UM ENCONTRO DA SÉTIMA ARTE COM A NONA

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Dez anos depois, documentário sobre Will Eisner continua inédito em DVD no Brasil. Filmes sobre Henfil, Ziraldo e Jerry Robinson também. Achei melhor colocar aqui a matéria mais completa, não a editada que saiu no Caderno B de segunda-feira. Aproveitem por que a Marisa (abaixo, filmando na Cartoonist and Writers Sindicate, no ano 2000) tem muito a dizer.

Marisa no sindicato EUA 2000

ERA UMA VEZ UMA FÃ DE QUADRINHOS
Quando era mais nova, a diretora Marisa Furtado colecionava quadrinhos, gostava de Will Eisner, do Demolidor do Frank Miller. E sua maior colaboração para os fãs na nona arte são sete episódios independentes sobre quatro super-heróis da vida real. Mas como começou essa história?

—- Como eu tinha fluência em línguas estrangeiras, eu fui convidada para montar o receptivo internacional da 1ª Bienal Internacional dos Quadrinhos no Rio, em 1991. Como o Will Eisner ficaria poucos dias aqui e tinha várias atividades programadas, fiquei de cicerone dele. Dei uma atenção exclusiva e tanto ele quanto a esposa Ann se apaixonaram por mim. Começou ali uma amizade que durou até a sua morte, em 2005.

Numa viagem aos Estados Unidos, Marisa foi à casa de Eisner e conheceu Dennis Kitchen, seu editor e agente. Já naquela ocasião, o Eisner Award era considerado o Oscar dos quadrinhos americanos. Na festa de despedida, quando retornaria ao Brasil, o editor da Kitchen Sink Press lhe presenteou com uma caixa repleta de quadrinhos.

—— Na época da segunda bienal, o contato com os artistas foi ainda maior. O francês Jano, por exemplo, ficou uma semana na minha casa. Tanto é que eu presenciei aqueles desenhos do livro sobre o Rio de Janeiro, da série Cidades Ilustradas, que depois virou o documentário O Rio de Jano. Ele desenhou o meu fusca, deitou na minha rede e foi comigo ao Maracanã. Também foi em 92 que eu recepcionei o Jerry Robinson e o Art Spiegelman.

desenho de Will Eisner para Marisa no Rio 1991

WILL EISNER EM BELO HORIZONTE
A iniciação de Marisa como documentarista de quadrinhos aconteceu quase por acaso. Um jornalista paulista estava desenvolvendo um programa sobre HQs e precisava de alguém para apresentar. Foi quando ela recebeu o convite para o aniversário de 80 anos de Will Eisner em Boca Raton, na Flórida, que renderia a primeira reportagem.

Em 1997, durante as comemorações pelo centenário de Belo Horizonte, Will Eisner anunciou que viria ao Brasil novamente. Era a melhor oportunidade para Marisa fazer seu documentário, o que só foi possível com o apoio de uma produtora local de padres salesianos. Quando ela foi gravar a entrevista, aconteceu algo muito engraçado:

—- Como a gente costuma usar fundo azul, o chroma key, eu pedi ao Will que não usasse terno azul, e sim marrom ou bege. Na hora, ele me apareceu justamente de azul e a esposa dele disse que ele só tinha terno dessa cor! – relembra a bem humorada diretora. – Tínhamos tanta intimidade que ele me contou quem, numa madrugada, estava tão distraído que bebeu tinta nanquim pensando que era café.

Depois de preparar o programa piloto, Marisa rodou por todas as emissoras de São Paulo para negociar a exibição. Encontrou as portas abertas na TV SENAC. Batizou o documentário de Profissão Cartunista por que não existe a palavra quadrinista em inglês, apenas cartoonist. O lançamento aconteceu em 1999 no Rio e São Paulo com a presença de Will Eisner. Na capital paulista houve também uma exposição.

A VOZ DE HENFIL EM FILME PÓSTUMO
O segundo documentário foi sobre o cartunista Jerry Robinson, criador do Robin, da Mulher Gato e do Coringa. O filme ganhou o Prêmio HQ Mix em 2001. Com equipe pronta, Marisa começou a pensar nos próximos biografados. Foi quando encontrou Ivan Cosenza, filho de Henfil, vendendo camisetas numa feira de moda que acontecia no bairro do Jardim Botânico.

—- Ele guardava o acervo do pai no quarto da empregada. Tudo estava se deteriorando e não havia nada digitalizado. Então nós o contratamos como digitalizador das obras, o que depois acabou gerando a venda das tiras para um jornal. Interessante que, por ser hemofílico, o Henfil já tinha uma preocupação em catalogar os originais e só mandava cópias de seus desenhos para os clientes.

Desta vez, Marisa conseguiu no antigo prédio do Jornal do Brasil, na área portuária, uma relíquia que valorizou ainda mais o trabalho:

— Descobri uma fita k7 de uma entrevista para a rádio JB aonde o próprio Henfil ia contando a sua trajetória profissional. Usei a voz dele como guia do filme, que também ganhou o HQ Mix em 2002.

doc Henfil por Marisa Furtado

Por ser amiga do Ziraldo, a diretora decidiu que ele seria o próximo da fila. Mas foi um parto complicado, que exigiu sacrifícios.

— Me dediquei um ano ao projeto. Roteirizei, editei, dirigi e perdi meu bebê nesse mesmo período. Como na experiência anterior, pedi ao Ziraldo que ele mesmo fosse o narrador.

Mais uma bola dentro. O filme foi selecionado no Festival do Rio 2004, com boa repercussão. Tempos depois, em janeiro de 2005, o amigo Will Eisner faleceu em detrimento de erros médicos durante uma cirurgia do coração.

— Quando ele morreu, decidi tirar meu dinheiro da poupança e banquei a versão em inglês do documentário, que foi lançado em DVD nos EUA e Canadá. Está vendendo muito bem, inclusive em streaming media.

doc ziraldo de marisa furtado

 

pre-estreia do doc do ziraldo de marisa furtado cine sesc sp

 

capa doc will eisner de marisa furtado

SUCESSO NO EXTERIOR, DESCASO NO BRASIL
O maior absurdo é que, passados vários anos, nenhum dos documentários produzidos pela diretora está à venda no Brasil. Não por falta de vontade.

— Já fui a todas as distribuidoras. Eu levei a série inteira para a Rio Filmes e foi devolvida. Eles disseram que precisa vender um mínimo e que acham inviável para estes produtos.

Por hora, o espectador tem a oportunidade de assistir a última biografia da série nesta quarta, às 20h, na TV Brasil. O próximo é sobre a vida e a obra de Jerry Robinson, um dos expoentes da Era de Ouro dos quadrinhos nos Estados Unidos. No filme, entrevistados como Stan Lee, Jules Pfifer, Joe Kubert, Carmine Infantino, Chico Caruso, Ique, entre outros, falam sobre o seu trabalho. Curiosamente, será uma quarta-feira de cinzas.

— A emissora licenciou para duas exibições por ano, então o que as pessoas podem fazer é ligar pra lá e pedir que passe mais vezes ou que façam os DVDs. Enquanto isso, estou me dedicando a uma série sobre amamentação, área com grande desinformação no Brasil, onde também haverá participação de um ou dois cartunistas.
>> JORNAL DO BRASIL – por Pedro de Luna

doc jerry robinson por marisa furtado

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