OS PARADOXOS DO HORROR

O menino assustado não desgruda os olhos da TV. A mãe sabe que ele terá pesadelos e o chama para ir deitar, mas ele se recusa. Quer ver até o final.
Esta cena parece comum. Lembramos que nós mesmos poderíamos ser aquele menino e mesmo hoje ainda nos assustamos com um ataque do Alien, ou sentimos calafrios a ver A Hora do Pesadelo ou sentimos a sensação de suspense ao ver um episódio de Além da Imaginação, ainda que tenha efeitos especiais extremamente toscos.

Diante desta constatação, surgem duas perguntas básicas:

Por que sentimos medo, suspense ou angustia diante de uma história que sabemos ser falsa?

Por que procuramos este tipo de literatura ou cinema, se sabemos que ela nos causará algum tipo de desprazer?

O fato de se existir histórias de terror desde quando um homem de Cromagnon assustou seus companheiros de caverna aumentando um pouco o tamanho do tigre de dentes de sabre que o perseguiu, nos mostra a solidez deste gênero de histórias.

Tenho lido ou visto ao longo de minha vida vários livros e filmes que de uma forma ou outra se enquadram nestes gêneros. Também tive contato com várias teorias que tentam explicar este tipo de fenômeno, desde obras de filosofia e psicologia a prefácios de livros deste gênero de literatura. O que não me torna uma autoridade no assunto, mas pelo menos um leitor bem informado. E nesta categoria é que pretendo discorrer.

Uma das respostas possíveis à primeira pergunta é “a suspensão temporária da realidade”, que ocorre em qualquer obra de ficção. Se assim não fosse, não poderíamos lidar com nenhum tipo de ficção, pois sequer riríamos de uma boa piada…

Esta suspensão não é plena, pois sabemos que se fecharmos o livro ou mudarmos de canal o monstro não estará mais ali (do contrário, seríamos sérios candidatos a uma consulta ao psiquiatra).

Como parte ou complemento desta suspensão, temos a identificação com os personagens (o herói, a vítima, o narrador ou até o monstro). Muitas vezes nos surpreendemos nos dizendo “isso poderia estar acontecendo comigo”.

Apesar desta identificação, o nosso sentir muitas vezes não é o que o personagem pode estar sentindo. O detetive, no encalço de um assassino, passa por várias emoções, mas nunca o suspense (esta é uma emoção típica de um espectador, que às vezes sabe mais que o personagem). Mas outras, como o medo, a repulsa, alguns tipos de susto e o desejo sexual podem estar ligados diretamente ao personagem ao qual nos identificamos.

Isso parece ter respondido à primeira questão.

Entretanto, a literatura que explora o suspense, o terror ou o horror lida com emoções profundamente negativas. Será que nós, leitores de Drácula, somos todos masoquistas?

Claro que não!

Podemos elencar alguns motivos pelos quais nos aproximamos de uma obra deste estilo.

Fuga da vida moderna. Nosso corpo e nossas emoções estão preparadas para uma vida nas selvas, onde podemos ser vítimas ou predadores durante nossa busca pelo alimento. Porém estes problemas foram resolvidos e em vez de correr atrás do antílope ou fugir do leão, vamos ao mercado e compramos um bife e o único leão que enfrentamos é o do imposto de renda. Todavia sentimos falta desta vida pela qual fomos preparados ao longo de milhões de anos e buscamos isso nos livros e filmes de suspense e terror.

Experiência de transcendência. Esta é a tese de Lovecraft. Um bom enredo de terror nos coloca frente a frente com nosso medos primais, a ponto de termos a mesma experiência de um homem primitivo diante dos fenômenos da natureza. O racionalismo nos tira o medo do trovão que um homem das cavernas teria, mas ao empregarmos “a suspensão temporária da realidade”, podemos atingir este mesmo estágio e termos o medo primal diante de Cthulhu ou outro monstro similar.

Rito de passagem. Uma boa parte dos filmes de terror e horror é voltada para o público adolescente, que quer provar para o seu grupo que tem coragem e demonstra isso comentando detalhes mais sanguinolentos de Sexta Feira Treze. Há um episódio de Doug onde isso é mostrado. Ele se sente inferiorizado frente a seus amigos por ter fechado os olhos no momento em que o monstro aparece na tela. Um outro bom exemplo são os “testes” do Zé do Caixão, onde ele fazia os candidatos a ator passar por experiências do tipo “comer minhoca” e só “os mais fortes” eram aprovados…

Catarse de emoções reprimidas. Nossa sociedade, além de resolver nossos problemas de sobrevivência, em contrapartida nos coloca uma série de restrições de ordem moral, a maioria das vezes arbitrária. Então, alegoricamente, nos recorremos a uma boa história de terror pra por pra fora esta repressão. Dentre estas restrições, a mais evidente é o sexo. O ato de penetração passa a ser os dentes do vampiro no pescoço da mocinha. Ou então a violência. Em vez de dar uma surra no meu vizinho inconveniente, torço pro herói matar o monstro na tela do cinema.

Trama complexa de mistério e descoberta. A maior parte dos enredos deste tipo (mesmo Sexta Feira Treze) envolve um problema que precisa ser resolvido, atingindo não mais nosso troglodita, mas o homem civilizado, que se encanta em resolver um bom mistério. Um bom exemplo é O Médico e o Monstro, onde só sabemos que o Médico e o Monstro são o mesmo ser nos últimos parágrafos da trama.

O suspense em si mesmo. Gostamos de torcer pelos personagens que estão passando por apuros e que não estão vendo que o assassino com a faca na mão está atrás da cortina. Isso está ligado á nossa capacidade de empatia, que nos permite ser solidário diante da dor do outro.

Identificação com o herói. A maioria de nós tem uma série de limitações de ordem física (somos fracos, feios ou carecas) ou externas (moro num “apertamento” minúsculo) que o herói não tem. É lógico que ele tem um monstro por dia pra matar, mas, e daí? Ele vai ficar com a mocinha no final… Então, por umas duas horas posso ser ele.

Identificação negativa. Às vezes nos identificamos não com o herói, mas com a vítima (que sofre alegoricamente o mesmo que sofremos no dia a dia) ou com o monstro, que após alguns maus bocados percebemos que ele é uma vítima da sociedade repressora como nós somos. É caso de King Kong (vítima da ganância) e do monstro de Frankstein (rejeitado pelo seu criador).

Efeito montanha russa. A montanha russa nos leva a uma situação de perigo aparente e depois de concluída, dá a sensação de alívio. Ao vermos um filme ou lermos um livro de terror ficamos aliviados ao saber que aquilo era apenas uma história. É o mesmo que calçar um sapato apertado pra depois ter o prazer de tirá-lo.

Alegoria sociológica ou política. Podemos usar o ambiente de um filme de terror para criticar ou exaltar a sociedade em que vivemos (o já citado King Kong, Jurassic Park, algumas histórias de zumbis, como Fido).

Estes foram os motivos que eu elenquei. Com certeza não são todos, mas são bem representativos. E quais são os seus motivos? Mas não racionalize muito, do contrário talvez o próximo livro ou filme de terror que você for ler ou ver não pareça tão interessante…
>> BLOG DO PAI NERD – por Álvaro Domingues

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