“GASPARZINHO”: ÁLBUM AJUDA A ENTENDER TRAJETÓRIA EDITORIAL DO FANTASMINHA CAMARADA

Gasparzinho, o Fantasminha Camarada. Crédito: divulgação

Capa de "Gasparzinho - O Fantasminha camarada", obra que começou a ser vendida nesta virada de semana

Há uma curiosa contradição sobre Gasparzinho. O fantasma bonachão é uma figura mundialmente popular, conhecida por mais de uma geração. Mas, ao mesmo tempo, pouco se sabe sobre sua gênese ou seus criadores. “Gasparzinho – O Fantasminha Camarada” corrige tais lacunas de informação e (re)apresenta as primeiras histórias em quadrinhos dele, criadas há mais de 60 anos.

O álbum começou a ser vendido em lojas de quadrinhos nesta virada de semana (Devir, 192 págs., R$ 26,90) e traz 40 aventuras, produzidas pouco depois da estreia dele nos cinemas. O primeiro desenho de Gasparzinho foi exibido pela primeira vez em 1945.

“The Frindly Ghost”, título do desenho de estreia, dava forma a uma idéia dos animadores Seymour Reit e Joe Oriolo. Os dois imaginaram o personagem pouco antes de irem para a Segunda Guerra Mundial. Quando voltaram aos Estados Unidos, venderam o projeto à Paramount.

A animação foi feita pelo Famous Studios, da Paramount Pictures. O estúdio era o mesmo que produzia desenhos com músicas. Foi outra animação que marcou a geração que hoje tem 30, 40 anos. Uma bolinha acompanhava as palavras da canção, mostradas numa legenda, na parte de baixo da tela.

Gasparzinho ganhou outros dois filmes animados, um em 1948 e o outro um ano depois. A exibição da terceira animação coincidiu com o lançamento do fantasminha nos quadrinhos.As histórias foram criadas pela editora St. John e repetia no papel os enredos da tela. O protagonista procurava fazer amigos, mas sempre assustava involuntariamente as pessoas.

A primeira aventura, de 1949, é a que abre o álbum – a primeira página é mostrada abaixo. Cansado de afugentar todos com quem conversa, o personagem tenta se suicidar, pulando de um penhasco – sim, o público-alvo eram crianças.Como é um fantasma, não morre. Mas isso o ajuda a encontrar um príncipe, de quem, enfim, fica amigo e passa a ajudar.

A fase mais marcante do fantasminha nos quadrinhos teve início em 1952, com o lançamento de “Casper, the Friendly Ghost”.A revista foi publicada por outra editora, a Harvey, que iria comprar em definitivo da Paramount, poucos anos depois, os direitos do personagem.

O álbum traz a primeira aventura pela Harvey. A coletânea, que vai até 1954, marca também o início de uma transição nos temas abordados – Gasparzinho não se limitava mais aos sustos involuntários que causava.

 As duas histórias inaugurais – a estreia na St. John e na Harvey – são as únicas da reeditadas em cores. Segundo Leslie Cabara, responsável pela reunião de histórias, a opção pelo preto-e-branco nas demais é para manter a qualidade do traço dos desenhos originais.

Os quadrinhos da Harvey tinham o diferencial de serem produzidos por animadores do Famous Studios. Isso dava às aventuras um toque de desenho animado. Todos esses detalhes são explicados numa longa introdução, assinada por Jerry Beck, que a edição nacional acerta em reproduzir e que pauta as informações desta resenha.

O senão do álbum é justamente esse, o de ficar extremamente ancorado na versão norte-americana, lançada pela editora Dark Horse. Faltou à obra um texto que recuperasse a trajetória brasileira de Gasparzinho, o que aproximaria ainda mais o personagem às memórias dos leitores daqui.

O fantasminha teve revista própria, publicada pela extinta editora da revista “O Cruzeiro”. Na década de 1970, migrou para a Vecchi e, depois, para a Globo – a partir de 1987. Os antagonistas de suas histórias, como a bruxinha Luísa e o sarnento Lelo, também encabeçaram revistas em quadrinhos direcionadas ao leitor infantil.

Este novo álbum, ao contrário, alarga o público-alvo. Crianças podem até ler as aventuras ingênuas do fantasminha, mas o foco são mesmo os adultos, mesmo perfil de quem comprou os recentes livros de Luluzinha. A Devir lançou a primeira coletânea da menina travessa em 2006, com boa repercussão entre os adultos. O fantasminha é um personagem com trajetória muito parecida à dela. A obra tem os quesitos para atingir o mesmo público.
>> BLOG DOS QUADRINHOS – por Paulo Ramos

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