“UMA CANÇÃO DE GELO E FOGO”, DE GEORGE R.R. MARTIN

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UM ÉPICO FEITO DE GELO E FOGO

Quando, em 1455, Ricardo de York liderou três mil homens na direção de Londres e derrotou Henrique VI, rei da Inglaterra, naquela que ficou conhecida com a Batalha de Saint Albins, a primeira de uma guerra que colocaria em lados opostos as poderosas casas de York e Lancaster, ele jamais poderia imaginar que, quase seis séculos depois, seus feitos serviriam de inspiração para uma das maiores e mais bem sucedidas obras de fantasia épica escritas desde que um hobbit encontrou um anel perdido numa caverna.

Falo, claro está, da série “Uma Canção de Gelo e Fogo” (A Song of Ice and Fire, no original), do escritor norte-americano George R. R. Martin. Composta por sete livros, dos quais quatro já foram publicados, ASoIaF tornou-se um êxito de crítica e venda, ocupando o topo da lista dos respeitáveis The New York Times e The Wall Street Journal com a expressiva quantia de 2,6 milhões de exemplares vendidos somente nos EUA, além de angariar importantes indicações e prêmios, como o Locus Award, o Nebula e o Hugo Award.

O AUTOR

George Raymond Richard Martin nasceu em Bayonne, New Jersey, em 20 de Setembro de 1948. Apaixonado por livros, HQ’s e fanzines, desde cedo demonstrou grande interesse em se tornar escritor. No início da década de 70, começou a escrever pequenas histórias de ficção e fantasia, entre as quais se destacam The Thousand Worlds, uma space opera com temática histórica e Night of the Vampyres, uma ficção político-militar lançada na antologia The Best Military Science Fiction of the 20th Century, de Harry Turtledove. O sucesso, porém, tardou a vir. De fato, uma de suas primeiras histórias foi rejeitada 22 vezes por diferentes revistas, um duro começo. Em 73, With Morning Comes Mistfall, história publicada pela Analog Magazine foi indicada para os prêmios Hugo e Nebula.

No início da década seguinte, Martin ingressou na televisão, onde trabalhou como escritor e produtor para as séries Twilight Zone e A Bela e a Fera. Durante esta temporada em Hollywood, muitos projetos voltados para a área de ficção e fantasia foram desenvolvidos por ele, porém todos sem sucesso. Um dos mais proeminentes foi Doorways, uma ambiciosa série de ficção científica que contava a história de uma fugitiva de um universo paralelo que escapava para nosso mundo através de um portal dimensional, abortada após o episódio-piloto.

Outros projetos também foram postos em prática, como as adaptações de Wild Cards, um suplemento de jogos com temática que misturava ficção científica e super-heróis, conhecido no Brasil como Cartas Selvagens, Princess of Mars, a famosa série de ficção de Edgar Rice Burroughs e Fevre Dream, um livro de sua própria autoria, mas Doorways foi o que mais próximo chegou de tornar-se real.

Com efeito, foi no final daquela que Martin considerou como “a década de Hollywood” (1985-1995) que ele, cansado do glamour e das oportunidades perdidas na terra das estrelas, resolveu abandonar a carreira na televisão e se dedicar novamente à arte da escrita. Em 1991, começava a ganhar forma à idéia que originaria o livro A Game of Thrones (Um Jogo de Tronos, em tradução livre), o primeiro da série que o tornaria mundialmente conhecido.

Ironicamente, o que poucos dos aficionados por Martin parecem saber é que ele já conta com mais de 30 anos de carreira, seja na literatura, na televisão ou cinema, atravessando sem a menor dificuldade os gêneros do fantástico, do terror e da ficção científica. E, de fato, seu leque de atuação é bem amplo, indo desde a ficção científica de Tuf Voyaging até os vampiros de Fevre Dream, que cruzaram o Mississipi num barco a vapor em pleno século XIX, passando pelo horror contemporâneo de teor histórico-político de Armagggeddon Rag ou a mistura de space opera e fantasia da coleção de pequenas histórias Windhaven. Também se pode citar uma de suas primeiras incursões pela fantasia, The Ice Dragon, um livro infanto-juvenil onde a presença da magia — em sua acepção mais plena — é bastante acentuada.

Com ASoIaF, no entanto, Martin foi considerado um entusiasta do novo, o escritor que revolucionou a temática épica e trouxe um novo enfoque para a literatura chamada fantástica. Não obstante, nem por isso ele deixou de buscar inspiração e referência para suas obras em outros autores. Fritz Leiber foi, juntamente com Robert E. Howard, criador de Conan, o Barbado e as HQ’s (histórias em quadrinhos) de Stan Lee e Steve Ditko, uma de suas influências assumidas. E, se de fato há um autor a que Martin mais se assemelha, este é Leiber, tal a variedade de temas e gêneros que ambos abordaram ao longo da carreira.

Outros grandes escritores também entraram para este rol de referências. No entanto, embora seja possível reconhecer certo débito para com obras como O Senhor dos Anéis, de Tolkien, The Dragon Masters, de Jack Vance e Tailchaser’s Song, The Memory, Sorrow and Thorn Series e The War of the Flowers, de Tad Williams, a série ASoIaF difere destas outras pelo uso diferenciado da linguagem ficcional e pela abordagem mais incisiva de elementos reais em detrimento da fantasia.

Enquanto Tolkien e Williams buscaram uma acentuada inspiração na mitologia, Martin teve sua influência calcada na história medieval européia, mais notadamente na Guerra das Duas Rosas, no clássico Ivanhoé e nas Cruzadas Albingueses. Não raro, ele costumava citar em suas entrevistas que foi ao ler The Memory, Sorrow and Thorn Series que se convenceu de que poderia escrever uma história mais adulta e madura. Isso acabou criando um novo filão de literatura de fantasia, cujo tratamento do real é muito mais acentuado em relação à fantasia. Filão que já angariou seguidores como Scott Lynch, Joe Abercrombie, Steven Erikson e Scott Bakker.

Contudo, mesmo sendo visível esta preocupação com o real, Martin está a milhas de quilômetros do pioneirismo da chamada ficção histórica e, neste campo da fantasia pé no chão, também sofreu influências e, como tal, agradece abertamente a autores como Bernard Cornwell, George MacDonald Fraser e Robert Jordan, cuja capa para seu primeiro livro foi, ironicamente, a responsável por garantir seu sucesso junto aos leitores de fantasia.

O MUNDO

As histórias de ASoIaF se passam, principalmente, no grande continente de Ponente (Westeros, no original), uma vasta extensão de terras similares as ilhas britânicas, porém com aproximadamente o tamanho da América do Sul, tendo ao norte uma imensa área não mensurada, cuja ciência não é possível dadas as suas baixas temperaturas e a pouca cordialidade de seus habitantes, chamados simplesmente de selvagens ou de Povos Livres. Das terras conhecidas, a porção norte tem praticamente o mesmo tamanho da parte sul, porém sua população é infinitamente menor, dado o rigor climático da região. Entre as principais cidades de Ponente destacam-se, por ordem de tamanho, Porto Real, Antigua, Lannisport, Porto Gaivota e Porto Branco.

O mundo imaginado por Martin, contudo, vai muito além de apenas uma terra e uma gente. Outros dois continentes também aparecem no correr da série, numa alusão bem significativa à história do nosso próprio mundo medieval; a leste, depois do Grande Mar está localizado Essos. Em sua porção ocidental encontram-se as nações estrangeiras mais próximas a Ponente, um conjunto de cidades-estados chamadas de Cidades Livres, entre as quais estão Pentos, Braavos e Lys. Nesta porção do mundo encontra-se também a terra dos Dothraki, os Senhores dos Cavalos. Na verdade, terra, aqui, definiria toda a larga extensão das inóspitas plagas centrais do continente oriental, chamadas de Mar Dothraki, onde vivem centenas de grandes caravanas, os khalazares, cujos membros levam uma vida muito similar a dos antigos mongóis, turcos e hunos de nosso próprio mundo. Nas terras ao largo da costa sul deste continente, chamadas de forma genérica de Terras do Mar do Verão, estão localizadas as ruínas da cidade de Ghis e do Feudo Franco de Valyria, onde surgiu a dinastia Targaryen, a mais poderosa casa a governar os Sete Reinos. As terras ao sul de Ponente, chamadas Sothoryos, são praticamente desconhecidas. Delas, sabe-se apenas que são totalmente selvagens, infestadas de pragas e habitada por homens de pele escura, algo claramente próximo a um certo continente negro pouco conhecido durante a idade média.

Não obstante, mesmo sendo o mundo de ASoIaF vasto e bem definido, seu elemento mais característico é o Muro, ou Muralha de Gelo, uma gigantesca construção de mais de 200 metros de altura e 500 quilômetros de largura. Construído a quase 8.000 mil anos por Brandon Stark, o primeiro Rei no Norte, tinha por finalidade proteger as terras dos Sete Reinos da ameaça d’Os Outros, uma raça de seres malignos que viviam para além das terras conhecidas. Sua defesa foi posta a cargo da Guarda da Noite (Nigth’s Watch, no original), um grupo de irmãos juramentados que dedicaram a vida a lutar contra a ameaça vinda das regiões geladas do norte, das terras “para além do muro”. Aqui, a analogia com a realidade histórico-medieval européia é, também, bastante acentuada. Refiro-me à Muralha de Adriano, uma grande construção erguida próximo à fronteira da Escócia que tinha por finalidade defender a zona britânica do Império Romano das incursões dos pictos e escotos, habitantes do norte da ilha.

Entretanto, apesar do realismo que busca imprimir a seu mundo, Martin é um experto em criar situações mirabolantes que fazem sua história ser única entre tantas outras. Dos muitos fatores que tornam ASoIaF tão interessante, um dos mais peculiares diz respeito à inconstância do clima. Ao contrário de outros mundos conhecidos, Ponente está à mercê de estações erráticas que podem durar anos a fio, mas de forma imprevisível. No início da saga, o continente está no final de um verão que dura já uma década. Um largo verão ao que, segundo as crenças tradicionais, se seguirá um inverno tão longo e duro quanto. Contudo, Martin não deixa claro se esta regra é planetária ou se vale apenas para as regiões de Ponente e seus arredores. Segundo ele, a explicação para este estranho comportamento temporal virá ao final da série e será de natureza mágica, sem elemento de ficção científica.

Outro ponto de destaque da serie é a concepção das raças. Em Ponente, praticamente não há raças mágicas e, à época do início da saga, as que existiram são meramente mencionadas. À exceção dos poucas vezes citados Filhos dos Bosques, d’Os Outros e de uma esquecida raça de Gigantes habitantes do norte, todos as demais criaturas são assumidamente humanas, com todas as cores, estirpes, defeitos e qualidades inerentes à espécie. Porém, que fique claro, estes não são simples humanos e, sim, os melhores representantes da raça, homens fortes, altos e não corrompidos (fisicamente falando), como numa espécie de releitura genérica e bastante crível do Übermensch Nietzschiano.

E, em se falando de raças, há aquelas próprias da engenhosa mãe-natureza, criaturas ferozes que habitam as matas e montanhas do mundo. Lobos huargos, mamutes, uros e gatos das sombras, além dos irascíveis dragões. Sim, em ASoIaF há dragões. Ou havia, já que os três últimos morreram junto com seus senhores Targaryen. Ou, ao menos, é nisso que todos acreditam. E, em torno dessa raça é que gira o grande mistério de Ponente.

A HISTÓRIA

Em meados dos anos 90, quando a série A Bela e a Fera chegou ao fim e o desencanto para com os ares de Hollywood se tornou evidente, Martin voltou a escrever prosas longas e um de seus primeiros trabalhos foi um romance de ficção científica chamado Avalon. Em 91, enquanto tentava definir rumos para a história, a idéia de uma cena onde alguns jovens encontravam uma loba, cuja garganta havia sido cortada, lhe veio à mente. A loba, antes de morrer, havia dado a luz a alguns filhotes, que seriam adotados pelos jovens que os encontraram e cresceriam junto com eles. A partir deste ponto, Martin começou a tecer idéias e a desenvolvê-las, até criar um épico fantástico que dividiu em uma trilogia (sim, as muy famigeradas trilogias), cuja composição seriam os livros A Game of Thrones, A Dance with Dragons e The Winds of Winter.

Porém, ao terminar o primeiro livro, após um hiato de quase dois anos, Martin chegou à fatídica conclusão de que sua saga não caberia em apenas três volumes e, a partir daí, anunciou um quarto livro e, mais tarde um quinto, um sexto e um sétimo. As muitas crônicas de Ponente começavam a ganhar formas e os enormes calhamaços que saíam de seu computador pareciam não ser suficiente para contê-las todas.

É fato que muitas histórias permeiam as entrelinhas de ASoIaF, desde a guerra entre os Filhos dos Bosques e os Primeiros Homens, no início do mundo, até a trégua estabelecida entre eles e sua posterior luta contra os demônios chamados de Os Outros. Mas, para não fugirmos demais ao ponto central, fiquemos apenas com aquela que narra a ascensão, o declínio e as conseqüências da chegada dos reis Targaryen a Ponente.

Após cinco séculos de expansão, os poderosos senhores do Feudo Franco de Valyria, no leste, atravessaram o Grande Mar e alcançaram a longa costa de Ponente, utilizando a ilha da Rocha do Dragão como porto de comércio. Contudo, pouco mais de um século depois, Valyria foi destruída por um desastre conhecido como “O Destino”. Por esta época, a família que controlava a Rocha do Dragão, os Targaryen, começaram a preparar uma larga invasão e, sob as ordens de Aegon, o Conquistador, se lançaram contra Ponente. Embora suas forças fossem pequenas, eles tinham entre seus exércitos os três últimos dragões conhecidos, cuja força era mais que suficiente para subjugar todo o continente. Seis dos Sete Reinos foram rapidamente conquistados, mas Dorne, no sul, resistiu batalha após batalha, até que Aegon concordou em deixá-lo independente. Até então, o continente estava dividido em vários reinos independentes. Porém, depois d’A Conquista, as diferentes regiões, unidas sob o estandarte da Casa Targaryen, formaram os chamados Sete Reinos de Ponente.

Uma vez estabelecido seu poder, os reis Targaryen adotaram a crença na Fé dos Sete (religião que reverenciava as sete faces de Deus) para conquistar o coração do povo, embora ainda mantivesse certos costumes de sua antiga nação, como o casamento entre irmãos. Com isso, em pouco tempo os conquistadores quebraram todas as resistências à sua conquista e impuseram, sem a menor oposição, as suas leis. Os três últimos dragões morreram cerca de um século e meio após A Conquista, mas neste ínterim, as leis e o poder da Casa Targaryen já estavam bastantes arraigadas e não haviam sido contestadas até então.

Quinze anos antes do início de A Game of Thrones, uma guerra civil, chamada de A Rebelião de Robert, destronou Aerys II, o Rei Louco, pondo fim à longa dinastia da Casa Targaryen. Uma aliança formada pelas maiores Casas de Ponente e lideradas por Lord Robert Baratheon, Lord Eddard Stark e Lord Jon Arryn pôs fim aos exércitos e ao regime insano de Aerys e assassinou quase todos os membros de sua família, à exceção de sua esposa grávida — que posteriormente daria a luz a Daenerys Targaryen, a última descendente desta linhagem — e de seu filho Viserys, que fugiram de volta a Rocha do Dragão, ajudados por aqueles que ainda lhes eram fiéis.

Após derrotar o príncipe Rhaegar na Batalha do Tridente, Robert Baratheon assumiu a coroa e o Trono de Ferro, casou-se com Cersei, da poderosa Casa Lannister e tornou-se o primeiro rei de sua linhagem.

O que é interessante observar nesta sucessão de guerras pelo poder é que a conquista não se deu apenas pela espada. Intrigas e traições, jogos de poder e alianças são uma constante na escrita de Martin. Na verdade, se conhece muito mais da história pela força da palavra que pelo fio da espada. Outro ponto importante que Martin ressalta é a questão da fé. Para se dominar um povo, não é suficiente apenas subjugá-los, mas conquistá-los através de seu mais profundo sentimento, de seu mais arraigado desejo. Ponente é, assim, um mosaico de crenças e expressões religiosas. Como fizeram os reis Targaryen ao abraçar a fé no deus de sete rostos, outros, a seu modo e a seu tempo, também jogaram com a crença nos deuses, seja para forjar alianças ou para destruir aquelas que os ameaçavam.

OS LIVROS

Canção de Gelo e Fogo é, sem dúvida, uma das obras de maior êxito dentro do gênero fantástico, seja pelo grande número e complexidade das personagens que permeiam suas páginas, pela súbita e violeta mudança das linhas narrativas ou pelo intrincado jogo de tramas políticas que formam a espinha dorsal de sua linha de argumentação.

Também cabe ressaltar que em sua concepção há muito pouco da literatura dita juvenil que se multiplica às pencas por aí. A história em si é mais complexa, adulta, com um limite bem demarcado entre o real e o fantástico — a magia, quando aparece, é tratada com sutileza e geralmente de forma ambígua, muitas vezes, negativa —, além de não fugir de temas cujo conteúdo poderia gerar olhares de reveses dos mais puritanos, como a violência, o sexo ou até mesmo temas tabus, como o incesto. Martin, aliás, tornou-se famoso por quebrar paradigmas, como a já conhecida falta de apego às suas criações. As personagens de sua saga estão tão fadadas à morte quanto quaisquer outras criaturas. Tudo, claro, virá da necessidade da trama e dos caminhos que a história deve seguir.

Aparte de todos estes atributos, um dos aspectos mais inovadores de ASoIaF é a forma como a história vai sendo construída. Cada capítulo é visto sob o ponto de vista de uma personagem distinta que narra/vê os acontecimentos a sua volta segundo uma ótica bem particular. Isto cria um viés deveras interessante, pois para um mesmo episódio tem-se narrados os fatores a partir de olhares diferentes. Além do que, devido à forma realista com que Martin constrói suas personagens, fica extremamente difícil classificá-los como bons ou maus. Em última instância, eles nada mais são que humanos, tristes e miseráveis humanos e a visão que compartilham com o leitor está, justamente, impregnada destas vivências e emoções.

Um problema que particularmente vejo nesta forma de narrativa é o espaço vago que há entre uma e outra aparição das personagens. Como são muitos os pontos de vistas presentes no decorrer da história — apenas nos quarto primeiros livros cerca de 25 diferentes narradores já deram às caras — às vezes é necessário esperar dezenas de páginas para ver uma personagem reaparecer, muitas vezes completamente fora da situação em que se encontrava anteriormente. Isso gera uma confusão de sentidos e, até certo ponto, de entendimento. Porém, nada que prejudique a leitura como um todo.

Outro aspecto interessante é que os livros não giram em torno do eterno maniqueísmo da luta bem versus mal ou na busca pelo escolhido que livrará o mundo da destruição. Sua linha narrativa está centrada principalmente nas lutas políticas e nas guerras civis que assolam aquela pequena grande parte do mundo. De fato, entre todos os arcos narrativos, há apenas um ou dois que sugerem a possibilidade de uma ameaça externa.

Uma curiosidade: o título da série é mencionado apenas duas vezes ao longo de toda a historia narrada até aqui. A primeira delas aparece durante uma visão que Daenerys tem no segundo livro da série, A Clash of Kings (Choque de Reis, em tradução livre): “Ele é o príncipe prometido e sua é a canção de gelo e fogo”. Estas palavras são proferidas por um rei Targaryen, embora não fique claro qual rei seja nem a quem as palavras são dirigidas, se a própria Daenerys ou a seu filho natimorto. A segunda vez em que é mencionada é durante a renovação dos juramentos de lealdade dos irmãos Reed a Brandon Stark, cena também presente no livro A Clash of Kings.

Aparte dos sete tomos principais, outros três livros curtos podem ser incorporados à série como uma espécie de prólogo, já que se passam no mesmo mundo, porém aproximadamente 90 anos antes dos eventos narrados em ASoIaF. Dos três, The Hedge Knight (O Cavaleiro Errante, em tradução livre) e The Sworn Sword (A Espada Leal), já foram publicados e The Mystery Knight (O Cavaleiro Misterioso) tem sua data de lançamento prevista para 2009. As histórias, conhecidas como Os Contos de Dunk e Egg, também foram adaptados para as HQ’s por Ben Avery e Mike S. Miller e lançados em 2007 pela Marvel Comics, alcançando um relativo sucesso.

Vários capítulos dos livros já lançados foram compilados em coleções seguindo o destino de algumas personagens ou os lugares onde se ambientavam partes das histórias. O mais famoso deles é Sangue de Dragão (Blood of the Dragon, no original), baseado nos capítulos sobre Daenerys Targaryen constantes no livro A Game of Thrones. Este excerto ganhou o premio Hugo de melhor livro em 1997.

Embora possuam personagens / narradores que contam a história através de seus pontos de vistas, de suas vivências e anseios pessoais, os livros seguem, regra geral, por três grandes arcos argumentativos principais que se passam em Ponente e em parte do continente oriental de Essos, mais precisamente nas cidades livres e nas terras dos Dothraki.

O primeiro deles transcorre em Ponente e narra a luta entre casas rivais pela posse do Trono de Ferro após a morte do rei Robert Baratheon. O primeiro a reclamar o trono é seu filho mais velho, Joffrey, cujo apoio para tal empreitada vem da poderosa família de sua mãe: a Casa Lannister. Ao mesmo tempo, Stannis Baratheon, irmão mais velho do rei, reclama o trono para si por acreditar que os filhos de Robert são, na realidade, o produto da relação incestuosa entre a rainha Cersei e seu irmão, Jaime Lannister, chamado de Matador de Reis. Ao mesmo tempo, o irmão mais novo da Casa Baratheon, Renly, também reclama o trono para si, apoiado pela poderosa família de sua esposa Margaery, a Casa Tyrell. Com o reino se esfacelando, as casas do Norte proclamam Robb Stark, herdeiro de Eddard Stark, a antiga Mão do Rei, como Rei no Norte, buscado tornarem-se novamente independentes do poder do Trono de Ferro. De forma parecida, Balon Greyjoy, senhor das Ilhas de Ferro reclama para si o trono e a independência desta região.

O segundo arco de histórias se passa no norte de Ponente, na região gelada onde foi construída a grande Muralha de Gelo. Este arco segue principalmente as aventuras de Jon Neve, filho bastando de Lorde Eddard Stark e sua ascensão na hierarquia da Guarda da Noite que, por esta época, encontra-se bastante defasada de homens e de status. Ao mesmo tempo em que tenta manter longe a ameaça dos povos selvagens, liderados pelo Último Rei Além do Muro, Jon vai descobrindo a verdadeira natureza da ameaça que vem das desconhecidas terras do norte.

O terceiro arco se passa no continente oriental de Essos e segue os passos de Daenerys Targaryen, chamada de Filha da Tormenta, a última descendente da Casa Targaryen que também reclama para si o Trono de Ferro, como última herdeira dos antigos reis dragões. Ao longo desta parte da historia, descobrimos como Daenerys se transforma, de fugitiva, em uma rainha astuta e poderosa, senhora de muitos segredos e mãe dos últimos dragões vivos.

Durante o primeiro livro, os três arcos argumentativos se mantêm coesos, aparecendo de forma homogênea. Entre o segundo e o terceiro, chamado de A Storm of Swords (Tormenta de Espada, em tradução livre), o foco é mais voltado para as intrigas internas e as consequências da Guerra dos Cinco Reis pelo trono de Ponente. No quarto livro, A Feast for Crows (Festim de Corvos), no entanto, a coisa já muda um pouco de figura. Martin é um escritor ávido por detalhes, e o resultado disto é a inacreditável quantidade de informações presentes em sua obra. Com o desenrolar da história, os livros tornaram-se cada vez mais volumosos para conseguir conter todas as personagens e seus enredos. O terceiro livro, por exemplo, saiu com a exorbitante quantia de 1022 páginas (tão absurda que em muitos países onde foi traduzido, como Espanha, Portugal e França, ele foi dividido em duas edições distintas).

Tentando por um pouco de ordem nesse exagero, Martin decidiu dividi-la em partes, obedecendo aos seguintes critérios; um livro contaria as aventuras das personagens cujas histórias se passariam no continente, enquanto o seguinte traria as escaramuças das personagens do norte e das terras além de Ponente. Assim, enquanto A Feast for Crows traria as histórias da corte e demais localidades dos Sete Reinos, A Dance with Dragons (Dança com Dragões, em tradução livre), o quinto livro da série, daria enfoque às personagens que estão no norte (Jon Neve e Samwell Tarly, principalmente) e de além mar (Gata dos Canais e Daenerys Targaryen, entre outros). Espera-se que o mesmo procedimento seja adotado também para os livros restantes, The Winds of Winter e A Dream of Spring.

Porém, independente do caminho escolhido por Martin para apresentar o desfecho de suas personagens, o fato é que esta série já é um sucesso comprovado, seja em livros, jogos, suvenires ou HQ’s. Tanto que os direitos autorais foram recentemente adquiridos pela rede de TV norte-americana HBO, que pretende transformá-la em uma série nos mesmos moldes do que foi feito com Roma e The Tudors. Os produtores David Benioff e D.B. Weiss, que estão a cargo da adaptação são, inclusive, os responsáveis por estes dois sucessos.

Agora, a dúvida: diante de tão boa publicidade, resta saber o que mais falta para que alguma editora brasileira perceba o potencial desta série e resolva trazê-la, com todos os tils e ãos necessários ao entendimento de nossa língua mater, para o Brasil.

“O INVERNO ESTÁ CHEGANDO”

Ao se ler ASoIaF, tem-se a estranha sensação de que, dentre todos os lemas das muitas Casas Nobres que desfilam diante de nossos olhos ao longo de toda a série, é a divisa da Casa Stark aquela que parece ser a apropriada às personagens como um todo.

Há uma certa fatalidade na maneira de escrever de Martin, como se todos os caminhos levassem ao norte, ao desespero final, como se a vida fosse feita de momentos efêmeros e de esquecimentos e que apenas o final, inevitável, fosse eterno.

Mas, mesmo diante da fatalidade da vida, ainda há a esperança dos dias vindouros. E, talvez, ela venha ligeira nas asas de algum dragão, ou desponte junto ao primeiro raio de sol do verão longínquo. Mas, enquanto isso, é bom que nos preparemos para o longo inverno que se aproxima.
>> OUTRA COISA – por Rober Pinheiro

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