“SHOGUN WARRIORS” RUMO AOS CINEMAS

quarta-feira | 31 | março | 2010

A linha de brinquedos japonesa Shogun Warriors ganhará um longa-metragem norte-americano.

A franquia foi licenciada no ocidente pela Mattel, nas décadas de 1970 e 1980, quando chegou a gerar uma HQ pela Marvel Comics, além de na mesma época ter virado anime pelas mãos da Toei Animation. Os personagens são robôs gigantes “pilotados” por seres humanos.

Jules Urbach, fundador da Lightstage, produzirá o filme, com direção do veterano dos efeitos especiais Matthew Gratzner. Os créditos de Gratzner incluem filmes como Homem de Ferro, Superman – O Retorno e Hancock.

O filme tem apoio da Toei Studios. Paralelamente ao anúncio do filme, o quadrinista Alex Ross anunciou que está produzindo capas para uma nova HQ da franquia que será publicada pela Dynamite Entertainment. Mais detalhes sobre o filme serão revelados na San Diego Comic Con, que acontece apenas em julho
>> HQ MANIACS – por Émerson Vasconcelos


“DRAGONLANCE”

quarta-feira | 31 | março | 2010

Uma das velhas histórias de fantasia que mereciam
ser lembradas pela indústria do entretenimento

Em tempos em que a Literatura de Fantasia prece ter se convencido de que as séries são as melhores amigas das vendas, e numa época em que a animação gráfica vem atingindo patamares dignos de um passe de mágica, permitindo a visualização de criaturas que antes só habitavam a imaginação humana, é de se espantar que alguns títulos continuem relegados ao esquecimento. Afinal, depois das trilogias “O Senhor dos Anéis” e “As Crônicas de Nárnia” era de se esperar que outras velhas obras fossem resgatadas das brumas do Limbo e ganhassem nova roupagem.
Os amantes da Fantasia com certeza ganhariam com uma produção caprichada para o sombrio “Stormbringer”, de Michael Moorcock. Obra de primeira grandeza, o livro merece, sem dúvida alguma, um espaço nas livrarias atuais.

Outra obra, sem tanta qualidade, mas que também merece sua versão cinematográfica e uma nova edição, é a trilogia “Drangonlance”. Editada no Brasil pela Devir e dividida em três volumes principais – “Dragões do anoitecer de outono”, “Dragões da noite de inverno” e “Dragões da alvorada da primavera” – a obra assinada por Margaret Weis e Tracy Hickman tem tudo para agradar as novas gerações de leitores de Fantasia. Drama, humor, romance e personagens fascinantes somam-se à possibilidades de cenários fantásticos e situações que balançam qualquer amante de criaturas mágicas.
A história é bem simples em seu fio condutor: um poder inesperado levanta-se sobre a terra de Krynh, carregado nas asas dos dragões, que num primeiro momento representam o mal. Um grupo de amigos vê-se inesperadamente envolvido com os vilões, ao dar proteção a um casal de viajantes que porta um medalhão com poderes místicos. A partir daí a história vai de peripécia em peripécia, na luta entre o bem e o mal.

É verdade que nem tudo são flores nesta extensa trilogia da qual derivaram outra trilogia – “O tempo dos gêmeos” – e mais um grande volume intitulado “Dragões da labareda de verão”. Tendo sua origem profundamente arraigada em partidas de RPG, o texto às vezes revela demasiado o recorte dos jogos, mantendo a dinâmica dos mesmos e as opções que movimentam o clássicos “D&D”. Não faltam situações em que um personagem tem de escolher entre duas portas, duas ou três direções ou mesmo, tomar a decisão de falar com outro personagem ou atravessá-lo com uma espada, e às vezes sobram labirintos subterrâneos povoados de medonhas criaturas. De vez em quando, um personagem toma uma atitude ingênua demais, simplesmente para provocar a crise que dará o ensejo dramático àquela parte da narrativa, forçando o texto a se dobrar à vontade de seus criadores e não sendo devidamente conduzido por eles. Isso irrita o leitor mais exigente e aborrece um tanto. Contudo, nada é perfeito.

Para esta leitora, porém, a soma das qualidades da trilogia é maior do que seus defeitos e a maior qualidade de “Dragonlance” são os seus personagens e a coragem com que os autores abordam a história dos mesmos. O grupo central é formado por nove personagens, inicialmente estereótipos que lembram formalmente a Confraria do Anel, de Tolkien – outra coisa que aborrece, pelo menos no começo. Com certeza não é uma coincidência: a presença de Tolkien é forte em quase toda obra. Há vários personagens “agregados” que aparecem e desaparecem com o andamento da narrativa que, inicialmente, tem o mesmo moto de ação de centenas de obras de Fantasia anteriores: a luta do bem contra o mal invasor, que procura dominar o mundo através da força, representado por tudo de ruim que há: ambição desmedida, mediocridade política, incapacidade de compreender as diferenças como um multiplicador, corrupção, crueldade, e outros muitos mais “etc”.

Este desafio de deparar-se com um grupo tão grande de personagens fixos e inúmeros outros, flutuantes, sacode quem andava lendo diálogos enxutos entre apenas dois protagonistas ou conversas entre grupos pouco variáveis. O prisma caleidoscópico não nos deixa enraizar em apenas um personagem, mas nos leva a viajar pela história diferentes vidas. Talvez por ter tido em sua origem seres humanos reais – os jogadores do RPG que deu origem aos livros – é que os personagens de “Dragonlance” revelam-se tão complexos. Com esta quantidade de personalidades, várias linhas narrativas são traçadas, levando o leitor por diferentes paragens e dramas, sem manter o foco inalterado em um único personagem, como os atuais bestsellers do gênero, “Harry Potter” e “Twilight”. Indo mais além da trama narrativa de Tolkien, que divide-a em duas e posteriormente em três partes, “Dragonlance” entremeia-se a vontade, chegando ao cúmulo de flertar com a metalinguagem à certa altura do texto.

Três personagens dominam a narrativa: Tanis Meio-Elfo, Lauralanthalasa, e Raistlin. Mas isso não significa que os demais não sejam costumeiramente protagonistas – Tasslehoff Burfoot, o kender, por exemplo, é um autêntico ladrão de cenas. Contudo o mais fascinante para esta leitora, foi a capacidade dos autores e levarem até as últimas consequências seus personagens, sobretudo Sturm, Flint e Raistlin, o mago. Este último, tem papel preponderante na narrativa, manipulando seus amigos como um autêntico mestre-do-jogo, sem, no entanto, sê-lo de verdade, ou, talvez, roubando das mãos do narrador original, essa função.

Uma boa versão cinematográfica de “Dragonlance”, seria, com certeza, sucesso de bilheteria. Eu disse “boa versão”. Versões regulares não servem, porque cairão fatalmente na mediocridade e no ruim. O Youtube está repleto de vídeos sobre o assunto, desde o teaser do desenho animado de longa metragem já produzido (e cuja qualidade fica bastante abaixo do que a série merece, diga-se de passagem) até “castings” alternativos e vídeos caseiros, a maioria deles amparado por composições de hard-rock orquestral, estilo que, aliás, parece ter sido feito sob medida para a trilogia. De passo isso seria uma boa desculpa para novas edições – com tradução e diagramação melhoradas, espera-se – e inclusive para uma tradução do terceiro volume de “O tempo dos gêmeos”, ainda inédito em português. Até lá, sem compreender o mais mínimo os caminhos das produções cinematográficas, teremos de nos contentar em imaginar as aventuras de personagens tão interessantes – coisa, aliás, que sempre foi a base do bom RPG e que deu a estas criaturas de papel, a profundidade que elas têm.
>> PORTEIRA DA FANTASIA – por Simone Saueressig


1º ENCONTRO DE ESCRITORES

quarta-feira | 31 | março | 2010


ENTREVISTA COM CHINA MIÉVILLE

terça-feira | 30 | março | 2010

Seu primeiro romance, KING RAT, era uma aterrorizante história de fadas. Em PERDIDO STREET STATION, Miéville criou ‘New Crobuzon’, uma metrópole corrupta habitada por insetos humanóides, cactos andantes, grotescos ‘Renascidos’ pela bioengenharia, e máquinas conscientes e ‘vivas’, assim como um monte de tipos comuns, assediadas por criaturas que sugam espíritos, saídas de um experimento fracassado. A fantasia de Miéville é permeada por um realismo que rejeita finais felizes. 
Parabéns pelo Prêmio Arthur C.Clarke por ‘Perdido Street Station’. Não parece irônico ou incongruente que um romance de fantasia baseado em um cenário ‘steampunk’ tenha recebido um prêmio tão importante, que recebe o nome de um escritor de Ficção Científica Hard, de satélites e naves espaciais, em que a sensibilidade para a prosa não é, digamos, sublime.

Obrigado – ainda estou um pouco estupefato. Existe uma ironia sim, mas não é tão incomum este prêmio ir para alguém que faz uma FC tão pouco ‘Clarkeniana’. O próprio Clarke é um sujeito muito generoso a respeito do que se trata o prêmio, e a quem deve ser dado.

Além de estar pessoalmente extasiado, me sinto contente, porque eu sempre senti que era impossível separar a Ficção Científica da Fantasia – certamente eu devo ter conscientemente estado em um e em outro, e eu esperava que o prêmio indo para um romance não tão de FC, deveria encorajar uma abertura conceitual da tradição. Sempre gostei de dizer que escrevo uma ‘ficção esquisita’, porque me sinto na interseção da Ficção Científica, Fantasia e até do horror, o que claramente, torna as fronteiras nebulosas. Quer dizer, é fácil dizer que Larry Niven é FC e Tolkien é fantasia, mas e David Lindsay? Lovecraft? Clark Ashton Smith?

A ‘ciência’ que aparece em seus romances, dependem de mecanismos da era-vitoriana. A teoria da grande crise soa igual à especulação quântica e a inteligência artificial sempre foi uma obsessão da FC. Tem sempre um cientista maluco e que é responsável por forças desastrosas, resultado direto de sua arrogância e da irracional manipulação cientifica, sem ligar para as conseqüências. O que da FC de antigamente se tornou um fato hoje, como a biotecnologia e as máquinas pensantes que aparecem em seu trabalho?
Em geral não penso que se possa ver a FC como profecia cientifica, sociológica ou outra coisa desse tipo. Não acho que FC trate disso. É obvio que muitos cientistas se inspiraram em historias de FC que leram quando jovens e não posso dizer que não seja uma influência.

Sou totalmente pró-ciência. Acho muito interessante. Tento evitar a tradicional tropa de escritores ‘metidos a cientistas’. Não é a atividade cientifica por si só que nos causa problemas, como o doutor Frankenstein. Mary Shelley, refutava em ter a responsabilidade dos frutos de sua pesquisa – em meus livros, é algo mais como uma má sorte danada!

O problema não é a ciência, mas onde ela nos leva. Biotecnologia é um bom exemplo. Não tenho nenhum problema, em termos abstratos com a modificação genética dos alimentos. Porém, acho problemático quando ela caminha para beneficiar os exploradores.

Além disso, muita coisa é lançada no mercado sem os devidos testes – sem termos uma ideia real dos efeitos a longo prazo. Além disso, algumas pesquisas são socialmente inadequadas e inúteis, como fazer plantas que só respondam a um único tipo de fertilizante.

Muita coisa vai surgir nos próximos anos e isso é excitante. Particularmente estas coisas mais grotescas são as que mais falam à minha natureza macabra. Ratos com genes de águas-vivas e que brilham verdes, é demais!

Eu fico tentado em traçar um paralelo do seu nome ‘Miéville’ com ‘Melville’. O protagonista de ‘Perdido’ se chama Isaac, que na bíblia é filho de Abraão e irmão de Ismael, o herói em ‘Moby Dick’, de Melville. Ambos os livros falam sobre um maníaco se vingando de uma besta diabólica, e durante isto, surgem detalhes horrorosos sobre o ser humano cheio de dúvidas sobre a intenção divina. Você, como um inglês, tirou alguma inspiração do grande clássico americano? E qual a significância que você deu ao nome Isaac Dan der Grimnebulin?
Certamente que ‘Moby Dick’ é uma inspiração. Deve fazer parte da maioria do que escrevi, de uma maneira ou de outra, desde que eu li este livro dez anos atrás. É um livro absurdo! Eu não pretendi construir nenhum paralelo com ele, conscientemente, mas não quer dizer que não esteja lá! Não acho que devemos nos ater na intenção do autor sendo a única fonte de temas em um livro. Muitos escritores aprendem muito sobre seus trabalhos a partir de resenhas inteligentes.

Eu escolhi o nome Isaac por que eu queria que soasse familiar, mais sonoro do que a maioria dos personagens de um monte de épicos de fantasia. Mas eu queria algo sugestivo, quase como uma paródia de alguns nomes nos livros de Dickens ou em Mervyn Peake.

Tomas Disch em seu “The dreams our stuff is made of”’, declara que Edgar Allan Poe foi o avô do gênero cientifico em parte por seu estilo pouco refinado para a época. Ele não pretende provocar risos, nem mesmo um sorriso. Ele busca aquela sensação de ‘Isto não pode estar acontecendo’! Existe um pouco disso nos seus trabalhos, de forma planejada. Em um artista menor, o uso deste estilo seria meramente um truque barato. O que você pretende?
Particularmente acho que existe uma reação contrária ao popular, a fantasia pós-Tolkien. Sei que é uma generalização, mas a coisa me parece muito dirigida para um tipo ‘limpinho’ de vida feudal, sem sujeira, sem sangue, fezes ou urina. A literatura de fantasia não devia tentar expulsar aquilo que é real, mesmo sendo sujo ou feio.

P: Os críticos sempre lamentam que a maior parte da literatura de Fantasia está ligada aos milhares de épicos sem fim, de personagens medievais mágicos batalhando contra as forças do mal. Em ‘Perdido’ não se encontra nenhum elfo, bruxo ou uma espada mágica. Foi consciente a sua intenção de construir um mundo distinto dos clichês do gênero ou você apenas seguiu sua própria inspiração?
Ambos. Meu gosto para ficção sempre pende para o macabro, o surreal, onírico, e nunca eu me senti bem dentro do universo de Tolkien, ou da maioria dos escritores após Tolkien. E sim, foi uma coisa deliberada minha tentar subverter algumas das características assumidas pelo gênero de fantasia, precisamente por que eu amo este tipo de trabalho subversivo.

Eu não uso de estereótipos, que na fantasia definem os personagens por sua raça; anões são brigões e pouco inteligentes, elfos são espertos. trolls são malvados. tentei brincar com as idéias desta essência racial em ‘Perdido’ – no meu mundo, os personagens são retratados como as pessoas são no mundo real, mas não de um modo muito apurado. Isto é racismo. Quanta fantasia escrita hoje não abusa destes estereótipos raciais em mundos imaginários?

Outra coisa que eu quis fazer foi um livro de fantasia que não era baseado em uma terra-do-nunca feudal, mas com relações sociais comuns a indústria e ao capitalismo. E isso é uma resposta aos clichês habituais do gênero.

Um dos problemas do gênero mais tradicional, é que se tornou por demais confortável. É preciso retirar o leitor de certas convenções.

Tolkien falava sobre ‘ficção consoladora’, uma ideia que eu realmente detesto! Acho que a estética do fantástico é boa para subverter expectativas, levando o mundo para o caminho errado, problematizando, alienando o leitor. Olhe para o surrealismo, certamente o que existe de mais fantástico nas artes. Praticar este tipo de fantasia ‘consoladora’ é trair isso – não é nem de perto fantasia de verdade.

Gabriel Chouinard descreveu seu trabalho como sendo a Next Wave (Próxima Onda) da Fantasia – brincando com a New Wave (Nova Onda) da Ficção Científica nos anos 60, que se distinguia do formato literário da FC anterior – trazendo autores como você, M. John Harrison, Matthew Stover, Jeff VanderMeer, Mary Gentle entre outros, e é lógico, Michael Moorcock, que tem os pés plantados nos dois movimentos. Mas será justo dizer que existe algum tipo de movimento de verdade? Vocês trocam correspondência, desenvolvendo algum manifesto anti-Tolkien? Ou será que é apenas outro rótulo inventado que colocaram em você, e no qual você nunca pensou a respeito?
É, alguns de nós certamente trocam correios, discutindo ideias e falando sobre a fantasia tradicional. mas não existe um movimento formal. Quantos movimentos literários formais existem? Com algumas exceções (surrealismo e talvez outros) a maioria destes movimentos são rótulos apenas. Isto não significa que seja uma perda de tempo se falar sobre movimentos.Eles existem apesar de não serem especificamente um projeto em comum. O ponto não é onde nós todos concordamos com algo, mas que exista um grupo de escritores cujo trabalho se nutre de certos aspectos estéticos interessantes (mesmo que na prática o resultado final os diferencie).

Eu nunca alteraria algo que eu escrevi depois de pensar no meu lugar como membro de um grupo, e eu imagino que ninguém o faça também, mas o ponto principal é que a temática que nos conecta seja traçada entre autores que estão escrevendo aquilo que desejam.Sem ter uma ligação formal.

Por exemplo, eu li ‘Iron Dragon’ de Michael Swanwick depois de ter escrito ‘Perdido Street Station’ e é um livro fabuloso, e em alguns de seus temas, há uma conexão com o que eu escrevo.Seria totalmente razoável, depois de ler os dois, que alguém imaginasse que fui influenciado pelo livro de Michael. Não é bastante que eu diga que não o havia lido antes de escrever ‘Perdido’ e que portanto não há nenhuma ligação. O legal é que tem muita coisa acontecendo no mundo, e no mundo da literatura fantástica, e que faz dois autores escreverem de modo similares.

Você está estudando para seu PHD pela London School of Economics. Primeiro, como um estudante de graduação arranja tempo para escrever romances? E uma vez que receba o titulo, você pretende trabalhar na área econômica? Ou será que isso é apenas um capricho intelectual?
Meu PHD não é em economia, a LSE é uma universidade de ciências sociais. Eu lido com filosofia das leis internacionais. Mas o tempo é um problema. Tudo que posso dizer é que procuro dividir meu tempo rigidamente. Escrevo bastante nas horas de folga, consigo ser muito auto-disciplinado. Devo concluir meu estudo em Setembro, e espero que depois fique mais confortável.

Espero poder escrever FC em tempo integral, como uma forma de vida. mas vou continuar trabalhando na academia onde trabalho no corpo editorial do jornal da academia, espero assim continuar publicando ensaios não-ficção e livros, conforme eu encontre tempo.

Você parece gostar das cidades, lugares perigosos repletos de segregação racial, etc. Tem algo nelas que te atraem?
Vivo em Londres e ela é uma grande influência no que eu escrevo. Amo arranha-céus, por que sou cínico o bastante para reconhecer o poder da dinâmica que rola nas cidades, mas não significa que eu não as ame. Londres, Nova Iorque, Cairo, são fontes de inspiração e são fascinantes. Tudo nelas é intenso, a pressão nas relações sociais, a criatividade, a arquitetura, tudo é mais excitante nas cidades, da política as artes, no ambiente físico. Sou um escritor urbano, na tradição de escritores urbanos londrinos como Thomas de Quincey, Neil Gaiman, Michael Moorcock, Iain Sinclair e outros.
>> CAPACITOR FANTÁSTICO – por Trechos de entrevista concedida a David Soyka


“SELVA BRASIL”, DE ROBERTO DE SOUSA CAUSO

terça-feira | 30 | março | 2010


“Selva Brasil” (Draco, 112 págs., R$ 26,90) é uma história alternativa que imagina como seria o Brasil vinte anos depois da invasão militar brasileira das Guianas, na Fronteira Norte, segundo os planos megalomaníacos do Presidente Jânio Quadros. Simultaneamente, a Argentina invadiu as Ilhas Malvinas, no Atlântico Sul.

Contudo, uma coalizão formada pelos países atingidos pela ação militar brasileira – Inglaterra, França e Holanda – e os Estados Unidos contra‑atacaram e empurraram os soldados brasileiros de volta, ficando com um bom pedaço da Amazônia Brasileira.

Desde então instalou-se um conflito permanente na região, com o Brasil e aliados latino-americanos lutando para retomar o território perdido e manter sob controle uma guerrilha patrocinada por aqueles países do Primeiro Mundo. É um Brasil completamente diferente do nosso, contido política e economicamente por esse conflito perpétuo, e com gerações de jovens brasileiros comprometidas com o conflito.

Amparada por uma pesquisa cuidadosa, Selva Brasil acompanha um grupo de soldados que – ao seguir para um ponto anônimo do Amapá, na fronteira com a Guiana Francesa, onde devem substituir uma outra unidade do Exército Brasileiro – se depara com desertores e com um plano secreto para romper as regras de engajamento que limitam o conflito na região.

Ao mesmo tempo, esses homens são confrontados com um estranho experimento militar que, indo além dos parâmetros do seu projeto, pode ter aberto um portal entre essa realidade paralela e a nossa.

Roberto de Sousa Causo
formado em Letras pela USP, é autor dos livros de contos A Dança das Sombras (1999) e A Sombra dos Homens (2004), dos romances A Corrida do Rinoceronte (2006) e Anjo de Dor (2009) e do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (2003). Seus contos apareceram em revistas e livros de dez países. Foi um dos classificados do Prêmio Jerônimo Monteiro e no III Festival Universitário de Literatura (com Terra Verde 2001); e ganhador do Projeto Nascente 11 de Melhor Texto, com O Par: Uma Novela Amazônica (2008).


“LOVE – A HISTÓRIA DE LISEY”, DE STEPHEN KING: NO LAGO DO MITO

terça-feira | 30 | março | 2010

Love: A História de Lisey (Lisey's Story), Stephen King. Editora Objetiva, 543 págs.

Em 16 de setembro de 2003, um editorial do New York Times afirmou que, “quando anunciarem as grandes figuras da moderna literatura americana – Bellow, Miller, Morrison, Updike, Roth – eles poderão agora somar um nome: Stephen King”.

Não é um editorial que vai colocar King no cânone norte-americano, mas tal opinião reflete uma mudança consistente, ao longo da última década, no status desse autor que chegou a se referir a si mesmo como “o equivalente literário de um Big Mac com fritas”.

No Brasil, embora ele continue sendo um dos nomes mais vendidos da Editora Objetiva – basta conferir o número de obras dele republicadas na coleção de bolso da Objetiva -, não parece haver esforço dos seus editores, nem dos críticos, em reconsiderá-lo como escritor. Mesmo para os seus fãs brasileiros, poucos se arriscam a vê-lo como um dos melhores escritores americanos vivos. Para eles, Stephen King é mais um escritor de horror, gênero em constante mutação – atualmente assumindo a forma da assim chamada “fantasia urbana”, dominada por Stephenie Meier, Charlaine Harris e L. J. Smith. Um dos problemas do público da ficção de gênero é que ele às vezes deixa de enxergar distinções. Tudo parece fácil, um jogo de temas e ambientações intercambiáveis (você precisa apenas ser “original” ou “novo”), e o talento necessário para realizá-lo na sua forma mais expressiva passa despercebido.

Mas King é “o Pelé do Horror”, e sou fã dele o bastante para chamar este Love: A História de Lisey de o melhor romance de ficção especulativa lançado no Brasil em 2008. Está dentro da tendência metaficcional desse autor, tratando da escrita e do ambiente editorial, e que já rendeu obras como Angústia (Misery), A Metade Negra (The Dark Half), Rose Madder, e Saco de Ossos (Bag of Bones). No plano da estrutura e da sua textura narrativa, talvez ele lembre mais Angústia e Jogo Perigoso (Gerald’s Game), dois romances sem muito enredo, centrado em um número limitado de situações e configurado por meio de flashbacks e mergulhos na consciência da protagonista – neste caso, Lisey Landon, a viúva de um famoso autor de realismo mágico.

Realismo mágico é a literatura fantástica que tem status literário, e não de ficção de gênero ou literatura comercial, como acontece com o horror. Nisso, talvez A História de Lisey espelhe a recente mudança na posição literária de King, mas na matéria do romance, o horror como gênero está muito bem expresso. Pode-se afirmar que de maneira um tanto desequilibrada em relação à caracterização das personagens e situações, mas ainda assim.

Aturdida com a súbita morte do marido, Scott Landon, Lisey tenta decidir o que fazer com os papéis do autor. Nos Estados Unidos, manuscritos, correspondência e apontamentos de grandes escritores são disputados por universidades e bibliotecas. A University of Pittsburgh, onde Scott estudou, está atrás dos seus papéis. Ou o Prof. Joseph Woodbody, da UofP está. Diante da indecisão de Lisey, Woodbody se associa a um sujeito muito obcecado, para dizer o mínimo, chamado John Doolin. Ao longo do romance, Doolin, terá um prazer sádico em intimidar e aterrorizar Lisey.

A viúva não está sozinha, porém – seus aliados são a irmã louca Amanda, e o fantasma de Scott, que vem assombrá-la com uma espécie de caça ao tesouro, guiando Lisey pela selva das lembranças e da infância traumática do marido, até um lugar mágico, também selvático, situado em uma dimensão da imaginação e do mito. Lisey estivera lá antes mas havia apagado a experiência da memória, para preservar sua sanidade.

Scott Landon tinha uma espécie de vocabulário familiar para uma série de coisas, de palavrões ao nome desse lugar mágico: Boo’ya Moon. A jornada de Lisey passa também por essa linguagem em parte herdada da grotesca família de Scott, em parte fruto da sua convivência conjugal. Como li a edição americana, não dá para dizer o que o tradutor Fabiano Morais fez com esse desafio.

Boo’ya Moon é uma espécie de variante do mundo por trás do quadro, em Rose Madder, um lugar que realiza magicamente a visão que Stephen King tem da literatura: um espaço em que nos afastamos do cotidiano e tomamos contato com o poder reparador do mito. Isso é dramatizado pelo fato de que a família de Scott possuía algum tipo de face monstruosa, que precisava ser controlada com a tortura exercida pelo pai, sobre Scott e seu irmão Paul. A marcas físicas da tortura eram curadas às margens de um lago que existe em Boo’ya Moon. Lisey terá de ir até lá – e como Rose Daniels no outro romance – para curar-se e para emboscar o homem que a persegue, ele mesmo encarnação de uma masculinidade violenta e fora de controle.

Boo’ya Moon tem diversas propriedades, porém. É lá que Scott se refugia, mas é de lá também que ele retira a força da sua literatura. O espaço do mito é porém o possível espaço da loucura, quando a necessária fuga da realidade torna-se o indesejável exílio da realidade. É o lugar do sonho e do pesadelo, da mais profunda humanidade e da mais completa desumanidade. Como Rose, Lisey também mergulha no mítico para salvar-se, mas é forçada a vislumbrar uma dimensão insana de si mesma.

Há muito mais no romance: suspense, é claro, e a reflexão sobre o mundo da literatura nos Estados Unidos; também uma exploração da culpa familiar, e do pacto de segredo e cumplicidade embutido no casamento; e a rica dinâmica entre Lisey e suas irmãs, indo da sua situação de mulheres de meia-idade à infância das três, em flashbacks. E finalmente, um certo humor quase-histérico, uma das marcas de Stephen King.

A História de Lisey é uma engenhosa e perturbadora reflexão sobre o que há de mais profundo do fazer literário, distante do formal e do estilístico ao mesmo tempo que entranhado na psique e no mítico, justamente o que independe da construção literária. Daí a figuração das virtudes da ficção de gênero, que espera ser lida como experiência, e não apenas como fruição estética; como vivência alternativa, e não somente como decodificação de símbolos, estruturas e diálogos intertextuais. O leitor deve entrar em Boo’ya Moon com o mesmo despojamento de Lisey, e deixar uma parte da sua sanidade na entrada. Facilita muito o fato de Lisey ser uma personagem encantadora, como costumam ser as mulheres de Stephen King. Quando ela é ferida, eu tive de fechar o livro…

Mas, qual é a real natureza da monstruosidade da família Landon, fenômeno que forçou pai e filhos a viverem isolados em uma fazenda? Por que o fantasma de Scott precisa se comunicar com Lisey por meio de uma caça ao tesouro, e como ele consegue prever o que irá acontecer com ela e Amanda, a ponto de preparar antecipadamente recursos e saídas? O que são realmente Boo’ya Moon e o terrível monstro que ronda as suas matas à noite? Algumas respostas são passíveis de se intuir, outras não. King sabe que, com textura suficiente aplicada à narrativa, o leitor simplesmente aceita como um dado o que lhe é fornecido.

King também sabe que não faz sentido racionalizar o mítico.
>> TERRA MAGAZINE – por Roberto Causo


“CARTER BEATS THE DEVIL”: HISTÓRIA DO MÁGICO CHARLES CARTER VAI VIRAR FILME

terça-feira | 30 | março | 2010

WARNER COMPROU OS DIREITOS PARA ADAPTAR O LIVRO

Segundo o Film School Rejects, a Warner Bros. Pictures. vai adaptar ao cinema o livro Carter Beats the Devil, um thriller histórico de mistério escrito por Glen David.

A história é uma biografia ficcionalizada do renomado ilusionista Charles Carter e se passa nos Estados Unidos dos anos 1920, época de ouro dos espetáculos de magia.

No livro, o mágico encontra vários personagens históricos, inclusive o presidente Warren G. Harding. Durante seu show, Carter convida o presidente ao palco, onde ele é cortado em vários pedaços e reconstituído depois, na frente da plateia. O espetáculo se encerra como um sucesso mas, duas horas depois, o presidente morre e Carter se torna um suspeito na investigação.

O estúdio ainda não definiu um cronograma para o filme.
>> OMELETE – por Carina Toledo