FICÇÃO CIENTÍFICA: O GÊNERO QUE AMEDRONTA ESCRITORES

Muitos autores “mainstream” escrevem livros de FC mas não querem ser apelidados como escritores do género: fogem da FC como o Diabo da cruz.

A atribuição do Nobel da Literatura 2007 a Doris Lessing foi considerada uma vitória para a FC. Entre 1979 e 1983, Lessing publicou a série “Canopus em Argos”, constituída por cinco romances de FC (editados entre nós pela Europa-América). Ao contrário de outros autores, nunca teve problemas em admitir que escrevia FC e chegou a considerar os livros da série os mais importantes na sua carreira.

O crítico americano Harold Bloom considerou, na altura, a atribuição do Nobel a Lessing “pura correcção política” da Academia Sueca. “Apesar de Doris Lessing ter demonstrado qualidades literárias admiráveis no início da sua carreira, as obras que escreveu nos últimos 15 anos são livros de FC de quarta categoria”, disse à “Associated Press”.

Lessing é um caso raro de uma escritora conhecida que nunca teve medo de assumir que escrevia e gostava de FC. O mesmo não acontece com Margaret Atwood. A autora de “Órix e Crex -O Último Homem” (ed. Asa) classifi ca os seus livros como “ficção especulativa” ou “romance de aventura”, mas nunca como FC.

“Atwood acha que existe uma certa abjecção a pairar sobre o título de FC. Pode ser considerado uma traição, mas consigo entendê-la perfeitamente”, disse o escritor de FC Brian Aldiss ao “Times Online”.

Em 1975, Kingsley Amis, Arthur C. Clarke e Brian Aldiss preparavamse para atribuir o prémio de melhor romance de FC do ano a Salman Rushdie, pelo seu primeiro livro “Grimus”, quando no último minuto os editores resolveram retirar a obra do concurso. “Se Salman Rushdie tivesse ganho o prémio seria classifi cado como escritor de FC e nunca mais ninguém voltaria a ouvir falar dele”, explicou na altura Brian Aldiss.

Nas livrarias, não se encontra o “1984”, de George Orwell, ou “O Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, ao lado de obras de Philip K. Dick ou Arthur C. Clarke, apesar de todos pertencerem ao mesmo género. O livro de Orwell é, na edição da Antígona, caracterizado como “sátira”. “O estigma de apelidar um livro de FC de um autor consagrado é tão grande, que a maior parte dos críticos chega mesmo a utilizar palavras como ‘parábola’ ou ‘fábula'”, escreve Michael Chabon, crítico do “The New York Review of Books”, numa recensão a “A Estrada” de Cormac McCarthy -apontado por alguns críticos como um romance de FC. “Nos últimos anos, muitos escritores ‘mainstream’ têm escrito FC, embora não sejam classifi cados como autores do género”, diz ao Ípsilon Felicity Mellor, professora no Imperial College, em Londres, autora de textos publicados nas revistas “Social Studies of Science” e “Public Understanding of Science.” “Os editores sabem que ao classificarem um livro de FC vão limitar a sua audiência”, acrescenta. Existem cada vez mais livros que misturam FC e outros géneros.

A trilogia “Noughts and Crosses”, de Malorie Blackman, “Crónica do Pássaro de Corda” de Haruki Murakami ou “Nunca Me Deixes” de Kazuo Ishiguro são alguns que têm FC, para além de outros géneros. “Isto não quer dizer que os géneros literários tenham deixado de existir e de ser explorados nas suas especificidades. Eles, inclusive, ainda norteiam toda a lógica taxonómica do mercado editorial, os estudos académicos e as normas dos concursos literários” acrescenta ao Ípsilon a escritora brasileira Maria Esther Maciel, que lecionou a cadeira “Seminários sobre Literatura Brasileira e outras literaturas: escritas híbridas na literatura contemporânea”, em 2006, na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil
>> ÍPSILON – por Eduarda Sousa

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