“OS DIAS DA PESTE”: FÁBIO FERNANDES, OS CIBORGUES E A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

DivulgaçãoConversando com o jornalista, escritor, tradutor e professor Fábio Fernandes, sobre a Campus Party, afirmei:  “acho que o seu protagonista estava, de certa forma, lá”. Isso porque Os dias da peste (Tarja editorial), último livro de Fernandes, narra a vida de Artur, uma espécie de médico de computadores e afins, que tem uma relação simbiótica com as máquinas.

Leia um trecho do livro aqui.

A obra se passa num Brasil futurista – em vários períodos, no curto, médio e longo prazo –, em que as pessoas desenvolvem uma dependência dos seus computadores até que um dia… eles despertam. Tomam consciência, começam a decidir, se reúnem e propõem criar um país virtual. As relações de interdependência começam a pender para um dos lados (imagine qual) até que um dia… Bem, é melhor parar de contar o livro.

O bom de Os dias da peste é que ele ecoa na cabeça depois de fecharmos o livro. Ficamos com dúvidas, perguntas, questões, e vários “e se…”. Por isso, aproveitei para perguntar ao próprio autor, que já traduziu obras como Neuromancer e Laranja mecânica, o que ele achava das propostas levantadas em seu texto.

“Pode parecer paradoxal, mas eu não acredito na possibilidade das máquinas criarem consciência. Até gostaria que isso acontecesse, mas realmente não acredito”, contou por email:  “Acho que máquinas são fundamentalmente diferentes de humanos, e ainda que elas venham a se tornar tão desenvolvidas que em algum ponto nos ultrapassem (…) elas poderiam no máximo imitar humanos, mas não efetivamente pensar.”

Fernandes, entretanto, cita casos – no livro e fora dele – do que ele chama de “pseudo-entidades aplicadas”, em que as máquinas imitam o comportamento humano, a ponto de gente não saber se está, por exemplo, conversando com uma pessoa ou com um computador. Ele lembra dos “chattersbots que há anos pipocam na Web”:

“Eu cito no livro o exemplo (real, como quase todos os exemplos que uso dentro do livro) da Eliza, do Joseph Weizenbaum. Em 2001, uma equipe composta por profissionais de diversas áreas do conhecimento, liderada pelo Alceu Baptistão foi contratada pela Close-Up para criar uma espécie de ‘pseudo-entidade’ dessas, a Sete Zoom. Era uma personagem meio cartoon criada para o público adolescente. O barato era que você podia bater papo com ela via site ou ICQ, e o repositório de conteúdo dela era muito grande.” E adiciona: “Mas um chatterbot não é uma inteligência artificial nem de longe: é apenas um conjunto de sub-rotinas envolvendo um leque razoavelmente grande de respostas para uma quantidade determinada de perguntas.”

Mas se Fernandes – que dá aula nos cursos de Jogos digitais e tecnologia e Mídias digitais na PUC-SP – não acredita em uma inteligência artificial, tipo o Hal 9000, de 2001Odisseia no espaço, (livro de Arthur C. Clarke, filme de Stanley Kubrick) ele acha que haverá uma maior interdependência entre homens e máquinas, com os computadores se misturando ao nosso corpo, formando um tipo de organismo único.

“Acho que enveredamos por um caminho sem volta, do qual só sairemos como ciborgues do outro lado. E isso, reitero, é ótimo”. Para completar o raciocínio: “Acredito completamente nos conceitos de ciborgue, inteligência aumentada, trans-humanidade e pós-humanidade. Acho que já estamos dando o próximo passo, e ele tem a ver justamente com o silício que estamos implantando em nós – seja literal ou metaforicamente.”
>> O LIVREIRO – por Ronaldo Pelli

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