MACANUDISMO: A ESTRANHA ARTE DE LINIERS

Dia 25 de fevereiro, final de tarde no belo bairro Recoleta, em Buenos Aires. Em frente a uma praça e ao lado do cemitério de mesmo nome, fica o Centro Cultural Recoleta, um enorme solar do Século XVII, que já foi mosteiro, asilo e escola de desenho. Nessa tarde, uma multidão, na maioria jovens, entrava silenciosamente no edifício e se acotovelava no longo corredor, aguardando pacientemente a abertura das portas de uma exposição, marcada para as 19 horas.

Por trás das portas de vidro, podemos perceber quadros e desenhos com estranhas criaturas – animais e humanos -, que atraem a atenção dos visitantes. A exposição que vai ser aberta tem também um estranho nome: Macanudismo. Mas bastante familiar para quem acompanha a tira diária do autor: Macanudo

 

Por trás desses quadros e desenhos, existe a figura de seu autor, Liniers, uma criatura rara nos dias de hoje, criativa, carismática e generosa, responsável por essas visões absurdas e bem-humoradas; e que naquele momento estava dando uma entrevista para a MTV argentina e se preparava, junto com seu amigo, o cantor e compositor Kevin Johansen, para fazer uma performance musical e gráfica no pátio que fica no centro das três grandes salas ocupadas pela exposição. 

Passa um pouco das 19 horas quando as portas se abrem e 2.500 pessoas, conforme informação do próprio centro cultural, invadem salas e pátio. Nas salas, há uma profusão de imagens: centenas de tiras originais de Macanudo, páginas de seu livro Bonjour e de sua HQ Poster, cartazes, capas e ilustrações de livros, revistas e CDs. Há também enormes painéis e quadros, onde Liniers pode se expressar mais livremente, sem a obrigação de passar uma mensagem, contar uma história, ou obedecer os parâmetros estabelecidos de uma HQ. 

Não que ele se apegue às convenções e parâmetros ditados pelos suportes e formas de expressão que utiliza. Há vários destaques que demonstram isso na excelente exposição: a enorme e bizarra face pintada em um portal entre as salas ou o painel onde o artista utilizou 72 exemplares do exemplar número 6 de Macanudo (cuja primeira edição argentina teve as capas de 5.000 exemplares desenhados a mão por Liniers) para fazer um enorme mosaico. 

O que nos surpreende é a enorme produção do artista, e a qualidade e originalidade que ele consegue atingir em todos os suportes e meios utilizados. Esta produtividade podemos perceber também em uma visita às livrarias de Buenos Aires. Não é raro encontrarmos um novo livro de Liniers, ou ilustrado por ele, que nem sabíamos que existia ou tinha sido editado. 

 

No pátio central, o show de Johansen e Liniers começou um pouco depois, no palco armado ali armado. Sob a supervisão de uma enorme lua cheia, um poço de vários séculos e algumas palmeiras, a multidão de adolescentes acompanhou a performance dos artistas: os desenhos que Liniers fazia eram projetados em um telão em sintonia com as canções interpretadas por Kevin. O espetáculo terminou com o desenhista dando uma canja, tocando violão, gaita e acompanhando Johansen, em uma música de George Harrison: Give Me Love (Give me Peace on Earth)

Após a música de encerramento, uma pequena multidão de fãs já o esperava, munidos de livros do autor, aguardando pacientemente Liniers dar autógrafos, em pé, num canto do pátio: um artista generoso com sua arte e seu público. 

Macanudismo é uma rara oportunidade para se ter uma visão abrangente do trabalho do autor. Para quem está de viagem marcada para Buenos Aires, a imperdível exposição fica até o dia 28 de março de 2010, no Centro Cultural Recoleta, Junín 1930. Entrada franca. 

http://centroculturalrecoleta.org/ccr-sp/ 

PS: vale também uma visita à recém inaugurada estátua de Mafalda, personagem do desenhista Quino, que está placidamente sentada em um banco, no cruzamento das ruas Defensa e Chile, no bairro de San Telmo.
>> TERRA MAGAZINE – por Claudio Martini

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