FICÇÃO CIENTÍFICA CLÁSSICA E A INTERNET

A ficção científica clássica, sobretudo nos anos 60 e 70, caracterizou-se principalmente na tentativa de antecipações tecnológicas, normalmente baseadas na projeção da ciência contemporânea. Dessa forma, devido à guerra fria russo-americana, a literatura de ambos os lados da cortina de ferro se baseou grandemente na corrida especial. Os computadores também aparecem como enormes máquinas, mesmo em Jornada nas Estrelas, na série clássica. Computadores pequenos e portáteis só apareceram quando já existiam pelo menos os micros Apple II.

Há algumas exceções.

Um conto interessante de Isaac Asimov, escrito em 1959, prevê em seu pano de fundo os microcomputadores (chamados de Microvac, uma variação do nome Univac, o primeiro computador, que surgiu em 1948). O conto chama-se “A Ultima Pergunta” e está presente na coletânea Nove Amanhãs. A temática básica é a entropia versus evolução tanto do homem quanto da máquina (que se torna cada vez menor e cada vez mais onipresente). Graças a este conto, Isaac Asimov, cerca de quinze anos depois, ganhou de presente da Apple um computador. Ele disse em um artigo de então que não via diferença entre escrever à máquina e corrigir a mão e usar o computador. Quem viu a diferença e adorou foi seu editor, que não tinha mais que decifrar longos trechos de garranchos e rabiscos.

1984, de George Orwell, de 1948, pode ser visto como um contraponto ao otimismo de Asimov. As tele-telas podem ser vistas como as atuais web-cans e a perda de privacidade num mundo cada vez mais voyer. Uma antecipação da Internet? Talvez. Porém fica ausente o caráter libertário que a rede propiciou ao mundo, já que a tele-tela era um objeto que não permitia nenhuma interação a não ser do Estado sobre o indivíduo.

Simulacron 3, de Daniel F. Galouye. Escrito em 1963, e que inspirou o filme O 13º Andar. O livro lembra Matrix (que provavelmente bebeu nesta fonte) no que diz respeito a uma sociedade baseada em simulações onde o uso de avatares (ele não usa este termo) em vários níveis é uma constante.

When Harlie Was One, de David Gerrold, de 1972 (com o infeliz título em português O Diabólico Cérebro Eletrônico). Neste livro, um computador de grande porte com inteligência artificial decide construir seu sucessor. O importante neste livro é que aparece o conceito de vírus e de vacina em computadores conectados em rede. 

Nos anos 80 surge o movimento cyberpunk, onde a tecnologia digital é o grande pano de fundo.

O Jogo do Exterminador, de Orson Scott Gard, 1982. Neste livro o tema está muito ligado aos games de ação interativos, onde o real e virtual se misturam. Há também referências um pouco mais explícitas à Internet (que é chamada na péssima tradução brasileira de “as redes”), mas sem muitos arroubos imaginativos do autor. A Internet se resume a grupos de discussão com mensagens de texto.

Neuromancer, de Willian Gibson., coincidentemente de 1984, deu origem aos termos cyberpunk e cyberspaço, que extrapolaram o universo literário. O cyberspaço, como descrito no romance, é um local num espaço virtual onde está toda a informação do planeta, acessível por quem ultrapassar as barreiras de segurança. Qualquer semelhança entre o cyberspaço e a Internet não é mera coincidência.

Islands in the net, de Bruce Stedrling, de 1988 (no Brasil com o péssimo título de Piratas de Dados).Embora Sterling seja um dos ideólogos do movimento cyberpunk, muitos críticos de FC consideram este romance como pós-cyberpunk, pois aponta justamente para as contradições de um mundo supostamente globalizado e interligado em sua totalidade (por isso as ilhas da rede).

Por que tivemos que esperar até os anos oitenta pra alguém ousar especular obre computadores em uma rede mundial?

Creio que basicamente é muito mais fácil imaginar evoluções de astronaves e robôs do que imaginar de que forma um computador evolui (normalmente só colocamos mais velocidade e inteligência). E que aventura há em ficar digitando num teclado? Melhor colocar a inteligência num robô, que pelo menos caminha com as próprias pernas.

E o espaço (a fronteira final…) é basicamente infinito. Se o homem já chegou à Lua, ir a Marte ou Vênus continua sendo um desafio. E ainda há as estrelas… E por que vou colocar avatares se posso colocar Luck Skywalker lutando ao vivo com Darth Vader?
>> PAI NERD – por Alvaro A. L. Domingues

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