PTEROSSAUROS E ESPAÇONAVES

Está fazendo 35 anos que o primeiro exemplar de uma revista de histórias em quadrinhos que iria revolucionar a maneira de se fazer e ler HQs chegava às mãos dos franceses. Era a revista Métal Hurlant, que em seu número inaugural apresentava apenas quatro autores: os franceses Moebius, Philippe Druillet e Jean-Claude Gal e o norte-americano Richard Corben.

Dentre os autores, um deles se destacava com várias histórias: Moebius, o alter ego delirante do comportado Jean Giraud, então conhecido como o desenhista da série de western Blueberry. E dentre as histórias de Moebius uma atraia mais atenção: Arzach.

Esse personagem mudo que frequentou apenas os cinco primeiros números da Métal Hurlant, foi o principal responsável por abrir para as portas do fantástico, da ficção-científica e do impossível para gerações de desenhistas e leitores.

Com um humor negro incomparável, onde o sexo e a violência se infiltravam, e com um desenho cuidadosamente elaborado, com cores surpreendentes, as poucas páginas de cada uma das HQs hipnotizavam o leitor e apresentavam um mundo impiedoso e maravilhoso ao mesmo tempo.

Trinta e cinco anos depois uma nova aventura de Arzak acaba de nascer: Destination Tassili (Destino: Tassili). Mantendo a tradição das antigas histórias, o nome do personagem muda a cada nova HQ: Harzack, Arzach, Harzac, Arzak, Harzak, Arrzak e outras variações.

A edição oficial e colorida de Arzak Destination Tassili ainda não está disponível, apenas uma edição para colecionadores – da Moebius Production, a editora do autor -, em preto e branco, e com uma solução curiosa para apresentar os textos e diálogos: na página ímpar, só as páginas da HQ, sem balões e quadros de texto, e na página par, texto e diálogos, em formato de roteiro.

Arzak é um caçador, policial, agrimensor (como é chamado neste livro), mago, que percorre estranhos e selvagens mundos, montado em um pterodelfo: uma espécie de pterossauro com aparência de concreto, metade orgânico e metade máquina. A capacidade do personagem se meter em problemas é ilimitada, o que não o impede de manter sua impassibilidade.

Como este é apenas o volume 1 da história, apenas vemos aqui a introdução da aventura, com perseguições entre naves espaciais, combates no deserto, princesas desmaterializadas, e cidades perdidas que lembram um pouco o cenário das HQs de Blueberry no oeste e sudoeste dos Estados Unidos e que sem dúvida é fonte de inspiração para os planetas surreais de Moebius.

Mestre na construção do roteiro, Moebius termina este primeiro livro da série (que pode ter mais um ou meia dúzia de volumes) deixando um clima de suspense em vários pontos não esclarecidos. Porém, diferente de um seriado onde podemos acompanhar o desenrolar da história na semana seguinte, esta HQ de 62 páginas de desenho só terá sua continuação publicada daqui um ano. E isso se tivermos sorte de Moebius não se dedicar a outro projeto no meio do caminho.

O autor, que vai completar 72 anos em um mês, demonstra uma vitalidade rara até em autores mais jovens, mantendo acesa como poucos sua visão inovadora, onde a qualidade e o inesperado estão sempre à espera de quem se dispuser a abrir as páginas dos livros e mergulhar nos mundos de Moebius e Arzak.
>> TERRA MAGAZINE – por Claudio Martini

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