O DRAGÃO E SUA MAJESTADE

 
Nestes tempos de alta da literatura fantástica, com dezenas de títulos pulando das editoras para as prateleiras das livrarias todos os dias, é de se esperar uma repetição exaustiva de temas e histórias. Reinos distantes, paladinos, magos, elfos e companhia se multiplicam às pencas, em embalagens muito ou pouco chamativas que na maioria das vezes nada tem a ver com seu conteúdo. Não que a avalanche de títulos figure em si como uma coisa ruim. Antes, pelo contrário. Mas é que, seja pela pressa de ver o material impresso ou por não querer ficar fora da onda, muitos autores acabam publicando suas histórias de qualquer jeito, sem o menor cuidado técnico ou gráfico. E o que poderia render uma boa fábula, acaba virando apenas mais um número.

Deste modo, quando surge alguma novidade digna de nota no meio dessa avalanche mimética, temos que levantar as mãos para os céus e dar vivas. A série Temeraire, da norte-americana Naomi Novik, cujo primeiro volume, “O Dragão de Sua Majestade” [His Majesty’s Dragon, no original], foi lançado recentemente pelo selo Galera Record, se enquadra neste rol de gratas surpresas.

Saído da mente fértil desta ex-designer de games, o primeiro livro da série abre as cortinas de uma era alternativa e nos joga em plena época das guerras napoleônicas, num mundo em que dragões são tão comuns quanto naus de batalha.

Na história, Will Laurence, capitão do navio Reliant, da armada inglesa, captura um ovo de dragão de uma fragata francesa numa escaramuça em alto mar. No auge da comemoração pelo valioso botim, a notícia de que o ovo está prestes a chocar deixa a todos apreensivos. Isto por que, uma vez saído da casca, o jovem dragão precisa ser imediatamente adestrado por um aviador [espécie de “piloto de dragão”], que poderá fazer dele um poderoso aliado na guerra contra as forças de Napoleão Bonaparte. Caso contrário, a criaturinha recém nascida poderá ganhar os céus e se tornar uma fera selvagem. O problema é que no navio não há ninguém com o mínimo de conhecimento necessário para empreender tal tarefa, e o prêmio, antes tão comemorado, periga se tornar um problema sério. Laurence, então, se vê obrigado a nomear alguém para por os arreios no dragão e evitar que ele se torne incontrolável e ponha em perigo toda a tripulação. Entre seus homens de confiança é eleito por sorteio um “afortunado” que deverá arcar com a difícil tarefa de tornar-se um “cuidador de dragão”, um membro eterno da Força Aérea Inglesa. Porém, o jovem escolhido sequer é notado pela criaturinha quando da eclosão do ovo e Laurence não tem outra saída a não ser assumir para si a responsabilidade.

Interessante notar nesta primeira parte do livro o cuidado da autora com a pesquisa histórica referente à rotina de um navio de guerra do século XVIII. Laurence é o típico capitão inglês, metódico, distante e com uma polidez que beira as raias do exagero. Sua tripulação o tem na mais alta conta e a isso ele faz jus mantendo as rédeas do navio com pulso firme, porém justo. O navio é a sua jóia no oceano de incertezas da guerra e a vida no mar sua maior paixão, razão que torna ainda mais difícil aceitar a missão de cuidar do dragão.

Nascida à cria, eis que surge a necessidade do primeiro contato e da nomeação do futuro membro da Elite Aérea, como numa espécie de ritual de passagem, de aceitação, por parte do jovem dragão, de seu cuidador. Nesta altura da história, os puritanos hão de torcer um pouco o nariz, dada a condição extraordinária em que se encontra o pequeno réptil alado. Mal saído do ovo, ele já consegue se expressar no mais perfeito inglês britânico, como se vindo de um curso intensivo de línguas ministrado na própria Oxford. A explicação da autora para tal feito é a de que algumas raças de dragões têm a capacidade de aprendizado instantâneo de idiomas — e, além disso, podem apreendê-lo também de dentro da casca — outra justificativa fácil para o que se verá mais tarde, n’est-ce pas? Porém, convenhamos, tal explicação soa bastante oportuna e inverossímil.

Perdoadas as devidas idiossincrasias literárias da obra e batizado de Temeraire [que, por uma dessas coisas inexplicáveis da vida, no Brasil não foi traduzido para Temerário, mantendo-se o nome original], o dragão, pertencente a uma raça até então desconhecida, é incorporado à tripulação do Reliant e Laurence, agora seu cuidador, num contraponto interessante, abdica de seu posto de capitão e passa a cuidar em tempo integral do jovem, faminto e curioso réptil alado.

Aqui, começa a boa e velha jornada do herói — e, neste caso em especial, também de seu dragão. Temerário [para aportuguesarmos a coisa] e Laurence são apresentados à Forma Aérea Inglesa e, como manda o figurino, passam pelas etapas de aclimatação, de rejeição, de superação dos desafios, da prova de valor e coragem para, finalmente, chegarem à aceitação.

Aliás, é durante o treinamento de homem e dragão que ficamos conhecendo mais acerca do universo criado pela autora. E este ponto é, talvez, a parte mais interessante do livro.
Ao mesmo tempo em que apresenta fatos da história conhecida, como as famosas manobras táticas de Napoleão e os enfrentamentos entre as forças navais francesas e inglesas, como a Batalha de Trafalgar, que pôs em lados opostos os almirantes Villeneuve e Nelson (considerado por muitos como o maior estrategista naval que já existiu), a autora vai tecendo uma nova história, colocando um dragãozinho aqui, um ovinho pronto para eclodir ali, e explicando sobre as muitas raças de dragões e seus respectivos usos e atributos nas diferentes frentes de batalha, chegando, inclusive, a mencionar a existência de dragões no Brasil.
Um fato que achei especialmente curioso é a preparação de um dragão para uma batalha. São colocados dezenas de correias e cabos em volta do corpanzil da criatura e neles atados cordas e cinturões menores que tem por finalidade manter a tripulação presa ao dragão. Isso mesmo, tripulação. Plural!

Um dragão de grande porte, como os da raça francesa Grand Chevalier [ou mesmo os dragões celestiais, raça chinesa à qual pertence Temerário — sim, sim, ele é um produto made in China!], tem a capacidade de carregar até quinze pessoas, distribuídas em alojamentos móveis presos ao dorso, pescoço, laterais e barriga. Até aí, nada demais. O problema é quando se tenta explicar o funcionamento dessas “aeronaves de combate”. Há cenas em que a autora simplesmente não respeita a lei que especifica que dois corpos, realmente, não ocupam o mesmo lugar no espaço, quanto mais dois dragões — há um momento em que dois deles vão em socorro de um terceiro e, como forma de resgate, o sustentam sobre o dorso —, isso sem falar no espaço para manobra das asas ou na própria logística em si. Em alguns momentos, é difícil engolir uma penca de homens subindo e descendo pelas laterais de um dragão a 300 quilômetros por hora.

Apesar dessas incongruências, a leitura é leve e a história flui muito bem. Grande parte dessa fluidez se dá graças à interação entre dragão e cuidador: Laurence, o típico inglês, frio e polido, e Temerário, um poço infindável de questionamentos, formam uma dupla, no mínimo, inusitada e, por isso mesmo, certeira.

O livro segue num ritmo cadenciado até a batalha final, quando Napoleão finalmente leva a cabo a invasão através de uma artimanha que, se não fosse oportuna, soaria ingênua.
O gran finale, aliás, ficou muito aquém daquilo que o livro prometia até ali. Cenas muito rápidas, grande parte delas focadas exclusivamente em Laurence e Temerário — mesmo quando havia ao lado deles dezenas de outros dragões duelando — e um final de certa forma esperado e rápido. Ao menos, o desfecho para o dragão não foi assim tão previsível.
No saldo geral, o livro traz um fôlego novo e, apenas pela temática, já vale uma boa olhada. Os pontos falhos e incoerências existem, mas nada tão exagerado que estrague o prazer da leitura. Ah, e como toda boa ideia nunca se fecha em si mesma, o primeiro Temeraire deixa uma porta escancarada para continuação, tanto que dela já se originaram histórias para outros quatro livros.

Em tempo: a capa nacional do primeiro volume, com uma pegada mais infanto-juvenil, deixou muito a desejar em relação às capas internacionais. Talvez, apenas um erro de percurso na escolha da ilustração ou talvez apenas mais uma amostra de um mercado míope que age como se apenas crianças e adolescentes lessem literatura de fantasia.
>> OUTRA COISA – por Rober Pinheiro 4/2008

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