“O MESTRE E MARGARIDA”, DE MIKHAIL BULGÁKOV

sábado | 27 | fevereiro | 2010

No início dos anos 1980, os moradores de um edifício da rua Sadôvaia, em Moscou, começaram a notar estranhas intervenções na decoração. De uma noite para a outra, os corredores ganharam grafites que, pouco a pouco, se espalharam pelas paredes. Entre as inscrições, destacavam-se os muitos desenhos de um enorme gato preto, em poses variadas: bebendo vodca de uma tacinha, jogando xadrez, incendiando uma casa. O tal gato é um dos personagens de “O mestre e Margarida”, (Alfaguara, 456 pgs. R$ 49,90), e os grafites são obra de leitores do livro de Mikhail Bulgákov (1891-1940) que faziam peregrinação ao prédio onde o escritor viveu (e também um dos cenários do romance).

As manifestações dos leitores fizeram com que o antigo apartamento de Bulgákov fosse transformado num museu dedicado ao escritor. Mais do que isso, os grafites — uma mistura de citações do texto, elogios a Bulgákov e discussões apaixonadas sobre todo tipo de assunto relacionado ao livro — demonstram o carinho do público pelo romance e pelo autor.

Livro só foi publicado duas décadas após a morte do autor
Dramaturgo de sucesso na Moscou dos anos 1920, Bulgákov começou a trabalhar no romance em 1928, mas, doze anos depois, morreu sem ver a obra publicada. Tanto tempo se deve, por um lado, à complexidade da trama de “O mestre e Margarida”, que narra a chegada do diabo e sua comitiva à Moscou stalinista. Lá, os visitantes se envolvem com o mestre, um escritor perseguido pelo governo e pelos intelectuais por ter publicado um romance sobre os últimos dias da vida de Jesus. A caracterização da comitiva satânica e a riqueza das descrições da Jerusalém onde se passa a obra do mestre indicam a profundidade da pesquisa feita pelo autor.

Mas a demora foi provocada também pelo temor da reação que a obra poderia causar em tempos de repressão. Censurado muitas vezes nos palcos por conta de suas sátiras políticas, o autor sabia do potencial perturbador de um romance sobre figuras religiosas numa sociedade onde o ateísmo era imposto por lei (um impasse satirizado já na primeira cena do livro, na qual o diabo tenta provar a dois literatos ateus que Deus existe). Bulgákov escrevia praticamente em segredo e, ao morrer, apenas sua mulher e um pequeno círculo de amigos sabiam da existência do livro. A obra só foi publicada, enfim, em 1966, encartada em fascículos numa revista literária, e logo encontrou lugar entre os grandes romances do século XX.

Há muitas formas de ler “O mestre e Margarida”. Antes de tudo, é uma comédia arrebatadora que condensa todo o talento do Bulgákov dramaturgo: ler o livro é como assistir a uma produção delirante, com cenários detalhistas (o prédio da rua Sadôvaia, a sede da associação de literatos de Moscou, o subsolo onde vive o mestre), música incidental abundante (como os trechos de óperas e as várias versões de “Aleluia” que irrompem nos pontos mais caóticos da trama) e diálogos afiados.

dramaturgo também se nota na construção cuidadosa dos personagens, muitos dos quais entraram para a galeria da cultura popular russa. O diabo apresenta-se como Woland, historiador e especialista em magia negra, um distinto senhor com um olho verde e outro negro, que jamais levanta a voz mas deixa uma impressão aterrorizante em todos que cruzam com ele (“Numa palavra, era estrangeiro”). Woland é escoltado por Behemoth, o gato preto que anda sobre duas patas, adora vodca, e tem inclinações piromaníacas; Korôviev, o ardiloso negociador do grupo; Azazello, um ruivo atarracado de ombros largos e feiúra indescritível; e Hella, “uma jovem totalmente nua, ruiva e com ardentes olhos fosforescentes”.

As peripécias do grupo em Moscou são o centro da primeira metade do livro. Em poucas horas, eles pro$a decapitação de um distinto poeta amigo do regime, ocupam o apartamento dele e agendam uma série de apresentações no Teatro de Variedades de Moscou (anunciadas como “Sessões de Magia Negra e sua Revelação Total”). Nessas cenas, brilha a inteligência satírica de Bulgákov: ironicamente, o diabo e sua comitiva surgem como uma força “moralizadora” em Moscou, expondo as contradições e injustiças do regime stalinista e da sociedade soviética. O ponto alto da primeira parte é a apresentação no Teatro de Variedades, que começa com outra decapitação e termina com uma chuva de dinheiro sobre a plateia e farta distribuição de roupas e joias para as mulheres. Tudo ilusão, como o diabo gosta — a “revelação total” prometida expõe não os segredos da magia negra, mas a hipocrisia e a ganância do público.

A segunda metade de “O mestre e Margarida” se concentra nos personagens-título, mencionados discretamente na primeira parte. O mestre é um escritor de meia-idade, autor de um romance protagonizado por Pôncio Pilatos, o procurador romano que, nos evangelhos, nada faz para impedir a crucificação de Jesus. Margarida, sua amante, o encoraja a publicar um trecho da obra, que desperta reações furiosas de intelectuais alinhados ao regime, por mostrar figuras religiosas como personagens históricos.

Abatido com a perseguição dos críticos, o mestre queima o manuscrito do romance e acaba num manicômio, desiludido com a literatura. Enquanto isso, Margarida tenta resgatá-lo, e para isso alia-se a Woland, numa sequência de cenas que contém algumas das passagens mais memoráveis do livro (como aquela em que Margarida sobrevoa Moscou de vassoura, à noite, completamente nua, e o baile de gala no qual ela serve de acompanhante para o diabo).

Romance dentro do romance faz reflexão sobre a bondade
O texto do romance do mestre surge em vários pontos de “O mestre e Margarida”, criando um contraponto curioso: enquanto a Moscou do século XX é descrita como um cenário mitológico por onde circulam bruxas e demônios, a Jerusalém dos tempos de Jesus é retratada com extremo rigor histórico (reforçado pela decisão do autor de usar a grafia original dos nomes — Yerushalaim, Yeshua ha-Notzri). Essa estratégia permite que Bulgákov desloque suas críticas ao regime: além da comparação implícita entre Stalin e César (cujos nomes nunca são mencionados), é em Jerusalém que aparecem as torturas, condenações sumárias e complôs políticos que eram rotina entre os soviéticos. Já na Moscou “mitológica” onde se situa a maior parte da trama, as prisões de inocentes passam por desaparecimentos misteriosos, atos de bruxaria.

É também no romance do mestre que Bulgákov introduz um dos temas centrais do livro, sugerido nas conversas entre Pilatos e Jesus sobre a natureza da bondade. Essa reflexão é elaborada ao longo de toda a obra, em especial num discurso de Woland no desfecho da trama, quando Bulgákov, num último ato de ironia, faz Jesus e o diabo expressarem, em momentos distintos, uma mesma visão: não há Bem ou Mal absoluto, e a covardia é a pior das fraquezas humanas.
>> O GLOBO – por Guilherme Freitas

Leia o primeiro capítulo de “O mestre e Margarida” clicando aqui.

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FICÇÃO CIENTÍFICA CLÁSSICA E A INTERNET

sábado | 27 | fevereiro | 2010

A ficção científica clássica, sobretudo nos anos 60 e 70, caracterizou-se principalmente na tentativa de antecipações tecnológicas, normalmente baseadas na projeção da ciência contemporânea. Dessa forma, devido à guerra fria russo-americana, a literatura de ambos os lados da cortina de ferro se baseou grandemente na corrida especial. Os computadores também aparecem como enormes máquinas, mesmo em Jornada nas Estrelas, na série clássica. Computadores pequenos e portáteis só apareceram quando já existiam pelo menos os micros Apple II.

Há algumas exceções.

Um conto interessante de Isaac Asimov, escrito em 1959, prevê em seu pano de fundo os microcomputadores (chamados de Microvac, uma variação do nome Univac, o primeiro computador, que surgiu em 1948). O conto chama-se “A Ultima Pergunta” e está presente na coletânea Nove Amanhãs. A temática básica é a entropia versus evolução tanto do homem quanto da máquina (que se torna cada vez menor e cada vez mais onipresente). Graças a este conto, Isaac Asimov, cerca de quinze anos depois, ganhou de presente da Apple um computador. Ele disse em um artigo de então que não via diferença entre escrever à máquina e corrigir a mão e usar o computador. Quem viu a diferença e adorou foi seu editor, que não tinha mais que decifrar longos trechos de garranchos e rabiscos.

1984, de George Orwell, de 1948, pode ser visto como um contraponto ao otimismo de Asimov. As tele-telas podem ser vistas como as atuais web-cans e a perda de privacidade num mundo cada vez mais voyer. Uma antecipação da Internet? Talvez. Porém fica ausente o caráter libertário que a rede propiciou ao mundo, já que a tele-tela era um objeto que não permitia nenhuma interação a não ser do Estado sobre o indivíduo.

Simulacron 3, de Daniel F. Galouye. Escrito em 1963, e que inspirou o filme O 13º Andar. O livro lembra Matrix (que provavelmente bebeu nesta fonte) no que diz respeito a uma sociedade baseada em simulações onde o uso de avatares (ele não usa este termo) em vários níveis é uma constante.

When Harlie Was One, de David Gerrold, de 1972 (com o infeliz título em português O Diabólico Cérebro Eletrônico). Neste livro, um computador de grande porte com inteligência artificial decide construir seu sucessor. O importante neste livro é que aparece o conceito de vírus e de vacina em computadores conectados em rede. 

Nos anos 80 surge o movimento cyberpunk, onde a tecnologia digital é o grande pano de fundo.

O Jogo do Exterminador, de Orson Scott Gard, 1982. Neste livro o tema está muito ligado aos games de ação interativos, onde o real e virtual se misturam. Há também referências um pouco mais explícitas à Internet (que é chamada na péssima tradução brasileira de “as redes”), mas sem muitos arroubos imaginativos do autor. A Internet se resume a grupos de discussão com mensagens de texto.

Neuromancer, de Willian Gibson., coincidentemente de 1984, deu origem aos termos cyberpunk e cyberspaço, que extrapolaram o universo literário. O cyberspaço, como descrito no romance, é um local num espaço virtual onde está toda a informação do planeta, acessível por quem ultrapassar as barreiras de segurança. Qualquer semelhança entre o cyberspaço e a Internet não é mera coincidência.

Islands in the net, de Bruce Stedrling, de 1988 (no Brasil com o péssimo título de Piratas de Dados).Embora Sterling seja um dos ideólogos do movimento cyberpunk, muitos críticos de FC consideram este romance como pós-cyberpunk, pois aponta justamente para as contradições de um mundo supostamente globalizado e interligado em sua totalidade (por isso as ilhas da rede).

Por que tivemos que esperar até os anos oitenta pra alguém ousar especular obre computadores em uma rede mundial?

Creio que basicamente é muito mais fácil imaginar evoluções de astronaves e robôs do que imaginar de que forma um computador evolui (normalmente só colocamos mais velocidade e inteligência). E que aventura há em ficar digitando num teclado? Melhor colocar a inteligência num robô, que pelo menos caminha com as próprias pernas.

E o espaço (a fronteira final…) é basicamente infinito. Se o homem já chegou à Lua, ir a Marte ou Vênus continua sendo um desafio. E ainda há as estrelas… E por que vou colocar avatares se posso colocar Luck Skywalker lutando ao vivo com Darth Vader?
>> PAI NERD – por Alvaro A. L. Domingues


“CONAN”: NOVIDADES DO NOVO FLME

sábado | 27 | fevereiro | 2010

Sean Hood foi contratado para reescrever o roteiro do remake de Conan, nova adaptação do bárbaro para as telonas. O primeiro roteiro dessa produção foi ito por Thomas Dean Donnelly e Joshua Oppenheimer e reescrito por Marcus Nispel, que será o diretor da película.

Apesar da notícia da contratação de Hood só ter sido divulgada agora, ainda não se sabe quanto tempo ele já vem trabalhando no texto. Como as filmagens estão marcadas para começar em algumas semanas, é de se esperar que os trabalhos no script já estejam no final.

Em relação ao elenco, duas novidades foram reveladas. A primeira é que Mickey Rourke está em negociações finais e aparentemente fará mesmo o papel de pai de Conan. Já o lutador de vale-tudo Bob Sapp será Ukafa, líder da tribo Kushite e braço direito de Khalar Singh, o vilão do filme.

Conan tem direção de Marcus Nispel. Jason Momoa vive Conan, enquanto Leo Howard interpreta a versão jovem do personagem. A aventura recontará a origem de Conan e chegará aos cinemas em 2011.

Conan foi criado por Robert E. Howard em 1932. Inicialmente, o personagem aparecia em contos publicados na revista Weird Tales. No começo dos anos 70, a Marvel Comics começou a publicar a versão em quadrinhos do personagem, em séries mensais e minisséries que duraram até 2004, quando os direitos foram adquiridos pela Dark Horse, que segue com o herói até hoje.

O personagem também ganhou duas adaptações para o cinema, estreladas por Arnold Schwarzenegger; além de uma série para TV com atores e outra animada. Atualmente suas histórias são publicadas no Brasil pela Mythos Editora.

Conan nasceu na Ciméria, em um período de tempo conhecido como Era Hiboriana, uma época pré-glacial anterior ao registro da história conhecida. O bárbaro foi escravo, saqueador, pirata, mercenário, tendo enfrentado todo tipo de criaturas, feiticeiros, vampiros, demônios, lobisomens e até mesmo seres de outras dimensões. Por fim, Conan se torna o rei da Aquilônia, uma das mais altivas e poderosas nações hiborianas, posto que, já em idade avançada, deixa para seu filho, voltando a se aventurar mundo afora.
>> HQ MANIACS – por Leandro Damasceno


UM ENCONTRO DA SÉTIMA ARTE COM A NONA

sexta-feira | 26 | fevereiro | 2010
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Dez anos depois, documentário sobre Will Eisner continua inédito em DVD no Brasil. Filmes sobre Henfil, Ziraldo e Jerry Robinson também. Achei melhor colocar aqui a matéria mais completa, não a editada que saiu no Caderno B de segunda-feira. Aproveitem por que a Marisa (abaixo, filmando na Cartoonist and Writers Sindicate, no ano 2000) tem muito a dizer.

Marisa no sindicato EUA 2000

ERA UMA VEZ UMA FÃ DE QUADRINHOS
Quando era mais nova, a diretora Marisa Furtado colecionava quadrinhos, gostava de Will Eisner, do Demolidor do Frank Miller. E sua maior colaboração para os fãs na nona arte são sete episódios independentes sobre quatro super-heróis da vida real. Mas como começou essa história?

—- Como eu tinha fluência em línguas estrangeiras, eu fui convidada para montar o receptivo internacional da 1ª Bienal Internacional dos Quadrinhos no Rio, em 1991. Como o Will Eisner ficaria poucos dias aqui e tinha várias atividades programadas, fiquei de cicerone dele. Dei uma atenção exclusiva e tanto ele quanto a esposa Ann se apaixonaram por mim. Começou ali uma amizade que durou até a sua morte, em 2005.

Numa viagem aos Estados Unidos, Marisa foi à casa de Eisner e conheceu Dennis Kitchen, seu editor e agente. Já naquela ocasião, o Eisner Award era considerado o Oscar dos quadrinhos americanos. Na festa de despedida, quando retornaria ao Brasil, o editor da Kitchen Sink Press lhe presenteou com uma caixa repleta de quadrinhos.

—— Na época da segunda bienal, o contato com os artistas foi ainda maior. O francês Jano, por exemplo, ficou uma semana na minha casa. Tanto é que eu presenciei aqueles desenhos do livro sobre o Rio de Janeiro, da série Cidades Ilustradas, que depois virou o documentário O Rio de Jano. Ele desenhou o meu fusca, deitou na minha rede e foi comigo ao Maracanã. Também foi em 92 que eu recepcionei o Jerry Robinson e o Art Spiegelman.

desenho de Will Eisner para Marisa no Rio 1991

WILL EISNER EM BELO HORIZONTE
A iniciação de Marisa como documentarista de quadrinhos aconteceu quase por acaso. Um jornalista paulista estava desenvolvendo um programa sobre HQs e precisava de alguém para apresentar. Foi quando ela recebeu o convite para o aniversário de 80 anos de Will Eisner em Boca Raton, na Flórida, que renderia a primeira reportagem.

Em 1997, durante as comemorações pelo centenário de Belo Horizonte, Will Eisner anunciou que viria ao Brasil novamente. Era a melhor oportunidade para Marisa fazer seu documentário, o que só foi possível com o apoio de uma produtora local de padres salesianos. Quando ela foi gravar a entrevista, aconteceu algo muito engraçado:

—- Como a gente costuma usar fundo azul, o chroma key, eu pedi ao Will que não usasse terno azul, e sim marrom ou bege. Na hora, ele me apareceu justamente de azul e a esposa dele disse que ele só tinha terno dessa cor! – relembra a bem humorada diretora. – Tínhamos tanta intimidade que ele me contou quem, numa madrugada, estava tão distraído que bebeu tinta nanquim pensando que era café.

Depois de preparar o programa piloto, Marisa rodou por todas as emissoras de São Paulo para negociar a exibição. Encontrou as portas abertas na TV SENAC. Batizou o documentário de Profissão Cartunista por que não existe a palavra quadrinista em inglês, apenas cartoonist. O lançamento aconteceu em 1999 no Rio e São Paulo com a presença de Will Eisner. Na capital paulista houve também uma exposição.

A VOZ DE HENFIL EM FILME PÓSTUMO
O segundo documentário foi sobre o cartunista Jerry Robinson, criador do Robin, da Mulher Gato e do Coringa. O filme ganhou o Prêmio HQ Mix em 2001. Com equipe pronta, Marisa começou a pensar nos próximos biografados. Foi quando encontrou Ivan Cosenza, filho de Henfil, vendendo camisetas numa feira de moda que acontecia no bairro do Jardim Botânico.

—- Ele guardava o acervo do pai no quarto da empregada. Tudo estava se deteriorando e não havia nada digitalizado. Então nós o contratamos como digitalizador das obras, o que depois acabou gerando a venda das tiras para um jornal. Interessante que, por ser hemofílico, o Henfil já tinha uma preocupação em catalogar os originais e só mandava cópias de seus desenhos para os clientes.

Desta vez, Marisa conseguiu no antigo prédio do Jornal do Brasil, na área portuária, uma relíquia que valorizou ainda mais o trabalho:

— Descobri uma fita k7 de uma entrevista para a rádio JB aonde o próprio Henfil ia contando a sua trajetória profissional. Usei a voz dele como guia do filme, que também ganhou o HQ Mix em 2002.

doc Henfil por Marisa Furtado

Por ser amiga do Ziraldo, a diretora decidiu que ele seria o próximo da fila. Mas foi um parto complicado, que exigiu sacrifícios.

— Me dediquei um ano ao projeto. Roteirizei, editei, dirigi e perdi meu bebê nesse mesmo período. Como na experiência anterior, pedi ao Ziraldo que ele mesmo fosse o narrador.

Mais uma bola dentro. O filme foi selecionado no Festival do Rio 2004, com boa repercussão. Tempos depois, em janeiro de 2005, o amigo Will Eisner faleceu em detrimento de erros médicos durante uma cirurgia do coração.

— Quando ele morreu, decidi tirar meu dinheiro da poupança e banquei a versão em inglês do documentário, que foi lançado em DVD nos EUA e Canadá. Está vendendo muito bem, inclusive em streaming media.

doc ziraldo de marisa furtado

 

pre-estreia do doc do ziraldo de marisa furtado cine sesc sp

 

capa doc will eisner de marisa furtado

SUCESSO NO EXTERIOR, DESCASO NO BRASIL
O maior absurdo é que, passados vários anos, nenhum dos documentários produzidos pela diretora está à venda no Brasil. Não por falta de vontade.

— Já fui a todas as distribuidoras. Eu levei a série inteira para a Rio Filmes e foi devolvida. Eles disseram que precisa vender um mínimo e que acham inviável para estes produtos.

Por hora, o espectador tem a oportunidade de assistir a última biografia da série nesta quarta, às 20h, na TV Brasil. O próximo é sobre a vida e a obra de Jerry Robinson, um dos expoentes da Era de Ouro dos quadrinhos nos Estados Unidos. No filme, entrevistados como Stan Lee, Jules Pfifer, Joe Kubert, Carmine Infantino, Chico Caruso, Ique, entre outros, falam sobre o seu trabalho. Curiosamente, será uma quarta-feira de cinzas.

— A emissora licenciou para duas exibições por ano, então o que as pessoas podem fazer é ligar pra lá e pedir que passe mais vezes ou que façam os DVDs. Enquanto isso, estou me dedicando a uma série sobre amamentação, área com grande desinformação no Brasil, onde também haverá participação de um ou dois cartunistas.
>> JORNAL DO BRASIL – por Pedro de Luna

doc jerry robinson por marisa furtado


METRÓPOLIS 2010: 25 MINUTOS DE CENAS ADICIONAIS

quinta-feira | 25 | fevereiro | 2010

Oitenta e dois anos após sua estreia, em 1927, no Ufa Palast em Berlim, Metropolis, de Fritz Lang, re-estreia no Friedrichstadtpalast, na mesma cidade, em 12 de fevereiro de 2010, às 20h45, com cópia restaurada pela Fundação Friedrich Wilhelm Murnau. Por ocasião da Berlinale 2010, a sessão contou com música original interpretada pela Orquestra Sinfônica da Rádio de Berlim e foi difundida em streaming pelo link http://digi.to/9nUW7. Vinte e cinco minutos de cenas adicionais – como a viagem de Georgy pela cidade, a visita de Freder e do “Magro” (Slim) a Josaphat, imagens hedonistas dos jardins e do Yoshiwara e o episódio em que explode o ciúme entre Joh Fredersen e Rothwang (http://www.arte.tv/fr/semaine/244,broadcastingNum=1080709,day=7,week=6, year=2010.html).  – ajudam a compreender melhor a intriga desse filme-ícone da modernidade, o primeiro inscrito no registro da memória do mundo da Unesco.

Em seguida à avant-première mondiale de Metropolis, também foi exibido em streaming, às 23h15 do dia 12, Voyage à Metropolis, documentário inédito sobre a superprodução da UFA e a aventura de sua última restauração. O documentário será re-exibido pelo canal ARTE francês no dia 22 de fevereiro, 1h45 (horário de Paris)  (http://www.fantasy.fr/articles/view/12394 e http://www.arte.tv/fr/programmes/242,day=3,dayPeriod=night,week=8,year=2010.html).

Quem governa Metropolis é o capitalista Joh Fredersen (Alfred Abel). Seu filho Freder (Gustav Fröhlich) passa boa parte do tempo praticando esportes ou divertindo-se no Jardim dos Prazeres com outros de sua classe. Numa ocasião em que Maria (Brigitte Helm), líder dos operários, clandestinamente leva crianças ao Jardim, Freder a conhece e apaixona-se por ela. A partir desse momento, resolve descer aos subterrâneos em busca de Maria. Indignado ao ver como vive a classe operária, Freder entra em choque com seu pai, exigindo dele uma nova postura em relação aos “homens que ergueram Metropolis”.

Ciente dos planos de revolta operária, descontente com a atitude do filho e com a escalada de Maria como líder dos trabalhadores, Joh Fredersen procura o cientista Rothwang (Rudolf Klein-Rogge) para encomendar um plano que desmantelasse a organização dos operários em torno de sua líder. O cientista propõe a utilização de sua mais recente criação, um robô, o operário perfeito1, o qual poderia tornar-se réplica perfeita de Maria.

Finalmente, os trabalhadores percebem que estavam sendo manipulados por uma falsa Maria e liquidam o robô numa fogueira. Uma vez mais Rothwang rapta Maria. Freder o persegue e o enfrenta no telhado da catedral, de onde o cientista cai e acaba morto. Por intermédio de Freder e Maria, Joh Fredersen aperta a mão do contramestre operário, no que viria a ser um acerto de paz entre as classes dirigente e trabalhadora. Acerto esse somente possível pela entrada do “coração” como o mediador entre “a mente que planeja” e “as mãos que trabalham”.

620.000 metros de negativos, 1.300.000 metros de filme positivo; 3.500 pares de sapatos; 200.000 marcos em costumes; 400.000 marcos em cenários e energia elétrica; 1.600.000 marcos em cachês para 36.000 figurantes; 1.100 homens carecas; 100 negros; 25 chineses; 750 crianças; 750 atores para pequenos papéis; 8 atores principais. 310 dias e 60 noites de filmagem, de 22 de maio de 1925 até 30 de outubro de 1926. Esses são os números de Metropolis, a superprodução alemã dirigida por Fritz Lang e produzida pela UFA (Universum Film Aktiengeselschaft).

Um adjetivo que pode definir sinteticamente o épico futurista é “monumental”. Em Metropolis, o cineasta/arquiteto Fritz Lang realiza impressionantes experimentações estéticas, em especial ao nível das composições de massas, explorando intensamente os artifícios do ornamento numa constante busca do monumental. Apesar de ter sido um grande sucesso de público,Metropolis trouxe sérios problemas financeiros à UFA. A superprodução alemã exigiu grandes investimentos, os quais não foram totalmente revertidos. De qualquer forma, o filme mostrou-se um alarmante sinal de vitalidade da Alemanha – algo que os franceses resumiram como uma mistura de Wagner e Krupp2.


Com o passar do tempo e a conseqüente evolução histórica, Metropolis foi sendo objeto de estudos mais aprofundados. Alguns aspectos importantes que chamaram a atenção de teóricos do cinema, e que ainda hoje são foco de discussão, dizem respeito às prováveis mensagens implícitas do filme, bem como à interpretação de seu desfecho. Sigfried Kracauer, em seu De Caligari a Hitler – Uma história psicológica do cinema alemão (1988), elege Metropolis como um dos filmes representativos do “período de estabilidade”, no qual a “paralisada mente coletiva parecia falar durante o sono com uma clareza pouco comum”3. Ainda segundo Kracauer, em Metropolis “o que é importante não é tanto o enredo, mas a preponderância de aspectos superficiais em seu desenvolvimento”. Dessa forma, a provável (e definitiva) mensagem do filme estaria diluída ao longo de seu desenvolvimento, e não exclusivamente em seu desfecho, demasiado ambíguo. O autor também chama a atenção para o detalhamento técnico presente no filme, característico do “período de estabilidade”: “aventuras emocionantes e fantasias técnicas sintomáticas do então vigente culto à máquina”4, além de uma intensa preocupação com a composição de padrões decorativos das massas, o que torna Metropolis uma genuína amostra de triunfo do ornamento:

(…) tudo ilustra a inclinação de Lang por ornamentação pomposa. Em Os Nibelungos, seu estilo decorativo foi rico em significado; em Metropolis, a decoração não apenas aparece como um fim em si mesmo, mas até desfigura alguns pontos colocados pelo enredo5.

Kracauer segue observando também que “Metropolis foi rico em conteúdo subterrâneo que, como o contrabando, havia cruzado as fronteiras da consciência sem ser questionado”6.Com relação à cena final, em que, por intermédio de Maria, o industrial Joh Fredersen aperta a mão do contramestre selando o acordo de paz entre o labor e o capital, o autor alemão chama a atenção para o sentido desse desfecho conciliatório, o qual, de forma alguma, resulta numa conquista da classe trabalhadora, mas sim na consolidação de um poder totalitário do industrial: “Na realidade, o pedido de Maria para que o coração medeie entre as mãos e o cérebro poderia muito bem ter sido formulado por Goebbels. Ele também apelou para o coração – no interesse da propaganda totalitária”7.

Para a crítica alemã Lotte H. Eisner, Metropolis oscilava entre o patético e o monumental. Eisner associava as passagens ingênuas de Metropolis – especialmente o desfecho da história – a uma forte interferência da UFA e da mulher de Lang, Thea von Harbou, roteirista do filme e responsável pelo suposto “sentimentalismo barato” presente na narrativa. Segundo Lotte Eisner, o discurso principal de Metropolis não se concentra em seu desfecho, mas no decorrer da ação, a qual baseia-se no conflito entre o mundo mágico ou oculto (Rothwang – Rudolf Klein-Rogge) e o mundo moderno ou da tecnologia (J.Fredersen – Alfred Abel).

Metropolis criou uma estética própria e marcou para sempre a cinematografia de ficção científica, influenciando inúmeras realizações posteriores. Segundo Graeme Turner, em Cinema e Prática Social (1997), “a direção de arte e o cenário de Metropolis ainda impressionam. Sessenta anos depois, Blade Runner, de Ridley Scott, deve muito ao filme de Fritz Lang”8.

Até então, o original de Metropolis, com aproximadamente 170 min. de duração e 4189m, era dado como perdido. As versões mais conhecidas eram a destinada aos EUA, abreviada em 3170m e 120 min., as versões alemãs de 1927 e 1928, a alemã oriental adaptada para TV e, mais recentemente, as versões da Eureka Video (1992, 139 min.), Kino (1989, 90 min.), e Moroder (1984, 83 min.), elaborada por Giorgio Moroder em 1984, colorizada e com trilha sonora da banda inglesa Queen. A versão norte-americana ignora as seqüências envolvendo a personagem Hel, mãe de Freder e figura que daria origem ao robô de Rothwang. A versão mais conhecida no Brasil, com cerca de 90 min., da distribuidora Continental, também não contém as passagens do estádio ou da personagem Hel. Mais recentemente, em 1994, a Cinemateca de Munique havia concluído a restauração de uma das versões mais completas de Metropolis, com 3580m e 143 min, num projeto capitaneado por Enno Patalas9. Essa versão reúne algumas partes de filme cedidas pelo National Film Archive, de Londres, e por um colecionador australiano. Também apresenta adaptação de trechos da trilha sonora original. Em 2010, Metropolis finalmente ganha cópia restaurada ainda mais próxima do original dirigido por Fritz Lang, graças ao achado de partes do filme em Buenos Aires. Certamente, cinéfilos e pesquisadores do mundo inteiro aguardam ansiosos o lançamento comercial em DVD dessa última versão de Metropolis, talvez a definitiva.

Referências:
CASAS, Quim. Fritz Lang. Madrid: Cátedra, 1998.
EISNER, Lotte H. A Tela Demoníaca – As Influências de Max Reinhardt e do Expressionismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
KRACAUER, Sigfried. De Caligari a Hitler: Uma história psicológica do cinema alemão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.
TURNER, Graeme. Cinema como Prática Social. São Paulo: Summus, 1997.

1 Nas versões de circulação comercial no Brasil, as passagens relativas à personagem Hel, mãe de Freder, esposa de J. Fredersen e amada de Rothwang, foram suprimidas (trata-se da versão originariamente destinada aos EUA), o que enfraquece a conotação do robô com uma recriação da falecida Hel, objeto de fascínio do cientista obcecado. 

2 KRACAUER, Sigfried. De Caligari a Hitler, p. 176. 
3 Op.cit., p. 190. 
4 Op. cit., p. 175. 
5 Op. cit., p. 175. 
6 Op. cit., p. 190. 
7 Op.cit.., p. 191. 
8 TURNER, Graeme. Cinema como Prática Social, p. 147. 
9 Cf. CASAS, Quim, Fritz Lang, p. 108-9. 
>> CRONÓPIOS – por Alfredo Suppia

“LUNAR” É SOPRO DE AR FRESCO NA FICÇÃO CIENTÍFICA

quinta-feira | 25 | fevereiro | 2010

O filme de estreia do diretor Duncan Jones, Lunar, tem chamado atenção dos cinéfilos em todos os lugares em que foi exibido e colecionado indicações e prêmios importantes como o BAFTA de Melhor Revelação.

Baseado e uma história do próprio Duncan, o filme mostra em um futuro próximo, um homem chamado Sam Bell (Sam Rockwell), às vésperas de completar uma temporada de três anos em uma base na Lua, trabalhando para uma empresa, onde opera grandes máquinas que extraem um tipo de gás da amosfera lunar, que por sua vez é levado até a Terra, onde é utilizado como fonte de energia.

A comunicação com a Terra é mínima e por isso, a única companhia de Sam é a voz humana do computador que controla a base chamado Gerty (Kevin Spacey) e Sam já conta as horas para reunir-se com sua família na Terra quando um acidente com uma das máquinas de captação do combustível o deixa desacordado.

O computador o salva, mas dali em diante, o astronauta passa a achar que está sofrendo alucinações quando encontra com uma cópia exata dele mesmo trabalhando com ele na base.

Com uma boa dose de mistério e estranheza, a verdade vai sendo revelada aos poucos ao público que acompanha com aflição suas descobertas.

No Brasil, Lunar saiu direto em DVD, sem passar pelos cinemas, o que é uma pena, já que para os espectadores esta prática costuma ser um indício de que se trata de uma obra menor, sem importância e desta forma, o filme acaba ignorado pelo grande público.

Mas vale conferir esta perturbadora obra que faz referência visual a clássicos do gênero como “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, “Solaris” e “Alien” e estilosamente se recusa a entregar nas mãos do espectador qualquer solução óbvia.

Uma curiosidade interessante é que o diretor Duncan Jones é filho de David Bowie um artista que já encarnou nas telas e em seus shows diversos alienígenas.
>> PLANETA CINEMA – por Drika


“MISFITS”: O CAMINHO BRITÂNICO DAS SÉRIES

quarta-feira | 24 | fevereiro | 2010

A formula de super-heróis e super poderes é muito batida hoje em dia, tanto nos quadrinhos como na TV e nos filmes. Surpreendetemente, de vez em quando alguém faz alguma coisa diferente, seja com filmes baseados em HQs como Kick-Ass, ou em uma visão menos tradicional dos mutantes da Marvel, com X-Statix. Estes dois exemplos podem ajudar a entender o conceito da série britanica: Misfits.
 
Um grupo de jovens – não tão rebeldes, são na verdade um retrato da juventude transviada da classe média mundial – que estão sendo obrigados a participar do serviço comuntário, dada pequenas infrações que cometeram, se veem carregados com algum tipo de ”super poder” [spoiler](que nada mais é do que uma de suas características mais marcantes significativamente ampliada)[/spoiler] depois de uma estranha tempestade que passou pela cidade.

BOOM!

Afirmo, já de antemão, que não estamos de frente com mais um Heroes – ou Mutantes (ou Caminhos do Coração).
Misfits é muito mais profundo e mais pesado, mostra uma racionalidade em seus personagens, que justifica suas ações humanas e seus poderes, e ainda é excelentíssimamente bem editada e dirigida, trazendo um quê quase surreal, adicione então a isso o típico sarcasmo britânico mais seu humor negro tanto no visual quanto no roteiro e está fechado o porquê você deve assistir.
 
Resumindo, o grande diferencial da série é sua origem. Apesar de – como a maior parte das séries inglesas – ter apenas seis episódios em sua temporada, é isso que lhe garantiu uma qualidade tão boa. Pesquisei para saber porque os ingleses fazem tão poucos episódios de suas séries (Paradox e IT Crowd sofrem do mesmo “mal”), a razão é simples e lógica, e nos faz pensar o que seriam das sitcoms americanas se seguissem o mesmo principio: as redes de televisão e produtoras britânicas tem menos dinheiro para investir em seus programa, porém sabem como investir melhor. Normalmente, cada emissora tem apenas um redator e quando ele está escrevendo um programa, se dedica inteira e exclusivamente a este – e o mesmo acontece com o diretor contratado para cada série. A série é gravada então, apenas quando seu arco de história está fechado (com seis episódios) e tem um tempo maior para sua finalização e edição. O que temos então é algo com muito mais sinergia, muito mais autoral, do que séries que começam com um escritor e no meio temos mudanças sem sentido, decorrentes de cortes de funcionários, orçamento ou greves. E, claramente, nada impede que outras temporadas sejam feitas logo na sequência – dependendo do sucesso e da audiência.
 

Misfits retrata muito bem essa qualidade. A intensidade do roteiro, da edição e da direção. A profundidade dos personagens – e de seus atores -, e a empatia que sentimos é tão grande quanto a imersão na série. Cada episódio é muito bem escrito e tem começo, meio e fim – e ainda assim deixam sempre com mais vontade do que virá a seguir.
 
Aliás, a segunda temporada já foi confirmada, e quando você assistir a primeira, vai comemorar isso – e se já começou a esperar, dê uma lida na HQ que tem no site da emissora E4, enquanto isso.
>> GEEX – por Felipe Muñoz