“BLADE RUNNER”: FÉ CEGA, FACA AMOLADA

Octavio

Revendo o clássico Blade Runner, fui assolado por alguns questionamentos antigos. Afinal, por que o caçador de andróides Rick Deckard, vivido por Harrison Ford, tinha a alcunha de “Blade Runner”? Que lâmina seria essa sobre a qual ele correria? Ocorreu-me pela primeira vez que o título do filme não fazia referência ao fato do herói ser um destemido sempre ameaçado por perigos diversos (essa descrição cai bem para outro herói vivido por Ford, o arqueólogo Indiana Jones), mas às decisões espinhosas que ele, caçador, teria de tomar a cada passo da história. Ao contrário de outros heróis cheios de certezas, Rick Deckard só tem dúvidas. Não sabe se aceita o caso, se seduz Rachel, se confia nos colegas do departamento de polícia, se invade o camarim da andróide stripper e, finalmente, se mata Roy. Sua única certeza, nas últimas cenas, é que deve ser fiel ao que acredita ser o certo. No final, o que importa para Deckard são os princípios, e isso me fez recordar alguns eventos.

Uma vez, quando era sócio de um escritório de design no Rio, recusei participar de um projeto para certa fábrica de cigarros. Minha sócia respondeu que “se não fizéssemos, alguém faria”, afirmando que o distanciamento de tais questões moralistas era indispensável para o profissional de design. Eu não tinha resposta para isso na época. Era verdade, alguém aceitaria o trabalho, mas tratava-se de uma questão pessoal, não gosto de cigarros e não via (e ainda não vejo) motivo para trabalhar em função de algo que me provoca enjôo. Eu “sentia” que aquilo não estava certo, mas arquivei o assunto.

Hoje os motivos que me levaram a tomar aquela atitude estão mais claros. Acredito que cada produção nossa, por menor que seja, tem certo efeito no mundo. Há algum tempo, acompanhei uma reportagem investigativa que denunciava o processo de contrabando de armas no Brasil. O jornalista comprou uma minimetralhadora israelense e, depois de quinze dias, recebeu uma maleta belíssima, com a marca impressa em alto relêvo. Não era um saco plástico anônimo ou um caixote qualquer, o artefato bélico vinha embalado com requinte. Ora, alguém criou aquele logotipo. Alguém projetou a maleta. E qual o nome do profissional especializado em trabalhos desse tipo? Designer.

Em Blade Runner, o projetista de olhos é o principal fornecedor do faustiano dr. Tyrrell, que ousou criar andróides mais perfeitos que o homem. São esses olhos poderosos, muito mais acurados que os humanos, os responsáveis pelo modo como os replicantes vêem o universo, e por isso mudam suas percepções a respeito de si mesmos, dando-lhes consciência e, como efeito colateral, um enorme desdém pela fragilidade dos homens. Uma metáfora perfeita para o poder transformador do design e sobre a responsabilidade do designer.

Mas por que alguém aceitaria desenvolver um projeto que, quando pronto, mataria pessoas? Talvez porque se hipnotiza ao som do mantra “se eu não fizer, outro fará”. Projetar logotipos e embalagens para armas não é uma prática ilegal, mas não isso não significa que deva ser realizado. Afinal, uma das funções das identidades visuais é tornar o produto agradável ao público-alvo e conquistar consumidores. Se o artefato em questão é uma geladeira, um televisor ou um automóvel, não vejo problema algum, mas por que uma metralhadora precisaria de logotipo? E o que dizer das “cluster bombs”, minas terrestres de fragmentação parecidas com brinquedos e que mataram e feriram crianças no Oriente Médio? Jamais o binômio forma-função, lema dos desenhistas industriais, foi tão subvertido.

Não se desenha impunemente. Qualquer um que empunhe o lápis transforma o ambiente e, apesar de clichê, é verdade que aquele com quem você se associa fala a respeito de seu caráter e de suas crenças. Pensando bem, é quase uma questão de fé, tanto para o franco atirador cético que pega qualquer trabalho, quanto para aquele que escolhe seus projetos baseado em questões éticas. muitas vezes particulares, e se reserva o direito de dizer não. O primeiro opta por não julgar por onde corre o grafite porque acredita que, como os replicantes de Blade Runner, é imune às ameaças externas e não se infecta ao passear por papéis de origens questionáveis. Já o segundo, desconfiado como o personagem de Harrison Ford no início do filme, receia compartilhar qualquer coisa com pessoa física ou jurídica sem se assegurar da saúde moral do parceiro, pois não deseja ser absorvido ou conspurcado por uma eventual inumanidade do outro. Qualquer das posturas incorre potencialmente em perigos ou injustiças, é como correr sobre o fio de uma faca.
>> ACHEI USA – por Octavio Aragão

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