“VIRKRAM”: VAMPIRO À INDIANA

Cínico, o texto de época traz a ironia e o conhecimento de um dos mais importantes – e controversos – exploradores ingleses do século XIX

[digitalizar0007.jpg] Figura carimbada nas viagens de exploração da África e do Oriente, aventureiro dos de verdade e um dos responsáveis pela descoberta européia do Lago Tanganyica, o excelentíssimo cavaleiro da Rainha, Sir Richard Francis Burton (1821-1890) deixou para a posteridade muitas histórias para contar. E contou para a posteridade, também, muitas outras, como em “Vikram e o Vampiro”, editado pelo Círculo do Livro com tradução de Sérgio Augusto Teixeira.

O texto reúne onze narrativas das vinte e cinco que compõe o orignal Baital-Pachisi, ou “Vinte e cinco contos de um baital“, selecionadas e traduzidas para o idioma de Shakespeare pelo explorador. Como leitura de entretenimento talvez se faça muito pesada: as narrativas, afinal de contas, são parte da bagagem cultural que dá origem aos contos as “Mil e Uma Noites”, imortais, sem dúvida, mas às vezes cansativos. No caso presente, os textos às vezes se tornam ainda mais pesados, pela quantidade de filosofia indiana em suas linhas, mas pelo menos o autor/tradutor oferece notas que ajudam à sua compreensão. O que salva a leitura é a força de Burton, que transpassa o tempo e as traduções, e o próprio baital, personagem absolutamente maligno e cínico que é o narrador da maioria dos contos.

O fio condutor do livro é o Rajá Vikram que, para livrar-se de uma maldição, concorda em levar até o mago que deseja matá-lo, um baital, isto é, um vampiro. Ao ser capturado, a entidade maligna propõe a Vikram um autêntico jogo de vaidade: ele contará histórias para seu captor, propondo indagações ao final de cada uma, e se o humano responder a alguma delas, o vampiro voltará imediatamente à árvore onde o rajá o encontrou. O jogo é de vaidades porque Vikram, enquanto rajá, acredita-se sábio e poderoso, e porque uma de suas atribuições, enquanto governante, é julgar as querelas do reino. Vikram não se furta aos desafios contínuos e por isso o baital, ao final de cada narrativa, retorna ao seu poleiro predileto, de onde é derrubado continuamente pelo governante. Somente à última história, que é claramente uma contribuição de Burton, não obtém resposta, levando, assim, ao final do livro.

Como eu dizia, enquanto leitura de entretenimento, “Vikram e o Vampiro” pode se fazer um tanto pesado. Mas deveria de ser uma das leituras moralmente obrigatórias para quem escreve Literatura Fantástica. Primeiro porque várias linhas narrativas oferecidas pelos textos podem resultar em roteiros para a produção de novas histórias, com temáticas dramáticas realmente interessantes. E depois porque há pelo menos duas passagens que impressionam pela tensão e pela riqueza de bichos feios tradicionais da Índia, além da construção literária dos mesmos: são os dois momentos em que o rajá entra no espaço aterrorizante do cemitério para entrevistar-se com o mago que, aliás, deseja nada mais, nada menos, do que sua cabeça como oferenda à Kali.

Realmente é de se perguntar porque certos textos, ou pelo menos trechos deles, são tão pouco conhecidos entre nós e quais são suas influências na literatura de sua época. Por exemplo, é interessante observar que “Drácula” de Bram Stoker foi editado sete anos depois da primeira edição de “Vikram e o Vampiro”. Terão alguma relação, os dois livros? Stoker terá lido Burton e encontrado no livro a inspiração para seu próprio vampiro, que se rivaliza em cinismo, crítica e orgulho, tanto ao baital quanto ao mago?

Pois o baital, é exatamente isso: inspiração pura. Cínico, irônico, crítico dos costumes, inteligente e culto, o baital é uma entidade, uma espécie de espírito maligno que se apossa dos corpos dos mortos para continuar sua medonha existência. Posicionado em sua “árvore predileta” pendurado de cabeça para baixo pelos pés como um morcego, ele oferece uma visão no mínimo perturbadora que merece ser lida e saboreada. Uma assombração digna das mais arrepiantes histórias de terror.
>> PORTEIRA DA FANTASIA – por Simone Saueressig

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