“DUMA KEY” DE STEPHEN KING: ASSOMBRAÇÃO NA ILHA DO HORIZONTE

O novo livro de Stephen King traz uma história densa
sobre uma ilha assombrada

[digitalizar0001.jpg] É Stephen King. O que significa que bem, ou mal, quem gosta da literatura de King vai poder se debater, chutar e reclamar, e tentar em vão lutar contra a falta de uma linha condutora para os pavores da história (e toda a história de terror tem uma linha condutora firme e luminosa que vai alinhavando os pavores. Com excessão, talvez, de “A Casa da Colina”), mas ao final, se deixará levar. E isso é bom, mesmo quando é ruim.

Vamos por partes, ou corro o risco de ser tão dispersa quanto o mestre em sua obra mais recente. O livro é “Duma Key”, editado no Brasil pela Objetiva, com tradução de Fabiano Morais. Mário Carneiro Jr., da Biblioteca Mal-Assombrada, afirma que o livro “é inclassificável”, no que fecho com ele. Alguns sites da internet exibem o condinome de “A Maldição”. Não se deixe engambelar: maldições são coisas absolutamente simples e claras. Cristalinas. “Duma Key” é tudo, menos cristalino. A impressão que dá a certa altura, é que o autor simplesmente se perdeu.

Aliás, quanto a isso, várias resenhas comentam que dois terços do livro são uma preparação para o final. Alguns até arriscam: “não que sobre texto, mas…”. A verdade é que esta não é uma das histórias sarapintadas de mortos que se levantam do túmulo, vampiros classicões ou coisas do gênero. Durante três quartos do livro, Stepehen King faz autêntica literatura fantástica: aquela em que você fica em dúvida se é fantasia ou realidade o que acontece. Somente no último quarto do livro é que o leitor se encontra com o palpável de sempre. Mas é, também, onde o texto, talvez por entrar nos trilhos de sempre, perde ímpeto. E, todo o caso, é Stephen King e por mais que possamos criticar uma obra sua, ele é um autor de primeiro linha.

Uma coisa que se deve destacar como altamente positiva, é a tradução. Entre tantos enxertos e presunções reais que assombram a tradução no mercado brasileiro, o trabalho de Fabiano Morais em “Duma Key” é de tirar o chapéu (veja uma entrevista com o tradutor no blog “Projeto 19”, clicando aqui). É uma tradução meticulosa, trabalhada, esmerilhada, realmente um primor. Algumas frases em espanhol deixam a desejar, mas aí não se sabe se não é o texto em inglês que falha (e eu creio que sim). O texto original, sobretudo nos desvarios disléxicos de Edgar Freemantle e (sobretudo) Elisabeth Eastlake devem ter sido um desafio verdadeiro. E é graças à boa tradução de Morais que “Duma Key” chega com sua beleza e força às nossas mãos.

A sinopse é simples: Edgar Freemantle sofre um terrível acidente no qual perde o braço direito. No processo de recuperação ele vai morar sozinho em Duma Key, na costa oeste da Flórida. Lá ele desenvolve seu talento artístico (Edgar é canhoto), e lá King explora de maneira bastante pessoal o tema dos membros fantasma, longamente documentado na crônica médica. O autor retrata com sua habitual performance a recuperação do personagem, seus traumas e seu sofrimento.

Contudo, a idéia do membro fantasma não vai longe na trama. Ou talvez se pudesse dizer que ele perde força mesmo que permaneça até o epílogo da narrativa. É como se a linha de raciocínio se perdesse ou fosse abandonada em benefício de outra. Uma ilha assombrada, talvez? Sim, boa ideia! Mas assombrada pelo quê?

Um navio fantasma parece ser o ideal. Aliás, em Duma Key, Jack Sparrow, o capitão do Pérola Negra, ia se sentir em casa. Um navio, então, mas não qualquer navio, um com um nome grego. Você acha que encontrou na esposa de Hades uma luz na tempestade, mas raciocína que ela não era muito ligada ao mar. Então o leitor irriquieto vai ao Dicionário de Mitologia e se encontra com a mãe de Circe, uma oceânida de respeito, e grita “bingo! Mãe de peixe, peixão, é!”. Bruxa, quero dizer. E por um instante o jogo do “quem sou eu” que Duma Key joga com o leitor parece algo que a gente já leu, talvez em “O Ladrão de Raios”.

De qualquer maneira é isso, mas não exatamente. Eu passei o livro inteiro procurando uma linha que me levasse, enfim, à assombração real (disparate dizer isso, mas não quando há um livro de King pelo meio), exatamente como quando li “A Casa da Colina” e passei o tempo todo intimidada por uma assombração que se negava a dizer porque assombrava, e que se negou até o amargo fim de Elinor, apavorando ainda mais porque não se tinha certeza se que de fato era uma assombração.

“Duma Key”, enfim, se revela. É como se a ilha inteira fosse a Casa da Colina, mas no fim não fosse. E quando a assombração finalmente se aclara, você pensa muitas coisas. Você pensa “certo, então era isso” (e lembremos que com King “só isso” é, muitas vezes, bem mais do que o suficiente). Você pensa – e isso é culpa do próprio King, que nos ensinou a pensar transversalmente, lançando mão de referências culturais contemporâneas o tempo todo – você pensa “hum, a “Bússola Dourada, Philip Pullman, 1995”. Você pensa “ah, sim, Calipso, Piratas do Caribe no Fim do Mundo, 2007”. Você pensa “mas se a coisa é a referência, porque diabos não citar todas as referências, mesmo, assumidamente?” Talvez porque a memória é uma traidora mentirosa, ou, como diria Edgar num dos seus rompantes de fúria, uma trairosa mentidora?

“Duma Key” é um daqueles livros ricos em referências culturais norte-americanas com que King tanto gosta de nos brindar. Mas de vez em quando a pena desliza e diferentes personagens oferecem diferentes referências com a mesma estrutura textual (a utilizada aí acima), o que incomoda um leitor mais atento. O deslizar da estrutura – ou o fato de a linha narrativa não estar muito clara, no que diz respeito ao fantástico da história (sabe-se que algo atua em Duma Key, mas não se sabe o que é) – também incomoda, mas pelo menos não trai a inteligência do leitor.

O livro apresenta muitas passagens realmente maravilhosas: a descrição do local, sobretudo do Casarão Rosa, é uma das melhores coisas que já li de King. Literalmente é possível ouvir o som das ondas sob a casa, revolvendo as conchas. A aparição final também é bela, poética e muito sensível, apesar de terrível. E é uma novidade para mim ler um texto de King onde não haja víceras e sangue escorrendo das páginas – mas também, fazia algum tempo que não lia nada dele – nem as cenas de sexo que costumam estar presentes em seus romances. A narrativa que antecede a exposição de arte de Edgar é simplesmente perfeita nos medos e titubeios do personagem e, como sempre, porque este é o verdadeiro tema do autor e não o sangue e pavor que consegue fazer crescer nos corações dos leitores, esta é mais uma vez uma história sobre amor, amizade e superação. Todo o resto é pura literatura factível. Ou viagens no Google Earth. É que com a ferramenta na mão é impossível não “visitar” o litoral da Flórida e ver algumas das paisagens citadas no livro, como a cidade de Tampa ou os maravilhosos pores de sol do Golfo, que pontuam a narrativa. Você também pode “ir” até Egmont Key, no meio do delta da Baía de Tampa e “visitar” a praia de palmeiras mortas, mais ao sul da ilha… Ao sul, brrr. Se algum lugar no mundo é Duma Key, esse lugar é Egmont Key, pode estar certo disso.

Agora, no meu entender, o grande momento do livro são os capítulos “Como Fazer um Desenho”. Na verdade, King entrega aos seus leitores e aos escritores que virão, uma verdadeira aula sobre o que realmente interessa na Arte. Qualquer Arte. Ele usa o tema da imagem, do desenho, como metáfora, mas o processo criativo, na verdade é o mesmo para todas as formas. Um escritor, afinal de contas, “desenha” com as palavras, cria frases que evocam imagens e sensações na mente de quem lê. Nas lições de “Como Fazer um Desenho” (de I à XII) o autor é realmente honesto. Além de raiar a poesia, nos mostra a importância do processo criativo para qualquer pessoa em qualquer idade e nos faz pensar no que a Arte realmente significa. No que ela realmente deveria de significar: redenção.
Todo o resto, como ele diz ao final, é apenas vida.
>> PORTEIRA DA FANTASIA – por Simone Saueressig

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