“DRAGONLANCE”

Uma das velhas histórias de fantasia que mereciam
ser lembradas pela indústria do entretenimento

Em tempos em que a Literatura de Fantasia prece ter se convencido de que as séries são as melhores amigas das vendas, e numa época em que a animação gráfica vem atingindo patamares dignos de um passe de mágica, permitindo a visualização de criaturas que antes só habitavam a imaginação humana, é de se espantar que alguns títulos continuem relegados ao esquecimento. Afinal, depois das trilogias “O Senhor dos Anéis” e “As Crônicas de Nárnia” era de se esperar que outras velhas obras fossem resgatadas das brumas do Limbo e ganhassem nova roupagem.
Os amantes da Fantasia com certeza ganhariam com uma produção caprichada para o sombrio “Stormbringer”, de Michael Moorcock. Obra de primeira grandeza, o livro merece, sem dúvida alguma, um espaço nas livrarias atuais.

Outra obra, sem tanta qualidade, mas que também merece sua versão cinematográfica e uma nova edição, é a trilogia “Drangonlance”. Editada no Brasil pela Devir e dividida em três volumes principais – “Dragões do anoitecer de outono”, “Dragões da noite de inverno” e “Dragões da alvorada da primavera” – a obra assinada por Margaret Weis e Tracy Hickman tem tudo para agradar as novas gerações de leitores de Fantasia. Drama, humor, romance e personagens fascinantes somam-se à possibilidades de cenários fantásticos e situações que balançam qualquer amante de criaturas mágicas.
A história é bem simples em seu fio condutor: um poder inesperado levanta-se sobre a terra de Krynh, carregado nas asas dos dragões, que num primeiro momento representam o mal. Um grupo de amigos vê-se inesperadamente envolvido com os vilões, ao dar proteção a um casal de viajantes que porta um medalhão com poderes místicos. A partir daí a história vai de peripécia em peripécia, na luta entre o bem e o mal.

É verdade que nem tudo são flores nesta extensa trilogia da qual derivaram outra trilogia – “O tempo dos gêmeos” – e mais um grande volume intitulado “Dragões da labareda de verão”. Tendo sua origem profundamente arraigada em partidas de RPG, o texto às vezes revela demasiado o recorte dos jogos, mantendo a dinâmica dos mesmos e as opções que movimentam o clássicos “D&D”. Não faltam situações em que um personagem tem de escolher entre duas portas, duas ou três direções ou mesmo, tomar a decisão de falar com outro personagem ou atravessá-lo com uma espada, e às vezes sobram labirintos subterrâneos povoados de medonhas criaturas. De vez em quando, um personagem toma uma atitude ingênua demais, simplesmente para provocar a crise que dará o ensejo dramático àquela parte da narrativa, forçando o texto a se dobrar à vontade de seus criadores e não sendo devidamente conduzido por eles. Isso irrita o leitor mais exigente e aborrece um tanto. Contudo, nada é perfeito.

Para esta leitora, porém, a soma das qualidades da trilogia é maior do que seus defeitos e a maior qualidade de “Dragonlance” são os seus personagens e a coragem com que os autores abordam a história dos mesmos. O grupo central é formado por nove personagens, inicialmente estereótipos que lembram formalmente a Confraria do Anel, de Tolkien – outra coisa que aborrece, pelo menos no começo. Com certeza não é uma coincidência: a presença de Tolkien é forte em quase toda obra. Há vários personagens “agregados” que aparecem e desaparecem com o andamento da narrativa que, inicialmente, tem o mesmo moto de ação de centenas de obras de Fantasia anteriores: a luta do bem contra o mal invasor, que procura dominar o mundo através da força, representado por tudo de ruim que há: ambição desmedida, mediocridade política, incapacidade de compreender as diferenças como um multiplicador, corrupção, crueldade, e outros muitos mais “etc”.

Este desafio de deparar-se com um grupo tão grande de personagens fixos e inúmeros outros, flutuantes, sacode quem andava lendo diálogos enxutos entre apenas dois protagonistas ou conversas entre grupos pouco variáveis. O prisma caleidoscópico não nos deixa enraizar em apenas um personagem, mas nos leva a viajar pela história diferentes vidas. Talvez por ter tido em sua origem seres humanos reais – os jogadores do RPG que deu origem aos livros – é que os personagens de “Dragonlance” revelam-se tão complexos. Com esta quantidade de personalidades, várias linhas narrativas são traçadas, levando o leitor por diferentes paragens e dramas, sem manter o foco inalterado em um único personagem, como os atuais bestsellers do gênero, “Harry Potter” e “Twilight”. Indo mais além da trama narrativa de Tolkien, que divide-a em duas e posteriormente em três partes, “Dragonlance” entremeia-se a vontade, chegando ao cúmulo de flertar com a metalinguagem à certa altura do texto.

Três personagens dominam a narrativa: Tanis Meio-Elfo, Lauralanthalasa, e Raistlin. Mas isso não significa que os demais não sejam costumeiramente protagonistas – Tasslehoff Burfoot, o kender, por exemplo, é um autêntico ladrão de cenas. Contudo o mais fascinante para esta leitora, foi a capacidade dos autores e levarem até as últimas consequências seus personagens, sobretudo Sturm, Flint e Raistlin, o mago. Este último, tem papel preponderante na narrativa, manipulando seus amigos como um autêntico mestre-do-jogo, sem, no entanto, sê-lo de verdade, ou, talvez, roubando das mãos do narrador original, essa função.

Uma boa versão cinematográfica de “Dragonlance”, seria, com certeza, sucesso de bilheteria. Eu disse “boa versão”. Versões regulares não servem, porque cairão fatalmente na mediocridade e no ruim. O Youtube está repleto de vídeos sobre o assunto, desde o teaser do desenho animado de longa metragem já produzido (e cuja qualidade fica bastante abaixo do que a série merece, diga-se de passagem) até “castings” alternativos e vídeos caseiros, a maioria deles amparado por composições de hard-rock orquestral, estilo que, aliás, parece ter sido feito sob medida para a trilogia. De passo isso seria uma boa desculpa para novas edições – com tradução e diagramação melhoradas, espera-se – e inclusive para uma tradução do terceiro volume de “O tempo dos gêmeos”, ainda inédito em português. Até lá, sem compreender o mais mínimo os caminhos das produções cinematográficas, teremos de nos contentar em imaginar as aventuras de personagens tão interessantes – coisa, aliás, que sempre foi a base do bom RPG e que deu a estas criaturas de papel, a profundidade que elas têm.
>> PORTEIRA DA FANTASIA – por Simone Saueressig

Anúncios

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: