“LOVE – A HISTÓRIA DE LISEY”, DE STEPHEN KING: NO LAGO DO MITO

Love: A História de Lisey (Lisey's Story), Stephen King. Editora Objetiva, 543 págs.

Em 16 de setembro de 2003, um editorial do New York Times afirmou que, “quando anunciarem as grandes figuras da moderna literatura americana – Bellow, Miller, Morrison, Updike, Roth – eles poderão agora somar um nome: Stephen King”.

Não é um editorial que vai colocar King no cânone norte-americano, mas tal opinião reflete uma mudança consistente, ao longo da última década, no status desse autor que chegou a se referir a si mesmo como “o equivalente literário de um Big Mac com fritas”.

No Brasil, embora ele continue sendo um dos nomes mais vendidos da Editora Objetiva – basta conferir o número de obras dele republicadas na coleção de bolso da Objetiva -, não parece haver esforço dos seus editores, nem dos críticos, em reconsiderá-lo como escritor. Mesmo para os seus fãs brasileiros, poucos se arriscam a vê-lo como um dos melhores escritores americanos vivos. Para eles, Stephen King é mais um escritor de horror, gênero em constante mutação – atualmente assumindo a forma da assim chamada “fantasia urbana”, dominada por Stephenie Meier, Charlaine Harris e L. J. Smith. Um dos problemas do público da ficção de gênero é que ele às vezes deixa de enxergar distinções. Tudo parece fácil, um jogo de temas e ambientações intercambiáveis (você precisa apenas ser “original” ou “novo”), e o talento necessário para realizá-lo na sua forma mais expressiva passa despercebido.

Mas King é “o Pelé do Horror”, e sou fã dele o bastante para chamar este Love: A História de Lisey de o melhor romance de ficção especulativa lançado no Brasil em 2008. Está dentro da tendência metaficcional desse autor, tratando da escrita e do ambiente editorial, e que já rendeu obras como Angústia (Misery), A Metade Negra (The Dark Half), Rose Madder, e Saco de Ossos (Bag of Bones). No plano da estrutura e da sua textura narrativa, talvez ele lembre mais Angústia e Jogo Perigoso (Gerald’s Game), dois romances sem muito enredo, centrado em um número limitado de situações e configurado por meio de flashbacks e mergulhos na consciência da protagonista – neste caso, Lisey Landon, a viúva de um famoso autor de realismo mágico.

Realismo mágico é a literatura fantástica que tem status literário, e não de ficção de gênero ou literatura comercial, como acontece com o horror. Nisso, talvez A História de Lisey espelhe a recente mudança na posição literária de King, mas na matéria do romance, o horror como gênero está muito bem expresso. Pode-se afirmar que de maneira um tanto desequilibrada em relação à caracterização das personagens e situações, mas ainda assim.

Aturdida com a súbita morte do marido, Scott Landon, Lisey tenta decidir o que fazer com os papéis do autor. Nos Estados Unidos, manuscritos, correspondência e apontamentos de grandes escritores são disputados por universidades e bibliotecas. A University of Pittsburgh, onde Scott estudou, está atrás dos seus papéis. Ou o Prof. Joseph Woodbody, da UofP está. Diante da indecisão de Lisey, Woodbody se associa a um sujeito muito obcecado, para dizer o mínimo, chamado John Doolin. Ao longo do romance, Doolin, terá um prazer sádico em intimidar e aterrorizar Lisey.

A viúva não está sozinha, porém – seus aliados são a irmã louca Amanda, e o fantasma de Scott, que vem assombrá-la com uma espécie de caça ao tesouro, guiando Lisey pela selva das lembranças e da infância traumática do marido, até um lugar mágico, também selvático, situado em uma dimensão da imaginação e do mito. Lisey estivera lá antes mas havia apagado a experiência da memória, para preservar sua sanidade.

Scott Landon tinha uma espécie de vocabulário familiar para uma série de coisas, de palavrões ao nome desse lugar mágico: Boo’ya Moon. A jornada de Lisey passa também por essa linguagem em parte herdada da grotesca família de Scott, em parte fruto da sua convivência conjugal. Como li a edição americana, não dá para dizer o que o tradutor Fabiano Morais fez com esse desafio.

Boo’ya Moon é uma espécie de variante do mundo por trás do quadro, em Rose Madder, um lugar que realiza magicamente a visão que Stephen King tem da literatura: um espaço em que nos afastamos do cotidiano e tomamos contato com o poder reparador do mito. Isso é dramatizado pelo fato de que a família de Scott possuía algum tipo de face monstruosa, que precisava ser controlada com a tortura exercida pelo pai, sobre Scott e seu irmão Paul. A marcas físicas da tortura eram curadas às margens de um lago que existe em Boo’ya Moon. Lisey terá de ir até lá – e como Rose Daniels no outro romance – para curar-se e para emboscar o homem que a persegue, ele mesmo encarnação de uma masculinidade violenta e fora de controle.

Boo’ya Moon tem diversas propriedades, porém. É lá que Scott se refugia, mas é de lá também que ele retira a força da sua literatura. O espaço do mito é porém o possível espaço da loucura, quando a necessária fuga da realidade torna-se o indesejável exílio da realidade. É o lugar do sonho e do pesadelo, da mais profunda humanidade e da mais completa desumanidade. Como Rose, Lisey também mergulha no mítico para salvar-se, mas é forçada a vislumbrar uma dimensão insana de si mesma.

Há muito mais no romance: suspense, é claro, e a reflexão sobre o mundo da literatura nos Estados Unidos; também uma exploração da culpa familiar, e do pacto de segredo e cumplicidade embutido no casamento; e a rica dinâmica entre Lisey e suas irmãs, indo da sua situação de mulheres de meia-idade à infância das três, em flashbacks. E finalmente, um certo humor quase-histérico, uma das marcas de Stephen King.

A História de Lisey é uma engenhosa e perturbadora reflexão sobre o que há de mais profundo do fazer literário, distante do formal e do estilístico ao mesmo tempo que entranhado na psique e no mítico, justamente o que independe da construção literária. Daí a figuração das virtudes da ficção de gênero, que espera ser lida como experiência, e não apenas como fruição estética; como vivência alternativa, e não somente como decodificação de símbolos, estruturas e diálogos intertextuais. O leitor deve entrar em Boo’ya Moon com o mesmo despojamento de Lisey, e deixar uma parte da sua sanidade na entrada. Facilita muito o fato de Lisey ser uma personagem encantadora, como costumam ser as mulheres de Stephen King. Quando ela é ferida, eu tive de fechar o livro…

Mas, qual é a real natureza da monstruosidade da família Landon, fenômeno que forçou pai e filhos a viverem isolados em uma fazenda? Por que o fantasma de Scott precisa se comunicar com Lisey por meio de uma caça ao tesouro, e como ele consegue prever o que irá acontecer com ela e Amanda, a ponto de preparar antecipadamente recursos e saídas? O que são realmente Boo’ya Moon e o terrível monstro que ronda as suas matas à noite? Algumas respostas são passíveis de se intuir, outras não. King sabe que, com textura suficiente aplicada à narrativa, o leitor simplesmente aceita como um dado o que lhe é fornecido.

King também sabe que não faz sentido racionalizar o mítico.
>> TERRA MAGAZINE – por Roberto Causo

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