“POEIRA- DEMÔNIOS E MALDIÇÕES”: NELSON DE OLIVEIRA LANÇA NOVO ROMANCE

Das bibliotecas públicas aos banheiros particulares, um mundo abarrotado de livros – tantos que os governos tiveram de proibir o lançamento de novas obras. Ainda assim, edições clandestinas continuam brotando misteriosamente por toda parte. No recém-lançado Poeira: demônios e maldições (Língua Geral, 399 páginas, R$ 45) – obra escrita originalmente em forma de folhetim e publicada pela revista Rascunho entre novembro de 2006 e março de 2008 – Nelson de Oliveira explora a fantasia distópica para fugir dos temas tradicionais. Escritor de vasto currículo, Nelson, nesta entrevista, fala de suas admirações e dos escritores da Geração Zero Zero.

Por que a decisão de escrever um romance em forma de folhetim?
– Ter publicado Poeira: demônios e maldições em capítulos, ao longo de um ano e meio, num jornal mensal como o Rascunho, foi uma ótima forma de testar o romance antes de lançá-lo em livro. Eu me beneficiei bastante dos comentários dos leitores que acompanharam o folhetim. A partir desses comentários eu pude fazer as revisões e os ajustes necessários na narrativa, deixando-a mais redonda para a edição em livro.

O folhetim era um veículo de informação que disseminava a cultura de massa. Como é escrever um folhetim hoje?
– A ascensão do romance coincidiu com a ascensão da imprensa. Os romancistas pioneiros do início do século 18 – Defoe, Richardson, Alexandre Dumas e Fielding – pensavam primeiro no jornal, quando escreviam. Boa parte dos romances de José de Alencar e Machado de Assis circulou primeiro em forma de folhetim. Não havia o rádio nem a tevê pra veicular narrativas em capítulos de tempos em tempos. Escrever um folhetim hoje, na era eletrônica, é apenas uma maneira de homenagear os velhos mestres.

Que relação você pode fazer entre Poeira: demônios e maldições e a tradição da fantasia distópica, na linha de Karel Capek, Huxley, Orwell, Philip K. Dick, Vonnegut?
– Bem, trata-se de uma tradição rica de possibilidades narrativas, mas estranhamente pouco exercitada no Brasil. Eu queria muito fugir dos temas mais convencionais da literatura brasileira contemporânea: periferia, favela, sertão, dramas domésticos, crises conjugais, adolescentes pirados etc. Nossa literatura contemporânea está muito ligada à vida comum. Então decidi ir atrás da vida incomum.

Entre os autores citados, de quem você se sente mais próximo?
– Philip K. Dick é um autor que nunca me canso de reler.

Paisagem e ambientação lembram filmes de ficção científica (Metrópolis, Blade Runner). Você tinha o cinema na cabeça ao escrever o romance?
– Conscientemente, não. Mas eu sou da geração do cinema e da tevê, pós-rádio. Na infância, antes de ler meu primeiro livro, eu já assistia aos deliciosos seriados da década de 70: Jornada nas estrelas, Viagem ao fundo do mar, Terra de gigantes, Túnel do tempo, Perdidos no espaço etc. Passei os anos 70 e os 80 nas salas de cinema. Vi e revi muitas vezes Blade runner, Guerra nas estrelas, Tron, Contatos imediatos do terceiro grau, Alien, todas as distopias e utopias lançadas pela indústria cinematográfica. Então, querendo ou não, creio que tudo isso acaba aparecendo de um jeito ou de outro em minha literatura.

A situação narrada no romance é o inverso de Fahrenheit 451, o filme de Truffaut baseado no romance homônimo de Ray Bradbury, em que os livros estão proibidos?
– Exatamente. No meu romance o mundo está abarrotado de livros. Salas, quartos, banheiros, corredores, ruas, prédios lotados de livros. Um mundo tão cheio de livros, que todos os governos tiveram que proibir o lançamento de novas obras. Mesmo assim, edições clandestinas, ilegais, continuam aparecendo misteriosamente em toda parte.

A orelha do livro fala em realismo fantástico. Você concorda?
– Concordo. A trama do romance se passa numa realidade alternativa, estranha, porém realista. Ou seja, numa realidade semelhante à nossa, coexistindo com a nossa, mas diferente em alguns pontos. Mais fantástica e estranha do que a nossa.

Há livros demais?
– Fiquei muito atento à afirmação do poeta mexicano Gabriel Zaid em seu livro que se chama justamente Livro demais!: “A leitura de livros está crescendo aritmeticamente, a escrita de livros, exponencialmente. Se nossa paixão por escrever não for controlada, no futuro próximo haverá mais pessoas escrevendo livros do que lendo”.

Sua produção literária é grande, como foi a de Anthony Burgess, outro escritor chegado a uma distopia. Há quem diga que escrever muito não é bom. Como você lida com isso?
– Ah, se o mundo fosse tão simples… Teríamos aí a fórmula da qualidade: bastaria escrever pouco para escrever bem. Mas não considero minha produção grande. Meus livros em geral não são muito extensos; eles normalmente têm 100, 150 páginas. José Saramago e Lobo Antunes, por exemplo, são muito mais prolíferos do que eu. E são grandes autores. Além disso, conheço dezenas de escritores que escrevem e publicam pouco, e mesmo assim não são bons.

Você organizou duas antologias sobre a Geração 90. O que se passa com a Geração 00? Você poderia definir uma tendência e citar nomes representativos?
– A Geração Zero Zero (prefiro grafar assim, zero zero, pra evitar que um desavisado acabe lendo ó ó) está produzindo intensamente. Tempos atrás eu publiquei no Rascunho um artigo sobre sua principal característica: o bizarro [alguns dos citados são Flávio Viegas Amoreira, Paulo Bullar, Paulo Sandrini, Rogério Ivano, Daniel Pellizzari, Veronica Stigger]. No final deste ano sairá pela editora Boitempo, a mesma que publicou as duas antologias da Geração 90, a antologia desse novíssimo time de prosadores.

Quem é Luiz Bras?
– É meu alter ego. Luiz Bras nasceu em 1968 numa cidade fictícia chamada Cobra Norato, cenário da maioria de seus livros. Publicou várias obras para crianças e jovens, entre elas A última guerra (editora Biruta), e em breve lançará sua primeira coletânea de contos para o público adulto, intitulada Paraíso líquido, também pela editora Biruta. Mais informações sobre ele podem ser encontradas em .

>> JORNAL DO BRASIL – por Luisa Bustamante

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: