“O MESTRE E MARGARIDA”, DE MIKHAIL BULGÁKOV

No início dos anos 1980, os moradores de um edifício da rua Sadôvaia, em Moscou, começaram a notar estranhas intervenções na decoração. De uma noite para a outra, os corredores ganharam grafites que, pouco a pouco, se espalharam pelas paredes. Entre as inscrições, destacavam-se os muitos desenhos de um enorme gato preto, em poses variadas: bebendo vodca de uma tacinha, jogando xadrez, incendiando uma casa. O tal gato é um dos personagens de “O mestre e Margarida”, (Alfaguara, 456 pgs. R$ 49,90), e os grafites são obra de leitores do livro de Mikhail Bulgákov (1891-1940) que faziam peregrinação ao prédio onde o escritor viveu (e também um dos cenários do romance).

As manifestações dos leitores fizeram com que o antigo apartamento de Bulgákov fosse transformado num museu dedicado ao escritor. Mais do que isso, os grafites — uma mistura de citações do texto, elogios a Bulgákov e discussões apaixonadas sobre todo tipo de assunto relacionado ao livro — demonstram o carinho do público pelo romance e pelo autor.

Livro só foi publicado duas décadas após a morte do autor
Dramaturgo de sucesso na Moscou dos anos 1920, Bulgákov começou a trabalhar no romance em 1928, mas, doze anos depois, morreu sem ver a obra publicada. Tanto tempo se deve, por um lado, à complexidade da trama de “O mestre e Margarida”, que narra a chegada do diabo e sua comitiva à Moscou stalinista. Lá, os visitantes se envolvem com o mestre, um escritor perseguido pelo governo e pelos intelectuais por ter publicado um romance sobre os últimos dias da vida de Jesus. A caracterização da comitiva satânica e a riqueza das descrições da Jerusalém onde se passa a obra do mestre indicam a profundidade da pesquisa feita pelo autor.

Mas a demora foi provocada também pelo temor da reação que a obra poderia causar em tempos de repressão. Censurado muitas vezes nos palcos por conta de suas sátiras políticas, o autor sabia do potencial perturbador de um romance sobre figuras religiosas numa sociedade onde o ateísmo era imposto por lei (um impasse satirizado já na primeira cena do livro, na qual o diabo tenta provar a dois literatos ateus que Deus existe). Bulgákov escrevia praticamente em segredo e, ao morrer, apenas sua mulher e um pequeno círculo de amigos sabiam da existência do livro. A obra só foi publicada, enfim, em 1966, encartada em fascículos numa revista literária, e logo encontrou lugar entre os grandes romances do século XX.

Há muitas formas de ler “O mestre e Margarida”. Antes de tudo, é uma comédia arrebatadora que condensa todo o talento do Bulgákov dramaturgo: ler o livro é como assistir a uma produção delirante, com cenários detalhistas (o prédio da rua Sadôvaia, a sede da associação de literatos de Moscou, o subsolo onde vive o mestre), música incidental abundante (como os trechos de óperas e as várias versões de “Aleluia” que irrompem nos pontos mais caóticos da trama) e diálogos afiados.

dramaturgo também se nota na construção cuidadosa dos personagens, muitos dos quais entraram para a galeria da cultura popular russa. O diabo apresenta-se como Woland, historiador e especialista em magia negra, um distinto senhor com um olho verde e outro negro, que jamais levanta a voz mas deixa uma impressão aterrorizante em todos que cruzam com ele (“Numa palavra, era estrangeiro”). Woland é escoltado por Behemoth, o gato preto que anda sobre duas patas, adora vodca, e tem inclinações piromaníacas; Korôviev, o ardiloso negociador do grupo; Azazello, um ruivo atarracado de ombros largos e feiúra indescritível; e Hella, “uma jovem totalmente nua, ruiva e com ardentes olhos fosforescentes”.

As peripécias do grupo em Moscou são o centro da primeira metade do livro. Em poucas horas, eles pro$a decapitação de um distinto poeta amigo do regime, ocupam o apartamento dele e agendam uma série de apresentações no Teatro de Variedades de Moscou (anunciadas como “Sessões de Magia Negra e sua Revelação Total”). Nessas cenas, brilha a inteligência satírica de Bulgákov: ironicamente, o diabo e sua comitiva surgem como uma força “moralizadora” em Moscou, expondo as contradições e injustiças do regime stalinista e da sociedade soviética. O ponto alto da primeira parte é a apresentação no Teatro de Variedades, que começa com outra decapitação e termina com uma chuva de dinheiro sobre a plateia e farta distribuição de roupas e joias para as mulheres. Tudo ilusão, como o diabo gosta — a “revelação total” prometida expõe não os segredos da magia negra, mas a hipocrisia e a ganância do público.

A segunda metade de “O mestre e Margarida” se concentra nos personagens-título, mencionados discretamente na primeira parte. O mestre é um escritor de meia-idade, autor de um romance protagonizado por Pôncio Pilatos, o procurador romano que, nos evangelhos, nada faz para impedir a crucificação de Jesus. Margarida, sua amante, o encoraja a publicar um trecho da obra, que desperta reações furiosas de intelectuais alinhados ao regime, por mostrar figuras religiosas como personagens históricos.

Abatido com a perseguição dos críticos, o mestre queima o manuscrito do romance e acaba num manicômio, desiludido com a literatura. Enquanto isso, Margarida tenta resgatá-lo, e para isso alia-se a Woland, numa sequência de cenas que contém algumas das passagens mais memoráveis do livro (como aquela em que Margarida sobrevoa Moscou de vassoura, à noite, completamente nua, e o baile de gala no qual ela serve de acompanhante para o diabo).

Romance dentro do romance faz reflexão sobre a bondade
O texto do romance do mestre surge em vários pontos de “O mestre e Margarida”, criando um contraponto curioso: enquanto a Moscou do século XX é descrita como um cenário mitológico por onde circulam bruxas e demônios, a Jerusalém dos tempos de Jesus é retratada com extremo rigor histórico (reforçado pela decisão do autor de usar a grafia original dos nomes — Yerushalaim, Yeshua ha-Notzri). Essa estratégia permite que Bulgákov desloque suas críticas ao regime: além da comparação implícita entre Stalin e César (cujos nomes nunca são mencionados), é em Jerusalém que aparecem as torturas, condenações sumárias e complôs políticos que eram rotina entre os soviéticos. Já na Moscou “mitológica” onde se situa a maior parte da trama, as prisões de inocentes passam por desaparecimentos misteriosos, atos de bruxaria.

É também no romance do mestre que Bulgákov introduz um dos temas centrais do livro, sugerido nas conversas entre Pilatos e Jesus sobre a natureza da bondade. Essa reflexão é elaborada ao longo de toda a obra, em especial num discurso de Woland no desfecho da trama, quando Bulgákov, num último ato de ironia, faz Jesus e o diabo expressarem, em momentos distintos, uma mesma visão: não há Bem ou Mal absoluto, e a covardia é a pior das fraquezas humanas.
>> O GLOBO – por Guilherme Freitas

Leia o primeiro capítulo de “O mestre e Margarida” clicando aqui.

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: