O FUTURO DAS TIRAS DOS JORNAIS, NO BRASIL E NOS ESTADOS UNIDOS

Um oásis de bom humor num mundo confuso

tira Yellow Kid
No dia 17 de fevereiro de 1895 foi publicada a primeira tira em jornal, do personagem Yellow Kid (acima). Cento e quinze anos depois, as pequenas histórias em quadrinhos encontram uma realidade bem diferente aqui e no resto do mundo. Cansado da competição e da pressão comercial, Bill Watterson, o criador de Calvin & Haroldo, largou a prancheta e foi viver recluso. Porém em seu livro comemorativo pelos 10 anos do garoto loiro e seu tigre de pelúcia, o artista resolveu desabafar através de um longo texto, reproduzido pelos fãs através da internet.

Afinal, as tiras correm o risco de extinção? Em entrevista ao Caderno B, o próprio Mauricio de Sousa declarou que o que ele mais gosta de fazer é justamente desenhar tiras, pois os assuntos das manchetes podem entrar rapidamente no diálogo com o leitor. E que pretende voltar a fazê-las ele mesmo, logo que puder encontrar tempo para isso.

APERTADO E EM PRETO E BRANCO
A primeira crítica de Bill Watterson se referia ao pouco espaço para escrever ou desenhar. Em sua opinião, as tiras do passado não eram só desenhadas de forma divertida, elas eram lindas de se ver.

—- Popeye usava até vinte quadros no domingo. Tiras contínuas quase desapareceram incapazes de manterem seus enredos atraentes com a redução de diálogo necessária em quadros pequenos. Agora nós temos tiras de piadas com desenhos simples em abundância, e nada mais.

Ele frisa que os jornais aperfeiçoaram seu impacto visual através de nova diagramação, mapas, gráficos e fotografias coloridas, mas relegaram as tiras a pequenas caixas preto e branco organizadas numa grade tediosa.

Pode ser, mas não é um problema dos Estados Unidos apenas. É o que diz Ricky Goodwin, diretor da agência Pacatatu, que distribui tiras em quadrinhos desde 1985 e representa quadrinistas como Ziraldo, Angeli, Laerte, Nani, Fernando Gonsales, Jean, Benett e André Dahmer.

—- Os jornais vêm diminuindo de tamanho, tanto no número de páginas quanto no formato. O que os editores não atinaram – ainda! – é que, pelas suas particulariedades, as tiras brasileiras vão além de um aspecto de “passa-tempo”, de narrar piadas, e tendem mais a tecerem comentários sobre o cotidiano da sociedade ou mesmo sobre os fatos relatados nas dermais páginas do jornal. Elas constituem também um elemento informativo-jornalístico opinativo além de serem humorísticas.

tira calvin fala das tiras de jornal

RENOVAÇÃO DE AUTORES
Apesar do estrondoso sucesso de Calvin & Haroldo, seu criador diz que há pouca renovação. No caso norte-americano, ele lembra que a personagem Belinda está nos jornais há setenta e cinco anos, enquanto Recruta Zero, Pimentinha e Peanuts estão todos na casa dos quarenta.

—- Há muito pouco giro no topo deste ramo. As tiras mais populares se tornam instituições e podem assegurar seus espaços no jornal por gerações. É difícil para uma nova tira chegar aos jornais, e poucas tiras sobrevivem por muito tempo.

Neste aspecto, Ricky Goodwin discorda, lembrando que, no Brasil, há muitos jornais ainda publicando poucas ou nenhuma tira.

—- O mercado não está sedimentado o suficiente para haver esses feudos. O espaço a ser desbravado é tamanho que tem lugar tanto pros famosos quanto pros desconhecidos. Outra diferença: os títulos americanos mais conhecidos são aqueles publicados há décadas e recriando situações dentro da mesma fórmula. No Brasil, nas tiras que duraram mais, os títulos podem ser os mesmos, mas dentro deles houve muita renovação, mudando-se os temas, o estilo e até os personagens principais.

E denuncia que o problema brasileiro é de ordem econômica.

— Há títulos americanos sendo publicados há anos nos jornais apenas por serem muito mais baratos – são oferecidos em pacotes absurdos, quase um dumping – e entre estes títulos predominam os mesmos de sempre. O público brasileiro desconhece o que foi criado de tiras internacionais não-ancestrais.

Quem faz coro é o professor do Observatório de HQs da USP, Waldomiro Vergueiro.

— A área de publicação de tiras de quadrinhos é muito competitiva. Aqueles que estão no topo tendem a permanecer lá, pois são conhecidos do público, representam uma produção sólida e com grande divulgação em outras mídias também.

bill watterson desenhado por ele mesmo

PERÍODO DE GRANDE TRANSIÇÃO
A verdade é que em meio ao centésimo aniversário, os quadrinhos estão num período de grande transição. Principalmente na Europa e Estados Unidos, são freqüentes as brigas sobre questões de controle criativo. Na opinião de Bill Watterson (na auto-ilustração acima), os quadrinhos estão iniciando uma das suas raras mudanças de geração.

—- Quando uma tira popular pode durar facilmente quarenta ou cinqüenta anos, os principais cartunistas definem a profissão por esse período. Recentemente, novos talentos conseguiram chegar até as fileiras do topo, trazendo junto algumas idéias diferentes sobre os quadrinhos devam ser.

A seu ver, a segunda grande transição é de interpretação artística. Afinal, nos dias de hoje, os quadrinhos são vendidos em galerias, ocupam museus, ganham prêmios e inspiram trabalhos acadêmicos. E, acima de tudo, continuam a ser uma forma de expressão pessoal.

—- Pode-se debater se a maioria dos quadrinhos é ou não uma Grande Arte, mas não se pode negar que os cartunistas e o público levam os quadrinhos mais a sério do que costumavam fazer.

E há ainda um ponto importante. Os quadrinhos foram inventados no final do século XIX, como um produto comercial para aumentar o público dos jornais. Daí que, naquela época, os cartunistas se consideravam jornalistas, não artistas. E mais, eram contratados exclusivamente para um periódico, enquanto hoje eles vendem seus trabalhos para o mundo todo através de sindicatos.

— A sindicalização encorajou a produção calculada de tiras para espelhar tendências e capitalizar nos interesses específicos de grupos demográficos desejáveis.

Ricky concorda que, em nosso país, não existam seções robustas de quadrinhos que justifiquem essa produção exclusiva. E completa:

— No Brasil o quadrinista ganha muito mal. Acaba tendo que publicar sua tira em outros veículos além daquele para o qual foi originalmente contratado, ou do jornal onde faz parte da redação. E olha que nos outros veículos sua remuneração também é tão pouco valorizada que é preciso realmente publicar em vários lugares para valer a pena financeiramente.

Já para o professor Waldomiro, essa questão é válida mais para o mercado
norte-americano do que para o brasileiro.

— Existem vários autores que publicam em apenas um jornal durante anos, mantendo um público cativo e servindo como uma espécie de espaço de desenvolvimento para jovens autores, antes que eles possam se aventurar em outras publicações.

O IMPACTO DA TV
Em sua reflexão, Watterson fala também sobre o a concorrência da TV e de outros meios audiovisuais e como isso afetou o mercado de trabalho.

— Um tira de jornal poderia uma vez ter atraído leitores de um jornal para outro, mas os quadrinhos não atraem pessoas da televisão. Os quadrinhos ajudam menos os jornais do que costumavam. Então os jornais olham para a página de quadrinhos como mais um lugar para cortar custos. Eles espremem mais tiras em menos espaços. Com menos palavras e desenhos mais grosseiros, os quadrinhos se tornam menos imaginativos e menos divertidos.

De fato, aos poucos o aparecimento da televisão retirou dos jornais o papel de entretenimento que tinham na sociedade. Vergueiro lembra que os leitores seguiam as aventuras de seus heróis preferidos com a atenção e interesse com que hoje muitos seguem as telenovelas.

— A partir da década de 1950 essas produções foram diminuindo e passou a prevalecer no meio a tira cômica, no modelo a-gag-a-day (uma piada por dia). Esse modelo permite que os leitores leiam as tiras esporadicamente, sem prejuizo do entendimento. Nesses quadrinhos, o desenho caricatural, simples, é o predominante.

SIMPLICIDADE OU MÁ QUALIDADE?
Fazendo uma comparação, o pai do Calvin diz que enquanto os desenhos animados e as revistas em quadrinhos se sofisticaram e se popularizaram, as tiras de jornais se enfraqueceram. E considera um erro subestimar o apetite dos leitores pela qualidade.

— Os quadrinhos podem ser muito mais do que são atualmente. Tiras melhores poderiam atrair públicos maiores, e isso ajudaria os jornais.

No caso das tiras brasileiras, historicamente já tinham essa característica do pouco-traço. É o que afirma Goodwin.

— Os tiristas brasileiros da atualidade vêm do cartum, onde a gag já é visual, com pouco texto para explicar. É uma forma que tem o ápice no Henfil, no Nani ou no Glauco. Independente da dieta dos espaços encolhidos, as tiras nacionais são mais minimalistas, sem balões imensos ou cenários elaborados. O que lamento é que no Brasil não tenha subsistido a tradição dos suplementos dominicais, ou de seções maiores nos fins de semana, permitindo quadrinhos que não sejam apenas de uma tira horizontal, com maiores elaborações narrativos ou visuais.

O fato é que, ao lado do horóscopo e dos passatempos, as tiras de jornal foram importantes para gerações de leitores. Fazendo parte de um pequeno ritual reconfortante, onde os personagens amigos estão lá sete dias por semana, ano após ano. Ou como resumiu Watterson, “o mundo de uma tira de quadrinhos é simples e duradouro, um minúsculo oásis de estabilidade num mundo confuso e sempre em mutação. Ou, pelo menos, costumavam ser”.
>> JORNAL DO BRASIL – por Pedro de Luna

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