MULHERES DOS QUADRINHOS

Por amor à arte ou por profissão, elas estão cada vez mais atuantes
no mercado das histórias em quadrinhos

Luluzinha, Mulher-Maravilha, Mulher-Gato, Valentina, Barbarella, Mônica, Mafalda… não faltam protagonistas de histórias em quadrinhos do sexo feminino.


Verônica Saiki (E) e Viviane Machado. Foto: Adauto Cruz/CB/D.A Press

E quanto a mulheres fazendo quadrinhos? Dessa breve lista de personagens, apenas Luluzinha foi criada por uma mulher – a americana Marjorie Henderson Buell. Com mais de um século de existência, as HQs tiveram poucas mulheres trabalhando na área. Situação que vem mudando ao longo das últimas duas décadas com um crescente interesse delas pelos quadrinhos e, consequentemente, uma maior participação. No Brasil, exemplos disso não faltam.

É o caso de Verônica Saiki e Viviane Machado (ou Vivianne Fair, como ela assina). As duas começaram a ler e fazer os primeiros gibis na infância, aprimoraram técnicas na adolescência e deram continuidade à produção na vida adulta. Desde 2007, a brasiliense Verônica, 27 anos, publica por conta própria o título Verdugo, o inacreditável. Até agora, foram lançadas cinco edições e a sexta estáa caminho, prevista para maio. Carioca de nascimento, Viviane, 30, é adepta do mangá (como são chamadas as HQs japonesas) e tem livros e quadrinhos publicados no Brasil e nos Estados Unidos por editoras independentes.

Ainda que atuem na área de artes plásticas e, eventualmente, façam HQs por encomenda, para elas o trabalho é, por enquanto, um hobby levado a sério. “Estou esperando para ver o que a maré vai trazer. Se surgir algo no futuro, será uma surpresa”, diz Verônica. “Gostaria de viver da minha produção literária e também dos meus quadrinhos. Mas sou mãe e sei que esse mercado é muito complicado e não posso me dar ao luxo de tentar viver exclusivamente disso”, analisa Viviane.


Simone Mendes ganha a vida como free lancer de ilustrações para livros e revistas, como Bravo! e Capricho. Foto: Heitor Cunha/DP/D.A Press

Ganha-pão – Os quadrinhos são o ganha-pão da paulista Erica Awano, a mais conhecida e renomada desenhista brasileira de mangá. São dela os desenhos de Holy Avenger, uma das mais bem-sucedidas HQs brasileiras. Atualmente, Erica desenha para a Dynamite Entertainment a série The complete Alice in Wonderland, inspirada em Alice no País das Maravilhas (sem previsão de publicação no Brasil).

E há até brasileira nos X-Men. Nascida em Belém, mas criada em São José dos Campos (SP), a desenhista Julia Bacellar, ou Julia Bax, como é mais conhecida, é outro exemplo de profissional da área. Antes de se mudar para Paris, onde vive hoje, ela morou em São Paulo e deu aulas de quadrinhos na Quanta Academia de Artes, escola referência no ensino da linguagem das HQs. Além disso, Julia tem no currículo trabalhos para editoras norte-americanas, entre elas a Marvel, casa de personagens como Homem-Aranha, Hulk, Capitão América e X-Men. E, por falar no grupo de mutantes, a desenhista cobriu as férias do colega Roger Cruz (conhecido desenhista brasileiro) no título X-Men first class.

Nem só de mangás e super-heróis vivem as mulheres do gibi no Brasil. A produção da gaúcha Fabiane Bento, a Chiquinha, vai pelo caminho do humor desbocado, na melhor tradição de suas inspirações Ota, Angeli e Allan Sieber. O trabalho de Chiquinha, que apareceu em diversas revistas e jornais do país, atualmente é publicado na Folha de S. Paulo.

Novas leitoras – O que explicaria esse maior interesse das meninas por histórias em quadrinhos nos últimos anos? “No passado, com certeza menos mulheres liam por conta da temática”, arrisca Viviane Machado, fazendo referência aos quadrinhos de super-herói voltados, principalmente, para o público masculino. “Como no Brasil, durante muito tempo, a única coisa de HQ que tínhamos eram títulos das editoras Marvel e DC, dá mesmo essa impressão”, complementa Julia Bax. “Essa coisa masculino versus feminino é meio do passado, não?”, pondera Chiquinha, “Eu adoro quadrinhos e nunca curti heróis ao extremo. Até porque o que sempre me atraiu foi o quadrinho autoral e não essa movimentação da indústria norte-americana”, continua.

Erica Awano explica que o maior número de mangás nas bancas brasileiras na última década ajudou a trazer novos leitores de uma forma geral: “Os mangás são produções altamente segmentadas. Eles têm um público específico, não é comono Ocidente: infantil, juvenil e adulto. Existem mangás para adolescentes de ambos os sexos, para jovens adultos, donas de casa, gays, empresários, esportistas, sobre todo tipo de assunto e segundo o interesse do público-alvo. Também existe a vantagem de que não é preciso ler 60 anos de quadrinhos para saber o que está acontecendo na história (a exemplo do que ocorre nos quadrinhos norte-americanos). Quando um quadrinho japonês acaba, ele acaba”.

Seja por hobby, seja por profissão, essas mulheres dedicam suas vidas aos quadrinhos pela paixão que sentem pela chamada nona arte. “O que me motiva é o amor pela arte. Enquanto esse amor não morrer, vou continuar produzindo, independentemente de saber que tem alguém lendo”, sintetiza Verônica Saiki.
>> DIÁRIO DE PERNANBUCO – por Pedro Brandt

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