MARJANE SATRAPI: “FALAR DOS OUTROS É VENTILAR O CORAÇÃO

Marjane Satrapi

No Irã, bordado significa, além da costura feita em pano, cirurgia de reconstituição do hímen, para que a mulher “vire uma virgem” novamente. A palavra batiza o mais recente livro, enfim lançado no Brasil, da iraniana Marjane Satrapi (acima) – autora de clássicos como Frango com ameixa e Persépolis, cuja animação foi indicada ao Oscar em 2008 – e traz a público mais um episódio marcante de sua vida.

A autora, que desde 1994 mora na França, relata um encontro de senhoras durante o samovar, o tradicional bule de chá iraniano – momento de descontração e fofocas. Como dizia a avó de Marjane, personagem principal de Bordados (HQ na Cia / Companhia das Letras), “falar dos outros pelas costas é ventilar o coração”.

A autora faz questão de dizer que a avó tinha um grande senso de moralidade: – Ela sempre me disse: “Marjane, se você vai a uma festa e você não falar com ninguém, eles vão dizer: ‘Quem ela pensa que é?’, mas se você vai a uma festa e começam a rir com todos eles vão dizer: ‘Oh, olhe para esta cadela’. Portanto, não importa o que você faça: as pessoas vão falar de você. Faça o que quiser. Se você não sente vontade de falar, não fale. Se você sentir vontade de rir, ria”.

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Durante o chá da tarde relatado no livro, o assunto gira em torno de histórias sobre amor e sexo. A cada relato, novas surpresas. Há desde a mulher que nunca viu um pênis porque sempre fazia amor no escuro até as que casaram cedo – e intocadas – com homens muito mais velhos, inclusive golpistas, galinhas e até homossexuais enrustidos.

O traço, simples e em preto e branco da autora, vira mero detalhe diante de diálogos fluidos, diretos e bem-humorados. Mademoiselle Sartrapi não tem papa na língua. Numa das cenas, uma senhora pergunta a outra se a pelezinha pendurada não dá nojo. A que a outra responde: “O prepúcio? Acho que em geral nenhum pau é lá muito fotogênico”.

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E mesmo num país onde as mulheres se submetem aos homens, sobra espaço para defender os amantes, que estão sempre bem apresentados durante os encontros secretos.

No Irã, a virgindade tem alto valor, e as mulheres mais velhas apelavam para todo tipo de mandingas. Uma delas consistia em colocar uma chave dentro da vagina logo depois de fazer amor, inseri-la numa xícara de chá e dar para o marido beber em no máximo 77 segundos (!).

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Como já virou marca registrada, em determinados momentos, a autora faz críticas à indústria cultural, através de seus personagens. Como é o caso da MTV, que, segundo a avó, é um “canal de idiotas cantando seminus”. E a matriarca é quem dá o toque final com mais uma de suas tiradas, lembrando que na vida “às vezes você está montada no cavalo, às vezes é o cavalo que monta em você”.
>> JORNAL DO BRASIL- por Pedro de Luna

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