“POEIRA: DEMÔNIOS E MALDIÇÕES”, DE NELSON DE OLIVEIRA

O novo livro de Nelson de Oliveira – o último livro de Nelson de Oliveira – tem um cheiro muito bom.

É também um livro de formato atraente e gostoso de manusear e carregar. A capa tem um verniz especial que a faz mais resistente ao transporte. Mas não é do verniz que vem o cheiro. Nem da tinta preta que cobra as páginas de descanso entre os capítulos. Suspeito que ele venha da tinta castanho-avermelhada que cobre o corte dianteiro e as bordas superior e inferior, para proteger as páginas da poeira.

O assunto do novo livro de Nelson de Oliveira – o último livro de Nelson de Oliveira – é o livro, o objeto livro e o livro como veículo de conhecimentos e significados. Por isso, a bela capa fotográfica de Rico Lins mostra um olho espiando por entre livros abarrotando uma estante. São livros com o corte dianteiro voltado para nós, não a lombada. O que aparece é o lado anônimo, indefinido dos livros. Para mim, ver livro colocado ao contrário na prateleira é falta grave, mas na imagem de Lins a alternância de planos horizontais e verticais cria um efeito em tons pastéis harmonioso e sugestivo.

Poeira: Demônios e Maldições (Língua Geral, 399 páginas) apareceu antes em capítulos, no Rascunho: O Jornal de Literatura do Brasil, entre novembro de 2006 e março de 2008. É ambientado no Brasil – ou em um Brasil, pois é um país bem diferente do nosso. Não é diferente por estar no futuro, num universo paralelo ou realidade alternativa. É diferente no plano da construção literária, da imaginação não-realista, a fabulation que não finge criar uma representação da realidade. Nesse Brasil diferente, não há computadores ou Internet nem telefones celulares, mas muitos livros. A proposta não é utópica, na chave do “livro contra a virtualidade”. Ao contrário, os livros são um problema – são tantos, que não há mais onde armazená-los. A Biblioteca Mário de Andrade tem mais de cem andares, e o governo proibiu a publicação de novos títulos. Não obstante, eles continuam aparecendo. Aparecem em grandes pacotes na biblioteca, deixando o bibliotecário Frederico Nogueira (um dos personagens principais) perplexo e irritado.

Além de Frederico e sua mulher, Estela, e a filha deles, Renata, o romance também apresenta um visitante oficial, Pedro Penna, que logo se interessa por Estela. Há muitas coisas nesse romance, e uma delas é a tensão sexual entre esses dois. E também o temperamento exasperado de Frederico, o langor de mulher grávida de Renata. É um dos elementos de maior brilho deste romance, o desenho dos personagens e a personalidade que o autor lhes imprime – especialmente considerando que os diálogos não são marcados, e suas vozes às vezes se confundem com a do narrador. Que os personagens possuam tanta personalidade é também notável porque eles não estão lá para serem acompanhados na resolução do mistério do aparecimento dos livros, ou num processo de sedução ou de conflito pessoal.

A estranha subversão representada pelo desrespeito à lei dos livros leva a uma tentativa de golpe militar, e a um agravamento do traço absurdista do livro: os personagens são levados a um mundo subterrâneo e forçados a trabalhar lá. E lá encontram uma fábula sobre o crescente desprezo pelo livro, e alegorias do próprio fazer poético.

O romance é simultaneamente divertido e sombrio, entrelaçando a intimidade cotidiana dos seus personagens bem delineados, com o maravilhoso e o absurdo. Este que é o novo livro de Nelson de Oliveira – e o último livro de Nelson de Oliveira – é um romance pós-moderno que dá conta da assim-chamada “crise da representação na literatura”.

O romance realista, característico do século 19, tem aquela estrutura que persiste na literatura de gênero: “aconteceu isto, isso e aquilo e terminou assim.” A crise surge da consciência de que a realidade não é representável por esse esquema realista, e de que a própria linguagem não possui correspondência com as coisas e os fatos. No século 20, a realidade se tornou complexa demais, indefinida demais, incerta, irracional e absurda demais, e o texto literário deve refletir esse estado de coisas. Nessa literatura, verossimilhança e plausibilidade narrativa são irrelevantes – é a harmonização subjetiva dos elementos da composição literária, forma e conteúdo, estilo e caracterização, andamento e diálogo intertextual sugerindo os sentidos e guiando as possíveis interpretações. O próprio efeito do fantástico surge da tensão entre a aparente arbitrariedade do que é narrado, e a coerência e coesão da construção literária.

Nelson de Oliveira realiza uma costura sutil de temas e leitmotifs , alternando humor e tensão, narração e reflexão, e manipulando as expectativas convencionais do leitor, para expô-las e destruí-las. Situações e atmosferas se formam com grande habilidade, e são frustradas no virar da página. O trivial é alternado com o maravilhoso, e o maravilhoso com o trivial. Desse modo, mesmo no estilo e no narrar, a indefinição e a incerteza são configurados. Oliveira diz que para ele é um processo intuitivo, mas as habilidades exigidas vão muito além disso.

A primeira versão de Poeira foi terminada em 1997. Mas Oliveira diz que, “por não estar muito satisfeito com algumas partes, nem cheguei a enviar para a editora, que na época era a Companhia das Letras”. “Então passei a me dedicar ao romance Subsolo Infinito, cuja primeira parte já estava rascunhada. Até que em 2000 eu reli o primeiro romance e gostei da trama e dos personagens, mas senti que faltava ler mais os poetas simbolistas (Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Mallarmé, etc.) e os surrealistas (Breton, Aragon, Soupault e outros).”

O próprio Mallarmé aparece como um personagem, bastante alegórico, em Poeira. A homenagem completa a dimensão programática do romance, colocando no plano da intertextualidade a sua inserção na literatura que reage à crise da representação: Mallarmé, um pré-modernista, foi um dos primeiros a anunciar a crise.

Carl Sagan apontou o fato de que, ao contrário dos animais, que guardam uma maioria de informações geneticamente, a maioria das nossas informações é extra-genética – estão na cultura e se realizam pela escrita e pela leitura. Poeira: Demônios e Maldições surge num momento em que se anuncia uma nova crise: vivemos a era da informação, e a Internet e o globalismo vêm exacerbar o seu trânsito. A cultura se tornou presa da superespecialização, da atomização do conhecimento formal e da setorização social do trânsito de certos contínuos de informações. Com o estabelecimento de novas formas dominantes de conhecimento, formas paralelas (tradicional, alternativo, étnico) entram em perigo de extinção. Ao mesmo tempo, perdemos nessa enxurrada o contato com as linhas mestras da cultura – daí o bibliotecário não saber quem é Mallarmé, quando se depara com ele.

A alegoria de livros que não param de surgir, para além do nosso poder de estocá-los e de dar conta deles, funciona bem para este momento em que a cultura digital ameaça colocar o próprio livro em perigo de extinção. Poeira: Demônios e Maldições pode muito bem ser um dos primeiros romances a figurar a angústia existencial dessa nova crise.

Mas este novo livro de Nelson de Oliveira é o último livro de Nelson de Oliveira, porque o consagrado escritor resolveu não publicar mais ficção com esse nome. Assumindo um pseudônimo, ele passa a escrever “FC e fantasia, com um enredo mais claro”, por sentir “que é o que realmente vale a pena”. Afinal, a ficção científica tem a vantagem de poder indicar caminhos.
>> TERRA MAGAZINE – por Roberto de Sousa Causo

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