“WATCHMEN”: COM QUANTOS QUADROS SE FAZ UMA OBRA-PRIMA?

Em meio a uma tempestade de informações, discussões, expectativas e opiniões geradas pela estréia do filme de Zack Snyder nos cinemas, é natural que venha à tona um questionamento primordial: Mas Watchmen é isso tudo mesmo?

A resposta a essa pergunta pode variar de acordo com o gosto de cada um, mas independente de variadas e calorosas interpretações, a publicação tem um único, inegável e intransferível valor para o universo dos quadrinhos.

Entre 1986 e 87, as 12 edições de Watchmen cairiam como um assombroso e impressionante cometa, destruindo paradigmas e conceitos muito bem estabelecidos em mais de 40 anos de cultura de heróis fantasiados.

A inédita perspectiva de Alan Moore, aliada à arte de Dave Gibbons e cores de John Higgins não só se tornou um sucesso instantâneo de crítica dentro e fora do mundo dos quadrinhos, mas como também um fenômeno de vendas que colocou a DC Comics, mesmo que temporariamente, à frente da campeã Marvel Comics.

Para entender melhor o que esse fenômeno representa, é necessário nos alinharmos com a genial mente de Alan Moore. Antes dele, ninguém nunca havia feito uma análise crítica e realista ao gênero dos super-heróis. Aliás, talvez nem houvesse razão, visto imensa suspensão de descrença necessária para se assimilar aquelas figuras coloridas de cuecas por cima das calças.

Tal tarefa era naturalmente o ofício de crianças e adolescentes, que não precisavam (nem deveriam) questionar o âmago de suas fantasias e aventuras. No entanto, Moore conseguiu captar e traduzir uma idéia que acompanhou uma geração inteira de fãs, que mesmo depois da vida adulta, ainda tinham olhos para seus heróis mascarados.

Segundo Moore, o objetivo era analisar a relação do ser humano com o poder. Neste âmbito, o pano de fundo escolhido foi o medo da guerra nuclear representado pelo conflito soviético no Afeganistão, algo real e contemporâneo à publicação da Graphic Novel.

Não obstante, as similaridades com o nosso mundo cessariam por aí, pois o aspecto mais importante por traz do complexo cenário de Watchmen seria, em essência, a alma da história.

O MANIFESTO SUPER-HOMEM

Se abrirmos uma revista mensal do Super-Homem, o veremos lutando contra as artimanhas de Lex Luthor, monstros mágicos e invasores alienígenas. Metrópolis enfrentará hecatombes de proporções bíblicas, mas no fim do dia, tudo voltará ao normal.

Não só isso, o mundo à sua volta e eventos históricos permanecem imaculados como conhecemos. Se subtraíssemos os super-seres e as super-ameaças, teríamos como resultado essencialmente um reflexo de nossa realidade.

A proposta de Alan Moore era outra. Se o Super-Homem realmente existisse, não teria sua simples presença moldado inevitavelmente nossa sociedade em algo profundamente distinto do que conhecemos?

Watchmen deu, pela primeira vez, uma interpretação política para os heróis.

Em uma homenagem à Era de Ouro dos quadrinhos, os Minutemen surgem na mesma época, entre os anos 1930 e 40, como a primeira expressão do vigilantismo mascarado. No entanto, a análise em questão ainda não está no comportamento de super-seres, já que não existe nenhum no primeiro grupo de heróis, e sim no de pessoas comuns, que escolheram se fantasiar e combater o crime.

Mas até mesmo a idéia de usar uma fantasia para bater em bandidos é analisada e ridicularizada na sociedade de Watchmen, como seria na nossa. Um dos membros do grupo, o Coruja, relata que quase morreu quando um bandido deslocou sua máscara, tapando sua visão. Quem não teve tanta sorte foi Dollar Bill, que teve sua capa presa em uma porta e morreu sob tiros de assaltantes de banco.

Detalhes bizarros muito bem construídos por Alan Moore, que se refere a tudo isso como uma piada cínica sobre super-heróis.

Que motivações reais poderiam levar alguém a este ponto? E de que forma eles se relacionariam entre si e com a sociedade? De que forma seriam diferentes de políticos, policiais, milícias ou qualquer grupo de autoridade que conhecemos? A resposta é: Não seriam.

Como é que a Psylocke, desfilando na Mansão Xavier de maiô cravado na bunda, nunca ouviu um comentário maldoso do Wolverine? Em Watchmen, a questão sexual dos mascarados não é só debatida, como levada até as últimas consequências.

Essa discussão se aprofunda muito mais com o surgimento do Dr. Manhattan em plena guerra fria, o único super-ser de fato, que é o cerne do argumento, muito bem estabelecido na trama pela referência: “Deus existe e ele é americano.”

Neste ponto começam as verdadeiras mudanças sociais e históricas em Watchmen, afinal como poderiam os EUA serem humilhados no Vietnã quando aliados a um deus?

REALIDADE ALTERNATIVA, HERÓIS DISTORCIDOS

Estabelecido o parâmetro díspar, o resultado dessa equação é um 1985 muito distante do que conhecemos. Tanto pelo progresso científico proporcionado pela mente e habilidades do Dr. Manhattan quanto pelas implicações políticas dos novos heróis.

No entanto, este admirável novo mundo se inclina mais para uma distopia que o contrário, quando o romantismo dos vigilantes mascarados se desfaz em consequências sociais que levam a uma greve da polícia, em protesto contra as insustentáveis e questionáveis atividades mascaradas. O resultado é a Lei Keene, colocando o vigilantismo na ilegalidade.

Qualquer autoridade responde a uma superior. A polícia responde ao governo, o governo responde ao povo. E os mascarados? A quem respondem? O que acontece é um resgate natural e do pensamento do poeta romano Juvenal “Quis custodiet ipsos custodes?” ou “Quem guarará os guardas?” ou “Quem vigia os vigilantes?”.

Como constantemente pichado nos muros da cidade: “Who watches the watchmen?”.

Aliás, essa é a única menção do nome Watchmen na história. Na verdade, nunca houve um grupo oficial de heróis depois dos Minutemen, apenas uma tentativa de formar o que seria chamado de “Combatentes do Crime” em 1966, com a segunda geração de heróis.

Estes trabalharam sozinhos ou em parcerias temporárias, mas nunca funcionaram como uma equipe.

O mais interessante são os mergulhos feitos nas origens de cada um desses personagens durante a trama, que revelam-se em cabais desconstruções da figura do herói, e em alguns casos levantam a questão de se o mundo não estaria melhor sem eles.

DR. MANHATTAN (Jon Osterman)

O único super-ser. Antes um cientista que teve acidentalmente seu corpo desintegrado em um experiência com campos intrínsecos, acabou se reconfigurando em uma figura semi-divina.

Pode ser considerado um benefício ou um perigo para a humanidade. Em tese, sua presença era uma mensagem clara aos comunistas de que a América detinha um poder supremo e indestrutível. Por outro lado esse poderia ser mais um motivo para a aceleração da corrida armamentista e a precipitação de uma guerra nuclear.

Mesmo com seus poderes quase ilimitados e sua onipresença temporal, o Dr. Manhattan vive em uma balança entre suas emoções humanas e sua indiferença divina. É sem dúvida o personagem mais complexo e enigmático de Watchmen. Talvez o salto mais extenso de Alan Moore na contemplação do imaginário, da filosofia e da ficção-científica.

RORSCHACH (Walter Kovacs)

Seu codinome é atribuído ao fato de sua máscara (ou face, como ele mesmo diz) mimicar os testes psicológicos de Hermann Rorschach, feitos através de pranchas com manchas de tinta simétricas.

Assim como o Dr. Manhattan representa o poder do Super-Homem, Rorschach é um retrato mais realista de Batman neste universo. Segundo Moore, um investigador com traumas de infância e consequências muito mais densas, que resultam em um homem de valores distorcidos, obsecado por uma vingança impalpável e em constante agonia psicológica.

A história de Rorschach é a mais assustadoramente real de todas e acontece todos os dias com milhares de pessoas. O tamanho da psicose em sua mente é um efeito irrefutável de sua aterradora vivência. A única diferença e que ela foi direcionada à punição do mal. Ou assim ele pensa.

COMEDIANTE (Edward Blake)

Podemos ver uma versão niilista do Capitão América encarnada no Comediante, aliás, talvez uma das faces mais verdadeiras da America. Cruel, cínico, egoísta, o Comediante é muito parecido com o Coringa de Batman – O Cavaleiro das Trevas (filme), ignorando convenções sociais e em sua crença de abraçar o caos para realmente entender como o mundo funciona.

ESPECTRAL II (Laurie Juspeczyk)

É uma bagunça emocional. Influenciada pela mãe (Espectral dos Minutemen nos anos 40), assume seu legado sem realmente entender as consequências disso. Era um caminho fácil e estava à sua frente, parecia lógico e justo, mas como em muitos casos reais, foi uma escolha que a acabou levando a uma vida vazia.

OZYMANDIAS (Adrian Veidt)

Inspirado em Alexandre, o Grande, Veidt foi um herói idealista, mas incompreendido. Mas título de ”homem mais inteligente do mundo” pode ser encarado, a princípio, como uma grande ironia da doutrina americana do consumismo, já que foi o único que se transformou em uma marca. Quase como um político, usou sua popularidade em prol de si mesmo, criando um império de produtos, merchandising e auto-ajuda.

No entanto, do alto do trono de seu império, Veidt se apresenta em sua intimidade sempre com uma expressão de tristeza e melancolia, como se soubesse que há algo terrivelmente errado com toda essa situação.

CORUJA II (Dan Dreiberg)

Talvez o mais sensato da nova geração de vigilantes, também faz alusão a Batman fantasiando-se como um animal noturno e com uma garagem cheia de gadgets. Mas em contraponto, suas motivações são românticas, baseadas em seu gosto por histórias de heróis e admiração por Hollis Mason (Coruja dos Minutemen).

No entanto, depois da Lei Keene, que tornou os heróis ilegais, se aposenta e vive uma vida sem propósito, à beira da depressão.

VILÃO INVISÍVEL

Apesar de existirem adversários tão loucos e fantasiados quanto os próprios vigilantes, em Watchmen, a falta do super-vilão desequilibra a equação debatida anteriormente. Sem super-desafios, restam aos heróis combaterem a intangível tragédia social que os cerca.

Mais uma vez cabe o questionamento: Qual é a eficácia de um herói sem vilão?

Seria a mesma de querer curar uma doença com analgésicos. Por mais que os vigilantes espanquem, prendam ou matem líderes do submundo, assim como acontece com polícia e bandidos na vida real, a verdadeira solução nunca é alcançada. Não há dedos suficientes para tapar todos os buracos de uma represa prestes a romper.

O ponto mais importante levantado por Alan Moore na série, é justamente como salvar a humanidade de si mesma. E qual é a relação desses malucos fantasiados com esta verdade? De que forma eles realmente poderiam fazer a diferença? E até onde eles mesmos foram responsáveis pelo caos que os cerca?

A RIQUEZA DE UM UNIVERSO

Watchmen conta uma intensa história de conspiração e mistério que se mantém até a última edição. Mas não é só no thriller que está a riqueza da Graphic Novel.

Alan Moore e Dave Gibbons criaram um universo inteiro, cheio de detalhes, signos e tantos níveis de compreensão, que é comum ainda ser surpreendido na 3ª ou 4ª releitura.

Apesar do relógio do apocalipse se aproximando da meia-noite ser um forte símbolo, a série acabou sendo representada pela imagem do smiley face, a carinha feliz manchada de sangue, que é um ícone perfeito para o motivo da série, a desconstrução do inocente universo dos super-heróis em uma fria e cruel realidade.

O smiley pode ser visto por toda a série como um tema recorrente, desde em faíscas de cabeça para baixo nos hidrantes elétricos, até na cratera de Galle em Marte (que realmente existe).

O espirro de sangue também se repete, às vezes como água, tinta ou mancha. Sempre presente em elementos significativos da trama, como um aviso, como uma exclamação.

Moore e Gibbons também mergulharam em uma viagem metalinguística inesquecível em Contos do Cargueiro Negro.

Através de um jornaleiro de uma banca de jornal de esquina, o leitor é apresentado ao cotidiano das pessoas comuns, indo e vindo, discutindo manchetes de jornais, seus medos e angústias. Em meio a tudo isso, um rapaz lê uma revista em quadrinhos.

A história dentro da história funciona como um artifício de sincronia entre fantasia e realidade, descrevendo paralelos entre o marinheiro perdido e as motivações e psiquês dos vigilantes de Watchmen. Também é uma brincadeira com o próprio universo.

Idéia de Dave Gibbons, em um mundo em que heróis mascarados existem de verdade, a fantasia dos quadrinhos fugiria deste tema, já saturado pela imprensa e medos populares, desviando-se para outros mitos, como por exemplo, histórias de piratas.

Watchmen sempre foi considerado por muitos como uma obra infilmável. O próprio Alan Moore defende isso até hoje. Aliás, essa foi, em espírito, sua intenção declarada ao escrever uma história repleta pequenos e minuciosos detalhes, easter eggs, múltiplos níveis de narração e compreensão.

O fenômeno justifica-se não só pelos seus méritos técnicos, mas como por influência que pode ser vista até hoje nas HQs Os Supremos, Alias (a detetive ex-Vingadora), Poder Supremo e outros selos adultos Marvel. E também fora delas, como por exemplo em Lost (influência declarada pelos produtores), Heroes, Os Incríveis e na narrativa realista dos novos filmes de Batman, de Christopher Nolan.

Este é o valor de Watchmen, embora possa parecer estranho para quem não se interessa por super-heróis, certamente transcende os círculos de seu meio, como demonstração do pináculo do talento artístico na criação de uma verdadeira obra-prima literária. Mesmo que esteja disfarçada com roupas coloridas e cuecas por cima das calças.
>> JOVEM NERD – por Alottoni

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