“UZUMAKI – A ESPIRAL DO HORROR”, DE JUNJI ITO

Nascido em 1963, Junji Ito começou a desenhar inspirado pelos trabalhos da irmã mais velha e pelo Mangá Kazuo Omezu. Tomou gosto pela temática de horror e, quando mais velho, foi o vencedor do prêmio Kazuo, que prestigiava mangás daquele gênero. A partir daí, não parou mais. As perturbadoras tramas de Ito exploram acontecimentos sobrenaturais que gradualmente vão enlouquecendo as pessoas comuns, forças tão intensas e poderosas que é praticamente impossível escapar. O autor é conhecido por explorar seus temas ao máximo, espremendo até a última gota de cada conceito que inventa, mas nunca se tornando cansativo. Em Tomie, uma série em quadrinhos sobre uma garota que podia se regenerar (estou simplificando muito aqui), somos apresentados às mais grotescas formas que uma criatura poderia renascer, sempre levando à ruína aqueles que estão muito próximos. E se as tramas são ótimas, seus maravilhosos e detalhados desenhos completam o pacote, resultando em verdadeiras obras de arte.

Falemos então de Uzumaki, uma das obras máximas de Ito, que foi lançada no Brasil pela Conrad em 2006 em três edições (Cicatriz, Faron Negro e Caos). A história é narrada pela “fofíssima-que-dá-vontade-de-apertar” Kirie Goshima, moradora da cidade costeira de Kurozu-cho. A bela adolescente começa a contar sobre os estranhos eventos que se abateram sobre sua terra, que foi dominada por uma força sobrenatural e enlouquecedora. “Mas que bendita força é essa”, pensa você; será um ataque de vampiros purpurinados? Um espectro vingativo e cabeludo, que escapa pelo ralo das pias? Um monstro genérico estilo godzilla, que sairá das profundezas do oceano? Nada disso, meus amiguinhos. A tal ameaça de outro mundo é simplesmente uma… forma geométrica! Mais precisamente, a espiral, conforme o subtítulo da H.Q entrega.

E por falar em entregar, permitam-me uma mudança no meu modus-operandi, pois vou trazer alguns spoilers (somente sobre o primeiro e segundo cápitulos do primeiro volume) nos parágrafos em verde. Isso é necessário para que você entenda a insanidade que é Uzumaki, e se interesse (ou não) pela obra. Caso não queira saber nada com antecedência, apenas pule as passagens esverdeadas, ok?

Na primeira história, nossa heroína está indo encontrar o namorado, o “insosso-com-cara-de-Harry-Potter” Shuichi Saito. No caminho, ela encontra alguém debruçado em uma viela, olhando fixamente para algo na parede. Pensando se tratar do pai do Shuichi, Kirie se aproxima e descobre que o homem parece hipnotizado pela concha de um caracol. Ela conta isso para ao namorado, que revela que seu pai parece ter adquirido uma estranha obsessão por espirais. De fato, o sujeito agora só fala sobre isso, além de ter abandonado o emprego para coletar objetos em forma de espiral. Em determinado momento, a mãe de Shuichi joga fora todas as traquitanas, porém seu marido não se dá por vencido. De alguma forma bizarra, ele descobre que consegue reproduzir sua amada forma geométrica com partes do seu próprio corpo! Após algumas grotescas exibições da nova habilidade, ele encomenda uma grande tina, que coloca no meio de seu escritório. E quando mãe e filho chegam em casa e abrem a tampa, se deparam com… Bem, se deparam com isto:

Em decorrência do acontecimendo fora do comum, a esposa do maluco adquire verdadeiro horror à espirais e, quando descobre que suas impressões digitais trazem o temido desenho, acaba resolvendo o problema de maneira pouco ortodoxa:
Sentiu o drama? E isso é apenas o ponto de partida, pois a partir daí, algo que será conhecido como “A Maldição da Espiral” passará aos poucos a tomar conta da cidade. A fumaça que sai do crematório preenche os céus em uma nuvem em forma de espiral (que por alguma razão desconhecida, desce até o lago que fica no centro da cidade); outras pessoas começam a ficar obcecadas por espirais, algumas sentindo pavor, outras experimentando adoração. Algumas morrem em decorrência de sua fixação, outras matam. A espiral funciona como uma metáfora para algo do qual não podemos fugir, pois sempre acabaremos chegando ao mesmo lugar. Assim, acompanhamos assassinatos, auto-mutilação, suicídios, paixões impossíveis, tornados, furacões e cidades destruídas, tudo isso entrelaçado com a sinistra maldição. Escapar de Kurozu é impossível, já que o próprio espaço-tempo se espiralou, impossibilitando qualquer tentativa de fuga… Ou será que os protagonistas encontrarão um meio de escapar?

Uzumaki é um festival de situações inusitadas e criativas, que abordam a loucura humana em meio às mais horrendas transformações corporais que alguém poderia imaginar. Embora muitos acontecimentos pareçam aleatórios a princípio, há diversas informações amarrando a trama, como os casebres misteriosos, o farol negro, a sirene que toca de tempos em tempos, etc. Detalhes que farão algum sentido no final lovecraftiano (tenho certeza que o autor dos Mitos de Cthulhu teria adorado ler Uzumaki). Aliás, o último volume da série é o meu preferido, pois é a partir daqui que as coisas se tornam literalmente grandiosas.

Há diversas passagens inesquecíveis na H.Q., cuja história é de uma criatividade e execução grandiosas (você não irá esquecer daquilo que existe dentro dos misteriosos casebres da cidade, após o furacão). O clima é de desesperança, que aos poucos se transforma em desespero. Claro, é preciso estar preparado as doideiras de Junji Ito, que trás situações que beiram às raias do absurdo. Além disso, seus personagens não são exatamente marcantes, já que seus roteiros privilegiam muito mais a insanidade que toma conta do ser-humano em meio ao Caos. Para completar, o desfecho apoteótico poderá não agradar a todos, já que não trás todas as respostas. Mas pessoalmente, acho que o grande barato do terror oriental é esse mesmo, de nunca entregar histórias “mastigadinhas” para o leitor, que precisa montar o quebra-cabeças e compreender à trama à sua maneira. Conforme disse muito bem o bloguista BruNêra (no blog Nerds somos Nozes): “Nessas arestas que sobram cabem direitinho nossos medos e paranóias, deixando a revista muito mais pessoal e única para cada um que lê.”

Os desenhos de Junji Ito são um espetáculo à parte, trazendo soluções visuais que seriam um desafio intransponível para a maioria dos desenhistas. Aliás, a maior crítica que posso fazer às edições da Conrad é o tamanho das H.Q.s, em “formatinho”, diminuto demais para que apreciemos todos os detalhes minuciosos das ilustrações. No entanto, acho que estou reclamando à toa e injustamente, por dois motivos: primeiro, porque não sei em que formato os mangás foram publicados originalmente; segundo, porque para fazer jus aos maravilhosos painéis do artista, seria preciso publicar em formato americano, de preferência encadernado. Contudo, creio que essa alternativa seria inviável comercialmente. Uma pena, mas o tamanho da revista não compromete a força do pesadelo delicioso e perturbador que é Uzumaki.

Para fechar, a informação triste é que o trabalho de Junji Ito parece não ter feito muito sucesso entre os brasileiros, que por algum motivo, preferem os mangás de horror de Hideshi Hino (autor de Panorama do Inferno, Serpente Vermelha e O Garoto Verme). Este também é um bom autor, porém seus desenhos não chegam aos pés do mestre Ito, suas tramas não alcançam um décimo da criatividade, e suas sequências chocantes parecem estar lá apenas pelo choque em si, enquanto os horrores e bizarrices de Junji Ito estão lá para servir à história, e não o contrário. É gore com conteúdo!

Enfim, caso você encontre Uzumaki em algum sebo, não perca a chance de adquirir essa obra prima (lembrando que foi publicada em três volumes). É um início perfeito para quem nunca leu um gibi de horror, e para quem está acostumado, é simplesmente indispensável.
>> BIBLIOTECA MALASSOMBRADA – por Mario Carneiro Jr.

“Escuta, tem alguma coisa no meu olho?”

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