouca gente se lembra de Jayme Cortez, Júlio Shimamoto, Flávio Colin, Luiz Gê.

Há algum outro projeto semelhante em pauta?
Tenho mais três roteiros de histórias em quadrinhos, estou tentando convencer o Jozz para desenhar o segundo. Além disso, eu e o Jozz estamos coordenando a coleção “Em quadrinhos”, do selo [e]xperimental, da editora Annablume, cujo projeto é editar os novos autores do quadrinho brasileiro.

Queria que aprofundasse sobre do que se trata o selo “Em quadrinhos”. Como funciona na prática a seleção das obras e o que foi conversado com a editora?
Dentro da Annablume, os selos Demônio Negro e [e]xperimental cuidam de divulgar a literatura contemporânea – o selo Demônio Negro edita escritores com mais tempo de carreira, como o Augusto de Campos, o Horácio Costa e o Glauco Mattoso; o selo [e]xperimental, escritores mais recentes – dentro dessa proposta de divulgação da literatura contemporânea, surgiu a idéia, até em função da publicação de Menthalos, de fazer também um selo que editasse quadrinhos da nova geração. O Vanderley Mendonça, responsável pelo Demônio Negro, já foi editor de quadrinhos; o Zé Roberto, editor da Annablume, está dando bastante força para o projeto; o Jozz, que está no selo “[e]m quadrinhos” junto comigo, conhece bastante a nova geração de quadrinistas brasileiros. Por enquanto, temos apenas projetos para o futuro; queremos lançar, pelo menos, um álbum por semestre.
>> BLOG DOS QUADRINHOS – por Paulo Ramos 

Página dupla de Menthalos. Crédito: imagem cedida pelo autor


SERVIÇO
– Lançamento de “Menthalos”.
Quando: nesta quinta-feira (28.01).
Horário: 19h30.
Onde: HQMix Livraria.
Endereço: Praça Roosevelt, 142, centro de São Paulo.

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: