O MEDO, O HOMEM E A LITERATURA

“A emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo é o medo do desconhecido.”
( H. P. Lovecraft )

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A literatura é uma arte de constante provocação, de pura inquietação. Provoca a beleza, provoca o espanto, encanta, surpreende, recria e cria. Leva de leve pelas mãos e inesperadamente joga o leitor entre sombras de dor ou lago de risos. Com ela, sentimentos como o amor, a raiva, o ciúme, a esperança, a tristeza, a alegria, o desejo, a inveja, a amizade e tantos outros, recontam a historia do homem. Seres comuns, divinos, fracos, homens, bichos e deuses, meros objetos, nada nem ninguém passa impune, ou imune, pela obra literária.

O poeta, o escritor, o romancista, aquele que tem em mãos o papel, o lápis, o computador, e nos pensamentos uma inquietação uma eterna procura, é ele o demiurgo, o criador e a criatura das palavras. Escuta os sussurros das épocas, dos homens, da vida e desenha com seus vocábulos um universo, o texto.

Entre os sentimentos que caminham junto ao homem, é o medo, ao lado do amor, um dos sentimentos mais constantes. E do medo a literatura fantástica suga cada suspiro, transformando em verso ou prosa cada bater de um coração assustadiço. Quando fala-se em literatura sombria, fantástica ou mórbida, uma questão que incomoda, e por isso importante, por parecer ainda enigmática e sem solução, é a aparente dicotomia entre terror e horror. Ambas arrepiantes, ambas controversas.

Há, de fato, a necessidade de se optar por uma delas quando a pretensão é escrever sobre o gênero? Após algumas pesquisas e leituras sobre o assunto, a questão ainda é um entrave, que parece ainda maior entre escritores e críticos da literatura de terror/horror. A princípio, o horror parece ser uma reação física ante o medo, ao sobrenatural, ao desconhecido, a ameaça e crueldade da realidade. Nos dicionários, a definição das mesmas parece convergir, vejamos algumas delas:

Terror sm. 1. Estado de grande pavor. 2. Grande medo ou susto. Terror sm. 1. Estado de grande pavor ou apreensão. 2. Pessoa ou coisa que espanta, aterroriza. Horror sm. 1. Sensação arrepiante de medo, de pavor. 2. Receio, temor. 3. Repulsa, aversão. 4. Aquilo que inspira horror.
Horror sm. 1. Atrocidade, barbaridade. 2. Que causa pavor. 3. Grande medo, pavor. 4. Repulsa; aversão.

Alberto Manguel (2005, p.10) em sua coletânea Contos de horror do século XIX, retoma o pensamento de Ann Radcliffe, na tentativa de definir essa conturbada relação entre terror e horror “O terror e o horror possuem características tão claramente opostas que um dilata a alma e suscita uma atividade intensa de todas as nossas faculdades, enquanto o outro as contrai, congela-as, e de alguma forma as aniquila”. Edgar Alan Poe e Lovecraft, mestres da literatura sombria, inspiram algumas dessas dicotômicas definições. O terror de Poe seria mais explicito, em Lovecraft, sugerido, inominável, de fato, oculto. Entende-se explicita não a falta de suspense ou mistério, e sim a capacidade de mostrar ao leitor o cadáver, podridão, a tortura, a loucura. Medos reais e concretos, ainda que misteriosos. Lovecraft, ao descrever o terror, ou apenas ao sugerir cenas tão terríveis que não poderiam ser descritas, oculta aos olhos do leitor esse pavor absoluto, para o autor, a “atmosfera, não ação, é o grande desiderato da ficção fantástica. Com efeito, uma história de espanto jamais será senão uma pintura viva de certos tipos de estados de espírito humanos”, assim, o terror pode ser sanguinolento, chocante. O horror, indizível assustador.

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No entanto, Poe jamais poderia ser lido senão como um mestre do suspense, estando novamente assim as contradições das definições. O horror mostraria ao homem um universo que se esconde, que a imaginação, em momentos inesperados, consegue conceber, e temer. O terror é a incerteza, a angústia de esperar pelo que vem depois do corredor escuro, é o que rege a condução lenta e inexorável ao mundo sombrio. Mas, o terror gera o horror? Ou o horror gera terror? Não são ambos assustadores? Mais que respostas, neste trecho fica a indagação, a pergunta no ar, e a construção do conhecimento debatendo-se entre uma e outra definição. Para esta autora, ainda inconclusa esta dicotomia, sendo, pois, ambos os sentidos interligados de forma intima.

Em temas literários, falar em literatura de terror é sondar o medo, e os temores que rondam o homem. Teme-se ao conhecido, ao sangue que pinga dos jornais, às guerras, à loucura. Teme-se também ao desconhecido, ao exótico, aos mistérios e fenômenos sem explicações, estes, principalmente estes, sempre assustaram.

Do que o homem tem medo? Alturas, escuro, adoecer, envelhecer, insetos, solidão, monstros reais ou imaginários, a insanidade, fantasmas, os vivos, os mortos, bandidos, morrer, viver, espíritos… teme-se aos seus próprios fantasmas, a sua imaginação. Tudo que apavora, que sussurra um fuja imediatamente, ou que paralisa na angústia do horror absoluto é o medo. Esse medo pode ser comum, raro, misterioso, ridículo (aos olhos de quem não o sente, é claro), insano ou cruel.

O que o ser humano é capaz de fazer para enfrentar os seus medos, aliás, onde buscar coragem para enfrentá-los? O que fazer então para não torná-los parte da realidade, para não tomarem a essência de cada ser? A paralisia, a fuga, os sentidos e reações confusos e assustados esperam a resposta. E como nem sempre ela vem, a conseqüência dessa ausência pode ser inimaginável. Se a Literatura questiona, reflete ou revela o homem seus sentidos, amores e dores, também revela os seus medos. E a morte é um dos principais medos que a humanidade enfrenta, é no terror da morte que o gênero terror mais resplandece em suas sombras. Na historia do ser humano, a morte é a aproximação do inexorável, oprimindo os sentidos e sentimentos, pode ser temida, pode ser ignorada, pode ser desejada. Entretanto, mais que a morte, o que vem depois dela parece ser a grande perturbação do homem.

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Leva-me à região da paz horrenda*
A morte e seus mistérios sempre causaram inquietação. E dessa inquietação, os causos, os sustos, as inesperadas aparições, tudo transforma-se em um instigante gênero, a literatura de terror, de suspense, fantástica, assustadora ou surpreendente.

No conto A mão do macaco, de W. W. Jacobs, a morte e as tentativas de vencê-la acabam gerando um terror infindo, uma mão seca e mumificada, traz consigo o poder de realizar três desejos, mas o preço pode ser terrível.

“o rosto de sua mulher lhe pareceu mudado quando entrou no quarto. Estava pálida e sôfrega, e, para aumentar a sua inquietação, tinha um aspecto sobrenatural. Sentiu medo dela. ‘Ande, faça o pedido’, ela ordenou, com voz forte. Ele hesitou ‘é loucura, uma crueldade. ’ ‘Peça’, a mulher repetiu. Ele ergueu a mão do macaco. “Eu peço que o meu filho viva novamente”

Desse ponto em diante, o que a mão do macaco trouxe à família, somente a leitura do conto pode dizer. No entanto, são clássicas na literatura as tentativas de dobrar a morte, Frankenstein de Mary Shelley, um dos mais complexos, amado, temido e sentido monstro da literatura de terror, revela esse desejo oculto e as conseqüências desse querer. O romance nos leva à saga do jovem cientista Victor Frankenstein, que constrói em seu laboratório uma criatura, um monstro feito com pedaços de corpos e metais, cadáveres e molas, tentando recriar o ser humano. Quando por fim a criatura vive, horrorizado com o seu feito, o cientista foge, abandonando a sua obra, ou ainda, o seu filho. Este romance inspirou uma imensidão de obras do gênero em terror e sempre pode ser considerado atual, pois a morte e as tentativas de vencê-la não se esgotaram na ciência, tampouco na literatura. E gera medo. O temor da ciência, do desconhecido, do poder sobre a mais invencível das muralhas, a Morte.

Entre tantos conceitos que permeiam a literatura fantástica no gênero terror, é preciso considerar que, na medida em que o texto literário embriaga-se destes temores, não está, como julgam tantos, divulgando, promovendo, instigando ou influenciando a insanidade, a irracionalidade do ser humano. A ferida quando exposta, a chaga sangrando é o alerta, a denuncia, e principalmente, o alívio, o alívio da tensão, do dia, da noite insone, da noite solitária, do não, do sim, do cotidiano esmagador, do que não se explica, do que dói sem nem sempre saber o porquê. Este alívio das tensões é o desabafo, a catarse.

É na literatura dita macabra, em cada página, letras e textos oriundos da mentes sensíveis ao sombrio que o homem pode reencontrar-se consigo mesmo, com os fantasmas que o perseguem, ainda que seus olhos levantem-se inquietos e, até mesmo o silêncio o assuste enquanto lê, a segurança do distanciamento promove o encontro, a busca, o desafio, até mesmo a indiferença de múltiplas emoções.

O medo, quando explorado na literatura, reflete as sensações enfrentadas na vida dita real. A função catártica da literatura é a purificação, o sentimento de alivio, de expurgar a angústia das situações de tensão. O texto literário pode ajudar o indivíduo a conhecer-se e a conhecer a sociedade em que vive. O homem precisa, mais do que nunca, saber ao que teme, e toda a sua complexidade reflete-se nas letras.
* Morte (Junqueira Freire)

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Catarse: da angústia ao alívio
Questiona-se, no entanto, se essa exposição constante não o tornaria indiferente, insensível à dor que porventura verá. Será então que o aumento da violência traz insensibilidade? Estamos insensíveis ao horror? O ser humano tornou-se embrutecido ou essa brutalidade sempre esteve ali? O que leva uma pessoa a interessar-se por acidentes, brigas, ou outras cenas mórbidas? Programas e filmes que exploram a violência ganham em audiência, notícias macabras, atos mórbidos seduzem a curiosidade e atenção de toda uma nação, e nem por isso, saem repetindo os atos assustadores que presenciam. Assim, quem não gosta de histórias de terror, alimenta o seu medo em outros campos.

Não há verdade absoluta, tampouco para as perguntas acima, o que nos sensibiliza passa pela historia de vida de qualquer pessoa, e em cada resposta, única e pessoal, pode estar presente o conceito da catarse, no alivio, no reconhecimento de estar a salvo, distante e vivo. Ainda que aterrorizado.

A catarse está no repouso após a febre, e quando não explora o indizível, mas volta para o cruel, talvez ali esteja o desejo de sacudir, despertar o leitor, acordar o homem da indiferença que o toma, pois o medo sufoca, e uma das opções seria tentar afastar-se, separar o que nos causa repulsa é humano e histórico que o desconhecido agride, mas jamais pode-se fugir do medo.

A própria sabedoria popular nunca deixou a o suspense se perder, não se deixa as historias de medos perderem-se, e cada ato ou momento de terror ou suspense, permanece lembrando ao homem a sua pequenez. O Futurismo, movimento de vanguarda, mesmo não tratando de literatura de terror, tem esse aspecto de dar a bofetada, de agredir, de sacudir para acordar, e nesse sentido, aproxima-se de algumas histórias cuja crueldade podem ser esse soco, essa bofetada, esse amor ao perigo.


“Fico na frente da televisão para aumentar o meu ódio. […] Quero muito pegar um camarada que faz anúncio de uísque. Ele está vestidinho, bonitinho, todo sanforizado, abraçado com uma loura reluzente, e joga pedrinhas de gelo num copo e sorri com todos os dentes, os dentes dele são certinhos e são verdadeiros, e eu quero pegar ele com a navalha e cortar os dois lados da bochecha até as orelhas, e aqueles dentes branquinhos vão todos ficar de fora num sorriso de caveira vermelha. Agora está ali, sorrindo, e logo beija a loura na boca. Não perde por esperar”. Este trecho de O cobrador, conto de Rubem Fonseca (1979), em uma escrita seca, ácida e urbana, convida a uma mente criminosa e doente de ódio. Nas cidades, a névoa, os becos, as sombras, a solidão, a insanidade, a violência, a dívida de sangue da sociedade, a indiferença e a crueldade são alguns dos elementos que propiciam o ambiente de terror. O horror descarado, angustiado, sangrento, cruel, espirrando sangue e angústia no leitor (…) Tirava o facão de dentro da perna quando ele disse, leva o dinheiro e o carro e deixa a gente aqui. Estávamos na frente do Hotel Nacional. Só rindo. Ele já estava sóbrio e queria tomar um último uisquinho enquanto dava a queixa à polícia pelo telefone. Ah, certas pessoas pensam que a vida é uma festa”(…) Ela está grávida, ele disse apontando a mulher, vai ser o nosso primeiro filho. Olhei a barriga da mulher esguia e decidi ser misericordioso e disse, puf, em cima de onde achava que era o umbigo dela, desencarnei logo o feto. A mulher caiu emborcada. Encostei o revólver na têmpora dela e fiz ali um buraco de mina.

Neste mesmo conto de Rubem Fonseca (1979) é a crueldade o principal mover dos fatos, assim como a dor, a angústia da inadaptação, da insanidade, e por fim, de uma estranha missão, do humano animalizado, bestial, como podemos ver em cada ato do cobrador, “Ergui alto o alfanje e recitei: Salve o Cobrador! Dei um grito alto que não era nenhuma palavra, era um uivo comprido e forte, para que todos os bichos tremessem e saíssem da frente. Onde eu passo o asfalto derrete.” O conto não trata exatamente do terror convencional, mas sim do horror de uma sociedade inesperada, do ódio, da morte, dos jogos de poder entre razão, emoção e sociedade. A paz aparente de quem cruza a rua, vivendo os seus dias com a efervescente mornidão que o cotidiano impõe, pode, de repente, ver-se frente a um cobrador. Toda tranqüilidade rompida em sangue, dor e asfalto derretido. Assim, enquanto o terror explora o indizível, o que inquieta e oculta-se, o horror sangra, causa repugnância, nojo e pavor. O terror representa o rompimento com o que era dito normal, a aparente estabilidade interrompida. Em um momento de paz e tranqüilidade não há espaço para o medo, porém, quando essa tranqüilidade se vai, o espaço que antes era calmaria torna-se, em segundos, uma realidade que aperta e esmaga os sentidos. Assim, a um vulto vislumbrado, a um som que não se explica, o coração acelera, a pele arrepia-se, os instintos gritam silenciosos, eis o medo, eis o terror. Ainda que depois o vulto se descubra em moveis, os ruídos em normalidades de um cotidiano, o medo marcou a presença. Vive-se o medo, lê-se o medo. Nas historias de terror, o medo traduz-se em seres e lugares enigmáticos, seres malignos, fantásticos, espíritos, fantasmas, feiticeiros, bruxos, monstros cuja aparência pode ou não refletir a crueldade de seu intimo. E em cada local, insurgem-se os velhos castelos, casas abandonadas, catacumbas, florestas, ruínas, casebres, o mar, as montanhas, o inferno. Também os mistérios da ciência, as ousadias dos homens em busca do conhecimento, os seres misteriosos, magia, geralmente, são estes os aspectos básicos da literatura de terror.
>> CASA DAS ALMAS – por Tânia Souza

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