ENTREVISTA COM CHINA MIÉVILLE

Seu primeiro romance, KING RAT, era uma aterrorizante história de fadas. Em PERDIDO STREET STATION, Miéville criou ‘New Crobuzon’, uma metrópole corrupta habitada por insetos humanóides, cactos andantes, grotescos ‘Renascidos’ pela bioengenharia, e máquinas conscientes e ‘vivas’, assim como um monte de tipos comuns, assediadas por criaturas que sugam espíritos, saídas de um experimento fracassado. A fantasia de Miéville é permeada por um realismo que rejeita finais felizes. 
Parabéns pelo Prêmio Arthur C.Clarke por ‘Perdido Street Station’. Não parece irônico ou incongruente que um romance de fantasia baseado em um cenário ‘steampunk’ tenha recebido um prêmio tão importante, que recebe o nome de um escritor de Ficção Científica Hard, de satélites e naves espaciais, em que a sensibilidade para a prosa não é, digamos, sublime.

Obrigado – ainda estou um pouco estupefato. Existe uma ironia sim, mas não é tão incomum este prêmio ir para alguém que faz uma FC tão pouco ‘Clarkeniana’. O próprio Clarke é um sujeito muito generoso a respeito do que se trata o prêmio, e a quem deve ser dado.

Além de estar pessoalmente extasiado, me sinto contente, porque eu sempre senti que era impossível separar a Ficção Científica da Fantasia – certamente eu devo ter conscientemente estado em um e em outro, e eu esperava que o prêmio indo para um romance não tão de FC, deveria encorajar uma abertura conceitual da tradição. Sempre gostei de dizer que escrevo uma ‘ficção esquisita’, porque me sinto na interseção da Ficção Científica, Fantasia e até do horror, o que claramente, torna as fronteiras nebulosas. Quer dizer, é fácil dizer que Larry Niven é FC e Tolkien é fantasia, mas e David Lindsay? Lovecraft? Clark Ashton Smith?

A ‘ciência’ que aparece em seus romances, dependem de mecanismos da era-vitoriana. A teoria da grande crise soa igual à especulação quântica e a inteligência artificial sempre foi uma obsessão da FC. Tem sempre um cientista maluco e que é responsável por forças desastrosas, resultado direto de sua arrogância e da irracional manipulação cientifica, sem ligar para as conseqüências. O que da FC de antigamente se tornou um fato hoje, como a biotecnologia e as máquinas pensantes que aparecem em seu trabalho?
Em geral não penso que se possa ver a FC como profecia cientifica, sociológica ou outra coisa desse tipo. Não acho que FC trate disso. É obvio que muitos cientistas se inspiraram em historias de FC que leram quando jovens e não posso dizer que não seja uma influência.

Sou totalmente pró-ciência. Acho muito interessante. Tento evitar a tradicional tropa de escritores ‘metidos a cientistas’. Não é a atividade cientifica por si só que nos causa problemas, como o doutor Frankenstein. Mary Shelley, refutava em ter a responsabilidade dos frutos de sua pesquisa – em meus livros, é algo mais como uma má sorte danada!

O problema não é a ciência, mas onde ela nos leva. Biotecnologia é um bom exemplo. Não tenho nenhum problema, em termos abstratos com a modificação genética dos alimentos. Porém, acho problemático quando ela caminha para beneficiar os exploradores.

Além disso, muita coisa é lançada no mercado sem os devidos testes – sem termos uma ideia real dos efeitos a longo prazo. Além disso, algumas pesquisas são socialmente inadequadas e inúteis, como fazer plantas que só respondam a um único tipo de fertilizante.

Muita coisa vai surgir nos próximos anos e isso é excitante. Particularmente estas coisas mais grotescas são as que mais falam à minha natureza macabra. Ratos com genes de águas-vivas e que brilham verdes, é demais!

Eu fico tentado em traçar um paralelo do seu nome ‘Miéville’ com ‘Melville’. O protagonista de ‘Perdido’ se chama Isaac, que na bíblia é filho de Abraão e irmão de Ismael, o herói em ‘Moby Dick’, de Melville. Ambos os livros falam sobre um maníaco se vingando de uma besta diabólica, e durante isto, surgem detalhes horrorosos sobre o ser humano cheio de dúvidas sobre a intenção divina. Você, como um inglês, tirou alguma inspiração do grande clássico americano? E qual a significância que você deu ao nome Isaac Dan der Grimnebulin?
Certamente que ‘Moby Dick’ é uma inspiração. Deve fazer parte da maioria do que escrevi, de uma maneira ou de outra, desde que eu li este livro dez anos atrás. É um livro absurdo! Eu não pretendi construir nenhum paralelo com ele, conscientemente, mas não quer dizer que não esteja lá! Não acho que devemos nos ater na intenção do autor sendo a única fonte de temas em um livro. Muitos escritores aprendem muito sobre seus trabalhos a partir de resenhas inteligentes.

Eu escolhi o nome Isaac por que eu queria que soasse familiar, mais sonoro do que a maioria dos personagens de um monte de épicos de fantasia. Mas eu queria algo sugestivo, quase como uma paródia de alguns nomes nos livros de Dickens ou em Mervyn Peake.

Tomas Disch em seu “The dreams our stuff is made of”’, declara que Edgar Allan Poe foi o avô do gênero cientifico em parte por seu estilo pouco refinado para a época. Ele não pretende provocar risos, nem mesmo um sorriso. Ele busca aquela sensação de ‘Isto não pode estar acontecendo’! Existe um pouco disso nos seus trabalhos, de forma planejada. Em um artista menor, o uso deste estilo seria meramente um truque barato. O que você pretende?
Particularmente acho que existe uma reação contrária ao popular, a fantasia pós-Tolkien. Sei que é uma generalização, mas a coisa me parece muito dirigida para um tipo ‘limpinho’ de vida feudal, sem sujeira, sem sangue, fezes ou urina. A literatura de fantasia não devia tentar expulsar aquilo que é real, mesmo sendo sujo ou feio.

P: Os críticos sempre lamentam que a maior parte da literatura de Fantasia está ligada aos milhares de épicos sem fim, de personagens medievais mágicos batalhando contra as forças do mal. Em ‘Perdido’ não se encontra nenhum elfo, bruxo ou uma espada mágica. Foi consciente a sua intenção de construir um mundo distinto dos clichês do gênero ou você apenas seguiu sua própria inspiração?
Ambos. Meu gosto para ficção sempre pende para o macabro, o surreal, onírico, e nunca eu me senti bem dentro do universo de Tolkien, ou da maioria dos escritores após Tolkien. E sim, foi uma coisa deliberada minha tentar subverter algumas das características assumidas pelo gênero de fantasia, precisamente por que eu amo este tipo de trabalho subversivo.

Eu não uso de estereótipos, que na fantasia definem os personagens por sua raça; anões são brigões e pouco inteligentes, elfos são espertos. trolls são malvados. tentei brincar com as idéias desta essência racial em ‘Perdido’ – no meu mundo, os personagens são retratados como as pessoas são no mundo real, mas não de um modo muito apurado. Isto é racismo. Quanta fantasia escrita hoje não abusa destes estereótipos raciais em mundos imaginários?

Outra coisa que eu quis fazer foi um livro de fantasia que não era baseado em uma terra-do-nunca feudal, mas com relações sociais comuns a indústria e ao capitalismo. E isso é uma resposta aos clichês habituais do gênero.

Um dos problemas do gênero mais tradicional, é que se tornou por demais confortável. É preciso retirar o leitor de certas convenções.

Tolkien falava sobre ‘ficção consoladora’, uma ideia que eu realmente detesto! Acho que a estética do fantástico é boa para subverter expectativas, levando o mundo para o caminho errado, problematizando, alienando o leitor. Olhe para o surrealismo, certamente o que existe de mais fantástico nas artes. Praticar este tipo de fantasia ‘consoladora’ é trair isso – não é nem de perto fantasia de verdade.

Gabriel Chouinard descreveu seu trabalho como sendo a Next Wave (Próxima Onda) da Fantasia – brincando com a New Wave (Nova Onda) da Ficção Científica nos anos 60, que se distinguia do formato literário da FC anterior – trazendo autores como você, M. John Harrison, Matthew Stover, Jeff VanderMeer, Mary Gentle entre outros, e é lógico, Michael Moorcock, que tem os pés plantados nos dois movimentos. Mas será justo dizer que existe algum tipo de movimento de verdade? Vocês trocam correspondência, desenvolvendo algum manifesto anti-Tolkien? Ou será que é apenas outro rótulo inventado que colocaram em você, e no qual você nunca pensou a respeito?
É, alguns de nós certamente trocam correios, discutindo ideias e falando sobre a fantasia tradicional. mas não existe um movimento formal. Quantos movimentos literários formais existem? Com algumas exceções (surrealismo e talvez outros) a maioria destes movimentos são rótulos apenas. Isto não significa que seja uma perda de tempo se falar sobre movimentos.Eles existem apesar de não serem especificamente um projeto em comum. O ponto não é onde nós todos concordamos com algo, mas que exista um grupo de escritores cujo trabalho se nutre de certos aspectos estéticos interessantes (mesmo que na prática o resultado final os diferencie).

Eu nunca alteraria algo que eu escrevi depois de pensar no meu lugar como membro de um grupo, e eu imagino que ninguém o faça também, mas o ponto principal é que a temática que nos conecta seja traçada entre autores que estão escrevendo aquilo que desejam.Sem ter uma ligação formal.

Por exemplo, eu li ‘Iron Dragon’ de Michael Swanwick depois de ter escrito ‘Perdido Street Station’ e é um livro fabuloso, e em alguns de seus temas, há uma conexão com o que eu escrevo.Seria totalmente razoável, depois de ler os dois, que alguém imaginasse que fui influenciado pelo livro de Michael. Não é bastante que eu diga que não o havia lido antes de escrever ‘Perdido’ e que portanto não há nenhuma ligação. O legal é que tem muita coisa acontecendo no mundo, e no mundo da literatura fantástica, e que faz dois autores escreverem de modo similares.

Você está estudando para seu PHD pela London School of Economics. Primeiro, como um estudante de graduação arranja tempo para escrever romances? E uma vez que receba o titulo, você pretende trabalhar na área econômica? Ou será que isso é apenas um capricho intelectual?
Meu PHD não é em economia, a LSE é uma universidade de ciências sociais. Eu lido com filosofia das leis internacionais. Mas o tempo é um problema. Tudo que posso dizer é que procuro dividir meu tempo rigidamente. Escrevo bastante nas horas de folga, consigo ser muito auto-disciplinado. Devo concluir meu estudo em Setembro, e espero que depois fique mais confortável.

Espero poder escrever FC em tempo integral, como uma forma de vida. mas vou continuar trabalhando na academia onde trabalho no corpo editorial do jornal da academia, espero assim continuar publicando ensaios não-ficção e livros, conforme eu encontre tempo.

Você parece gostar das cidades, lugares perigosos repletos de segregação racial, etc. Tem algo nelas que te atraem?
Vivo em Londres e ela é uma grande influência no que eu escrevo. Amo arranha-céus, por que sou cínico o bastante para reconhecer o poder da dinâmica que rola nas cidades, mas não significa que eu não as ame. Londres, Nova Iorque, Cairo, são fontes de inspiração e são fascinantes. Tudo nelas é intenso, a pressão nas relações sociais, a criatividade, a arquitetura, tudo é mais excitante nas cidades, da política as artes, no ambiente físico. Sou um escritor urbano, na tradição de escritores urbanos londrinos como Thomas de Quincey, Neil Gaiman, Michael Moorcock, Iain Sinclair e outros.
>> CAPACITOR FANTÁSTICO – por Trechos de entrevista concedida a David Soyka

Anúncios

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: