O VIÉS TEÓRICO


Marie Bonaparte

Um dos fascínios da obra de Guimarães Rosa é a criação de palavras novas, por derivação, fonetização, tradução, deformação, prefixação e sufixação inesperadas… Não nego que existe aí um vasto campo para estudo, mas o problema é que os estudos disso são todos parecidos. Gosto quando um crítico descobre um viés diferente. Ana Maria Machado, por exemplo, estudou a formação dos nomes próprios dos personagens de Rosa. Suzi Frankl Sperber analisou a presença, na obra dele, das idéias místicas (esoterismo paulista, os Upanishad, Platão, Plotino, Sertillanges, Ciência Cristã, etc.). Valentin Paz-Andrade demonstrou a presença da cultura da Galícia (palavras, formações verbais, costumes, provérbios, etc.) nos livros de JGR. Cada viés novo traz uma nova janela de informações.

Um livro muito citado nos estudos sobre Edgar Allan Poe é o da princesa Marie Bonaparte, de 1949, em que ela analisa Poe à luz da psicanálise, vendo em seus contos sintomas ligados a necrofilia, complexo de Édipo, impotência, regresso ao útero, e por aí vai. Não li o livro. Como é muito citado, sempre vejo exemplos aqui e ali. Uns me parecem na mosca, outros me parecem bola na trave. Sempre acho que um dos equívocos dos psicanalistas é achar que a psicanálise explica tudo. Mas o livro da aluna de Freud foi sem dúvida, no momento em que surgiu, uma visão nova e iluminadora da obra de Poe.

Por falar em Poe, vejam o caso de Augusto dos Anjos. Sempre descrito como o Poeta da Morte, teve inúmeros livros escritos a seu respeito. Eram “comentários de conteúdo”, sobre sua morbidez e a sua obsessão com a tuberculose, a ponto de muitas vezes se dizer que ele morreu tuberculoso (morreu de pneumonia, resultante de uma chuva). Pois em 1977 Ferreira Gullar fez um ensaio-prefácio para os poemas de Augusto em que pela primeira vez (para mim, pelo menos) sua poética foi analisada a sério, inclusive mostrando todos os seus aspectos de modernidade (uso de linguagem corriqueira, não-poética, por exemplo). Minha visão de Augusto mudou para sempre, porque o novo viés adotado por Gullar pareceu dar um novo colorido a cada verso daqueles poemas.

Leio tudo que encontro de interessante sobre romance policial, um dos meus gêneros preferidos. Uma das obras que mais me revelaram sobre o gênero foi Delícias do Crime – História Social do Romance Policial de Ernest Mandel (Ed. Busca Vida, São Paulo, 1988). Para quem não conhece, Mandel é um pensador marxista, autor de diversos livros sobre economia e política, dos quais eu já folheara A Formação do Pensamento Econômico de Karl Marx (Ed. Zahar) nos tempos de Faculdade. A análise de Mandel sobre as forças sociais por trás do romance de crime e mistério é cheia de pequenas e brilhantes revelações. O único problema é que o marxismo, como a psicanálise, acha que explica tudo. Seria interessante um debate ao vivo em que a psicanálise fosse analisada à luz do marxismo, e vice-versa.
>> MUNDO FANTASMO – por Braulio Tavares

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