NEIL GAIMAN ABRE NOVO PROCESSO CONTRA TODD MAcFARLANE POR DIREITOS AUTORAIS

segunda-feira | 31 | maio | 2010

Personagens de Spawn despertam velha briga entre os criadores

Miracleman

O escritor Neil Gaiman entrou novamente na justiça contra o quadrinista Todd McFarlane por questões de direito autoral. Gaiman, em 2004, ganhou os créditos de cocriador e coproprietário dos personagens Angela,Spawn Medieval Conge Cogliostro, que criou na única edição de Spawn que escreveu, em 1993.

A nova ação é para requerer os direitos sobre personagens que McFarlane teria criado como substitutos dos três acima: as “anjas letais” Tiffany e Domina, e a versão Dark Ages de Spawn. As duas primeiras seriam cópias de Angela, e o terceiro, do Spawn Medieval.

Wisconsin State Journal – da cidade onde Gaiman entrou com a ação – divulgou um trecho da declaração escrita pela juíza do caso, Barbara Crabb, que beira o absurdo. Segundo ela, Angela, Tiffany e Domina seriam“anjos guerreiros com físicos voluptuosos, cabelos longos e maquiagens em estilo máscara. Seus ‘uniformes’ consistem em biquínis, jarreteiras, cinturões para armas largas, luvas até o cotovelo e sutiãs de metal mal ajustados”.

Vale lembrar que Gaiman e McFarlane já brigaram na justiça pelos direitos sobre Miracleman, que o segundo alegava ter comprado com todo o espólio da editora Eclipse. O caso se resolveu fora dos tribunais.
>> OMELETE – por Érico Assis


“TERRA NOVA”: DIRETOR E MAIS DETALHES DA SÉRIE

segunda-feira | 31 | maio | 2010

Terra Nova, a nova série de Steven Spielberg,
já tem diretor para seu episódio piloto.

Alex Graves (de Fringe) dirigirá o drama da família do futuro que volta no tempo à era pré-histórica e que terá ao menos 13 episódios produzidos pela Fox. As gravações do piloto começam na Austrália no final do verão americano.

Segue abaixo mais detalhes da trama e dos personagens:

A história começa em 2149. Na primeira cena, um grande grupo de colonos está se preparando para deixar o mundo apocalíptico em que vivem, usando uma máquina do tempo, para voltar milhões de anos no passado. Seu objetivo é ver as florestas, desfrutar de um céu azul, comer comida de verdade, basicamente, começar de novo neste novo Éden. Mas o que eles encontram é diferente de tudo que estavam esperando.

O grupo de colonos é a família Shannon, que já é o décimo grupo a se juntar à Terra Nova, a primeira colônia de seres humanos nesta segunda chance para a civilização. Jim Shannon, um pai dedicado, expert em xadrez, guia sua família através desta nova terra de beleza sem limites, mistério e terror.

A esposa de Jim, Elisabeth Shannon, é uma cirurgiã escolhida através de uma loteria mundial como uma nova aquisição à equipe médica de Terra Nova. Josh Shannon é seu filho, que lamenta pela garota que deixou para trás, dividido entre seus dois modelos, o pai e o carismático comandante Frank Taylor, o líder da colônia e primeiro ser humano a passar pelo portal do tempo. Maddy Shannon, a filha adolescente do casal, é tão independente e aventureira como seus pais, mas seu descaso pela autoridade logo irá levá-la a um caminho perigoso.

Apesar das oportunidades e novos começos que Terra Nova oferece, os Shannons trouxeram um segredo familiar que pode ameaçar sua própria estada nessa nova utopia. Além disso, esses aventureiros logo descobrem que este saudável e vibrante mundo não é tão utópico e paradisíaco como parecia inicialmente.

Terra Nova está cercada de dinossauros perigosos e outras ameaças pré-históricas, e existem também forças externas que podem ter a intenção de destruir este novo mundo antes que ele comece, além de forças internas que mostram que nem todos enxergam a colônia como a melhor forma de salvar a humanidade.
>> HQ MANIACS – por Will Costa


“GUERRA JUSTA”: O CYBERPUNK NA LITERATURA BRASILEIRA

segunda-feira | 31 | maio | 2010

A Editora Draco e a Livraria Martins Fontes convidam para tarde de autógrafos e bate-papo com Carlos Orsi, autor do romance Guerra Justa e Fábio Fernandes, escritor de ficção científica, sob a mediação de Erick Santos, editor da Draco.

O autor Carlos Orsi receberá os convidados e autografará o seu novo lançamento, o romance Guerra Justa. (152 p, R$30,90). Participará de um bate-papo informal com o escritor Fábio Fernandes falando sobre literatura cyberpunk, gênero de ficção que imagina a sociedade do futuro com alta tecnologia e suas consequências na vida da população, e a religião como instrumento de organização e controle social.

Data e Local: 05/06/2010 – das 15h30 às 18h30h
Livraria Martins Fontes – Av. Paulista, 509, loja 17
Telefone: (11) 2167-9900

CARLOS ORSI
natural de Jundiaí (SP) é jornalista especializado em cobertura de temas científicos e escritor. Já publicou os volumes de contos Medo, Mistério e Morte (1996) e Tempos de Fúria (2005). Seus trabalhos de ficção aparecem em antologias, revistas e fanzines no Brasil e no exterior.


DRÁCULA: NOVA REVISTA MENSAL

sexta-feira | 28 | maio | 2010

Boom! Studios começará em agosto a publicação de Dracula: The Company of Monsters, nova revista mensal estrelada pelo mais famoso dos vampiros.

Nessa história, uma grande corporação acredita ter comprado Drácula, mas é claro que ninguém pode possuí-lo. Para piorar, existe outro monstro nas sombras que pretende ganhar sua liberdade com sangue. Serão chupadores de sangue contra chupadores de sangue nessa nova interpretação do personagem.

O roteiro é de Kurt Busiek e Daryl Gregory e a arte de Scott Godlewski.

O Boom! Studios foi inaugurado em 2005, com a proposta de viabilizar projetos autorais de grandes nomes dos quadrinhos. A editora possui uma série de títulos em vários gêneros diferentes, entre os quais se destacam Hero Squared, Zombie TalesCthulhu Tales e títulos com personagens da Pixar e DisneyMark Waid é seu atual editor.
>> HQ MANIACS – por Leandro Damasceno


“TARZAN – A ORIGEM DO HOMEM-MACACO E OUTRAS HISTÓRIAS”: ÁLBUM RESGATA PERSONAGEM NO BRASIL

sexta-feira | 28 | maio | 2010

Tarzan - A Origem do Homem-Macaco e Outras Histórias. Crédito: reprodução
Capa de “Tarzan – A Origem do Homem-Macaco e Outras Histórias”, álbum que relança histórias do personagem publicadas em 1972

Tarzan foi um dos personagens mais longevos a ocupar as bancas brasileiras. Andava sumido. É resgatado agora num álbum, que relança oito de suas aventuras. “Tarzan – A Origem do Homem-Macaco e Outras Histórias” (Devir, 208 págs., R$ 49) cumpre à risca o que o subtítulo vende: mostra como tudo começou e mais quatro tramas.

As histórias são de um momento de transição. O personagem saía da editora norte-americana Gold Key e migrava para a DC Comics, a mesma de Batman e Super-Homem. A estreia em abril de 1972. A nova casa procurou dar um ar de continuidade, mantendo a numeração da revista mensal. Os rumos criativos, no entanto, foram revistos.

Quem assumiu as histórias do Homem-Macaco foi Joe Kubert, que já trabalhava nos quadrinhos da DC. O quadrinista procurou recriar o clima das primeiras aventuras. “Minha intenção ao fazer Tarzan era injetar a emoção e a proximidade que senti quando li suas histórias pela primeira vez”, diz o quadrinista, na apresentação do álbum.

A missão incluiu reler a literatura sobre o personagem, lapidada por Edgar Rice Burroughs (1875-1950). O escritor publicou a primeira história de Tarzan em 1912. Do contato com os livros, surgiu a recriação da origem do herói das selvas, algo propício para um momento de reinício da revista editorial da revista nos Estados Unidos.

Kubert relembra o leitor os fatos que tornaram Tarzan o rei dos macacos. Ainda bebê, ficou órfão em plena floresta africana. Foi criado a partir de então por uma macaca, Kala. O menino se desenvolveu na selva até encontrar caminhos para reconstruir seu passado e o contato com outros humanos. As demais histórias trazem tramas após tais fatos.

A reedição do álbum, na prática, funciona como um resgate do personagem no Brasil, como bem relembra um texto, no final da obra, assinado pelo editor Leandro Luigi Del Manto. Tarzan estreou por aqui em 1934, no extinto “Suplemento Juvenil”. A carreira como personagem-título de revista em quadrinhos teve início em 1951. Foi publicado até 1989.

Desde então, o Homem-Macaco tem feito aparições em edições especiais ao lado de super-heróis ou numa luta contra o Predador dos cinemas. Nada à altura de sua trajetória. A estreia do personagem ocorreu em 1929, época em que as tiras de jornais eram quase todas de cunho cômico.

Tarzan não. O foco era na aventura, desenhada por Hal Foster (1892-1982), que depois ficou ainda mais famoso com a série “Príncipe Valente”. O ingresso da ação agregou um novo gênero às tiras e estimulou uma lista de outros personagens afins: Jim das Selvas, Flash Gordon, Buck Rogers, Fantasma.

Este álbum é de outro momento do personagem. Mas procura dialogar com o passado dele, inclusive com a participação de Burne Hogarth (1911-1996) na arte de uma das histórias. Hogarth foi quem substitui Hal Foster nos desenhos do Homem-Macaco, em 1937. É tido como uma das principais referências visuais do personagem nos quadrinhos.

O trabalho de Joe Kubert procura recriar esse clima das décadas de 1930 e 40. E consegue, em particular nos quatro primeiros capítulos, que narram a origem do herói. O álbum da Devir resgata a importância de Tarzan para os quadrinhos e dá um primeiro passo para o retorno de outras aventuras dele. É algo histórico, que precisa ser recuperado.
>> BLOG DOS QUADRINHOS – por Paulo Ramos


MARJANE SATRAPI: “FALAR DOS OUTROS É VENTILAR O CORAÇÃO

sexta-feira | 28 | maio | 2010
Marjane Satrapi

No Irã, bordado significa, além da costura feita em pano, cirurgia de reconstituição do hímen, para que a mulher “vire uma virgem” novamente. A palavra batiza o mais recente livro, enfim lançado no Brasil, da iraniana Marjane Satrapi (acima) – autora de clássicos como Frango com ameixa e Persépolis, cuja animação foi indicada ao Oscar em 2008 – e traz a público mais um episódio marcante de sua vida.

A autora, que desde 1994 mora na França, relata um encontro de senhoras durante o samovar, o tradicional bule de chá iraniano – momento de descontração e fofocas. Como dizia a avó de Marjane, personagem principal de Bordados (HQ na Cia / Companhia das Letras), “falar dos outros pelas costas é ventilar o coração”.

A autora faz questão de dizer que a avó tinha um grande senso de moralidade: – Ela sempre me disse: “Marjane, se você vai a uma festa e você não falar com ninguém, eles vão dizer: ‘Quem ela pensa que é?’, mas se você vai a uma festa e começam a rir com todos eles vão dizer: ‘Oh, olhe para esta cadela’. Portanto, não importa o que você faça: as pessoas vão falar de você. Faça o que quiser. Se você não sente vontade de falar, não fale. Se você sentir vontade de rir, ria”.

bordados de marjane satrapi FUC FUC

Durante o chá da tarde relatado no livro, o assunto gira em torno de histórias sobre amor e sexo. A cada relato, novas surpresas. Há desde a mulher que nunca viu um pênis porque sempre fazia amor no escuro até as que casaram cedo – e intocadas – com homens muito mais velhos, inclusive golpistas, galinhas e até homossexuais enrustidos.

O traço, simples e em preto e branco da autora, vira mero detalhe diante de diálogos fluidos, diretos e bem-humorados. Mademoiselle Sartrapi não tem papa na língua. Numa das cenas, uma senhora pergunta a outra se a pelezinha pendurada não dá nojo. A que a outra responde: “O prepúcio? Acho que em geral nenhum pau é lá muito fotogênico”.

bordados de marjane satrapi prepucio

E mesmo num país onde as mulheres se submetem aos homens, sobra espaço para defender os amantes, que estão sempre bem apresentados durante os encontros secretos.

No Irã, a virgindade tem alto valor, e as mulheres mais velhas apelavam para todo tipo de mandingas. Uma delas consistia em colocar uma chave dentro da vagina logo depois de fazer amor, inseri-la numa xícara de chá e dar para o marido beber em no máximo 77 segundos (!).

bordados de marjane satrapi chazinho

Como já virou marca registrada, em determinados momentos, a autora faz críticas à indústria cultural, através de seus personagens. Como é o caso da MTV, que, segundo a avó, é um “canal de idiotas cantando seminus”. E a matriarca é quem dá o toque final com mais uma de suas tiradas, lembrando que na vida “às vezes você está montada no cavalo, às vezes é o cavalo que monta em você”.
>> JORNAL DO BRASIL- por Pedro de Luna


SERES FANTÁSTICOS NA LITERATURA: DRAGÕES

quinta-feira | 27 | maio | 2010

“Há muito tempo, desde o começo da humanidade,
o dragão,

com seu corpo de serpente e seus poderes mágicos,
esteve presente entre nós,

sugerindo-nos que existe um ser imortal presente
no interior de todas as coisas.”

Francis Huxley[1]

O Dragão é provavelmente a criatura fantástica mais conhecida e discutida do mundo. Existe em todas as tradições, sob uma forma ou outra. É ligado aos quatro elementos, ou seja, também é um ser elemental – segundo a teoria filosófica pré-socrática de que o mundo seria composto por quatro elementos básicos: ar, água, terra e fogo. Dizia o filósofo Empédocles (século IV a.C) que essas quatro raízes compunham tudo o que existe, sendo animadas por duas forças contrárias, que foram chamadas de “amor” e “ódio”: ou seja, a força de atração e a força de repulsão. Muitos seres fantásticos da mitologia e da literatura têm essa ligação com algum dos quatro elementos. No caso do Dragão, ele seria um ser do fogo e/ou da água, e seu caráter se altera dependendo da mitologia em questão.

A palavra vem do grego drákon e também do latim draco. Parece derivar do verbo grego derkomai, “ver”; ou deskesthai, “lançar olhares”. Estaria, então, associado à idéia de ver, olhar e, portanto, conhecer. Não é de se admirar, então, que as lendas digam que é perigoso olhar nos olhos de um dragão.

 

 “Muitas tradições falam de um abismo cheio de água revolvida por um espírito ardente

que pode ver graças à sua própria luz. Assim, como nos contam os Upanishads hindus,

o espírito olha faminto ao seu redor; esta ação é que dá ao dragão o seu nome (…)”. [2]

A palavra para designá-los em algumas línguas (Drache, Drake) também designa as serpentes. Outra palavra antiga para dragão é Verme, que vem de Worm ou Wyrm.

O dragão mais antigo das histórias pode ser Tiamat, uma divindade babilônica que personificava o Caos: o universo antes de ser organizado. Diz o Enuma Elish, Mito de Criação Babilônico, que Tiamat era a água salgada, em oposição a Apsu, a água doce. Da mistura de suas águas surgiu o universo, e deu-se à luz os primeiros deuses. Mais tarde os deuses mataram Apsu; Tiamat, com personalidade feminina, voltou-se contra eles e começou a gerar monstros, inclusive os primeiros dragões. Ela seria morta pelo deus-herói Marduk, e de seu corpo ele teria criado o céu, a terra, os astros, os rios, os seres vivos.

Para os chineses, eles são criaturas benignas e de vários tipos: o Dragão Divino, o Dragão Terrestre, o Subterrâneo. Dragões seriam antepassados dos imperadores da China; o primeiro governante a assumir a forma dracônica foi o lendário Fu Hsi. Ainda segundo tradições chinesas, existiam quatro Dragões da Água que governavam os quatro oceanos do mundo: Ao Kuang, Ao Jun, Ao Shun e Ao Chi. Todos eram servos do Imperador de Jade e moravam no fundo das águas.

Vem também da China a crença de que eles teriam atributos de nove “animais”: chifres de cervo, cabeça de camelo, olhos de demônio, pescoço de serpente, barriga de molusco, escamas de peixe, garras de águia, pés de tigre e orelhas de boi.

Seria, então, o dragão um animal que viveu em eras passadas, como os antigos sáurios? Ou será que, quando os antigos encontravam enormes ossadas fósseis, julgavam que aqueles eram ossos de animais desconhecidos, fantásticos? Talvez venham daí as primeiras histórias sobre dragões na cultura humana…

“Os chineses dizem que o fogo do dragão e o fogo humano são coisas opostas. Se o fogo do dragão entrar em contato com algo úmido, lança chamas; e se entrar em contato com a água, incendeia-se.

Se alguém se enfrenta a ele com fogo, conseguirá fazê-lo parar de arder e as chamas se extinguirão.

Isso, por sua vez, pode ser comparado com a correspondência alquímica do dragão com a Matéria Prima e com a regra segundo a qual, para limpar uma substância, não se deve usar água, mas fogo. [3]

Por muito tempo acreditou-se que as salamandras seriam pequenos dragões. Há referências a elas em bestiários medievais e em obras de não-ficção. O próprio Santo Agostinho as cita como animais que vivem no fogo, querendo provar que os corpos humanos poderiam viver no fogo do inferno sem ser consumidos!

E tanto Aristóteles quanto Leonardo da Vinci atestaram a existência real desses animais como capazes de viver nas chamas. Marco Polo diz ter visto em suas viagens tecidos de pele de salamandra, que não queimavam no fogo – embora, na verdade, desconfie-se que esses tecidos eram feitos de amianto.

Como vimos, além do fogo, os dragões são associados fortemente ao elemento água. Ou estão nas nuvens, e são senhores da chuva, ou nos mares e rios; para os chineses, a chuva fina é celestial, mas a tempestade violenta é a “chuva do dragão”… E encontramos em variados folclores a ideia de que, se uma mulher banhar-se em rio ou mar, pode engravidar pela ação de um ser mítico: cobra grande, boto, serpente, sempre uma criatura com características dracônicas. Isso liga os dragões aos m’bois, as cobras gigantes do folclore brasileiro. O m’boi é o arquétipo do dragão na América Latina.

Se no Oriente os dragões estão ligados à chuva, sua capacidade de exalar ou projetar fogo aparece mais nas lendas do Ocidente. Longe da tradição que os considera como benignos ou neutros, em histórias ocidentais ele simboliza forças demoníacas. É esse o sentido da história de São Jorge: o Cruzado (que é o Cristianismo) mata o dragão (vence o demônio) e converte o mundo. Faz sentido um ser infernal ter domínio do elemento fogo, e eis aí porque as pessoas acreditaram em tais criaturas com hálito ardente.

Há na verdade duas histórias de São Jorge. Uma, que pertence à história cristã, conta sobre um cavaleiro da Capadócia que lutou nas Cruzadas. Outra conta sobre um cavaleiro que salvou uma princesa de ser devorada por um dragão. As duas convergiram em uma só, que aparece em variadas versões.

Jorge foi um mártir cristão nascido na Capadócia, na Ásia Menor. Consta que foi morto na Palestina no ano 303, conforme inscrições encontradas numa igreja da Síria e atestadas por um Cânon do Papa Gelasius I, de 494.

Diz uma lenda que em certa cidade pagã da Líbia um dragão aterrorizava o povo, que tentava aplacá-lo com ofertas de ovelhas e de seres humanos em sacrifício. Quando, escolhida por sorteio, a próxima vítima devia ser a filha do rei, o povo a levou até o monstro para ser morta. Nesse momento, um cavaleiro que voltava das Cruzadas chegou lá, matou o dragão, libertou a princesa e todos os habitantes locais se converteram ao Cristianismo como agradecimento ao herói. [4]

Outra versão da história diz que a cidade era Silene, também na Líbia, e que o dragão se abrigava num pântano. Todas as moças já haviam sido sacrificadas a ele: a última viva era a filha do rei. Jorge, o cavaleiro, chegou ao pântano e libertou a princesa. Ela, então, tomou seu cinto e prendeu o dragão pelo pescoço com ele, conduzindo-o para a cidade; lá, em vista de todos, Jorge o matou. Mas não quis aceitar a mão da moça em casamento, mantendo sua castidade de missionário cristão. [5]

Embora São Jorge hoje não seja mais um santo “oficial”, em 1222 o Concílio de Oxford instituiu a Festa de São Jorge no dia 23 de abril, e no século XIV ele se tornou o Santo Padroeiro da Inglaterra. Não é de se admirar, já que o herói mítico mais popular do Reino Unido, Arthur, é um Pendragon, e sua linhagem ostentava o dragão como símbolo. A própria bandeira do País de Gales mostra um dragão vermelho sobre um campo verde e branco. Podemos supor que o branco simboliza o mundo espiritual e o verde o mundo terreno; o dragão colocado sobre ambos demonstra seu domínio sobre céu e terra, espírito e matéria.

A mitologia grega também está repleta de dragões. Um dragão atacou os homens de Cadmo, que buscava sua irmã Europa, raptada por Zeus; o herói o matou e a deusa Atena sugeriu que ele semeasse os dentes do bicho. Dos dentes brotaram da terra guerreiros armados que lutaram até destruir-se; os que sobraram fundar com Cadmo a cidade de Tebas. Heróis como Héracles também enfrentaram dragões; um dos mais famosos foi Ládon, que guardava os pomos de ouro do jardim das Hespérides, filhas de Atlas.

Já na mitologia Nórdica temos Fafner, do Anel dos Nibelungos, o gigante e inimigo dos deuses que, transformado em dragão, dormia sobre o Ouro do Reno. E na mitologia Anglo-Saxã encontramos Grendel, o dragão que atacou a Dinamarca e que seria morto por Beowulf. Em tais relatos, de inspiração europeia, é comum haver uma ligação entre os dragões e tesouros preciosos. Um autor especulou que ouro e pedras preciosas seriam matérias desejáveis aos dragões, pois o ouro, metal incorruptível, formaria um leito não-corrosivo para o verme – algumas histórias falam em dragões que soltam ácido – e as gemas, quase  indestrutíveis, protegeriam seu ventre das armas humanas como uma couraça preciosa. [6]

Na ficção, cada autor utiliza os dragões da forma que deseja. Em ficção científica os mais famosos talvez sejam os Dragões de Pern, descritos pela autora Anne McCaffrey. Na fantasia, temos os dragões descritos por J. R. R. Tolkien, como Glaurung, criado por Morgoth para atacar elfos e humanos. E muitos outros, como os que habitam o mundo de Harry Potter; esses estão divididos em espécies oriundas de vários pontos do mundo. São descritos com características biológicas detalhadas; e sim, cospem fogo.

Nas “Crônicas de Spiderwick”, o personagem Arthur Spiderwick diz que eles pertencem à família Draconidae, em duas espécies: o Wyrm, terrestre (Draco antiquissimus) e o Wyvern, alado (Draco Alatus).

Na Trilogia da Herança, de Christopher Paolini, os dragões estão quase extintos e são ligados a seus cavaleiros desde antes do nascimento – o que os aproxima dos dragões de Pern, que saem do ovo para pessoas específicas, ficando ligados a elas por toda a vida. O mesmo ocorre com dragões nas histórias de Téméraire, da autora americana Naomi Novik. Nessa história alternativa das guerras napoleônicas, os humanos treinam dragões para a guerra numa força aérea, e também existe a ligação profunda, desde que o dragão sai do ovo, entre ele e seu cavaleiro, ou melhor, dragaleiro, já que dragões não são cavalos.

Não é difícil concluir que, muito mais que o unicórnio, a fênix ou os centauros, o dragão é o ser fantástico mais presente em mitos, lendas e ficção. O fascínio que sua figura exerce sobre nós é extraordinário. Do ponto de vista simbólico, podemos até dizer que o dragão representa nosso próprio fogo interior, que algumas tradições esotéricas chamam de Kundalini, o fogo serpentino que se acredita ser a fonte da criatividade e da sexualidade no ser humano.

Não existem limites para a aparição dos dragões na literatura. Animais ou seres racionais superiores, senhores da chuva ou lançadores de fogo, suas histórias ainda vão nos encantar por muitos séculos.


“Aqui é o lugar onde os dragões foram parar. Eles repousam… nem mortos, nem adormecidos.

Nem à espera, porque esperar implica ter alguma expectativa.

É possível que a palavra seja… entorpecidos.

E, embora o espaço que ocupem não seja como o espaço normal,

ainda assim estão amontoados e apertados uns contra os outros.

Não há um centímetro cúbico que não contenha uma pata, garra, escama ou a ponta de uma cauda. O efeito disso é comparável àqueles desenhos de ilusão de ótica,

e nossos olhos acabam percebendo que o espaço entre cada dragão é, na verdade, outro dragão.

É possível imaginar uma lata de sardinhas,

isso se você achar que as sardinhas são enormes, cheias de escamas, orgulhosas e arrogantes.

E que, supostamente, em algum lugar, há um dispositivo de abertura.”

Terry Pratchett[7]

Leituras sugeridas:

O Silmarillion – J. R. R. Tolkien – Ed. Martins Fontes
Crônicas do Mundo Emerso (3 volumes) – Licia Troisi – Ed. Rocco
His Majesty’s Dragon – Naomi Novik – Ballantine Books
The Fire Within – Chris d’Lacey – Scholastic Books
Crônicas de Dragonlance (3 volumes) – Margareth Weis e Tracy Hickman – Ed. Devir
Como criar e cuidar de um dragão – John Topsell – Ed. Marco Zero
Dragonflight – Anne McCaffrey – Ballantine Books


[1] Huxley, Francis. Mitos, Deuses, Mistérios: o Dragão. Espanha: Ed. Del Prado, 1997. Pp. 05-07.
[2] Idem.
[3] Huxley, Francis, op. Cit., p. 9.
[4] Fonte: Microsoft Encarta Enciclopédia, 2000.
[5] Fonte: Francis Huxley, op. Cit., p. 15.
[6] Dickinson, Peter. Flight of Dragons, The. 1979.
[7] Pratchett, Terry. Guardas! Guardas! São Paulo: Conrad do Brasil, 2005. P. 11.

>> VALINOR – por Rosana Rios